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— Qiaomu — pediu, estendendo-lhe a objetiva —, olhe para ali. Diga-me o que vê.

— Onde?

Ela apontou de novo. Passado um momento, ele localizou o lugar. Ellie percebeu-o por causa da sua ligeira, mas inequívoca, retenção da respiração.

— Outro buraco negro — disse ele. — Muito maior.

Estavam outra vez a cair. Agora o túnel era mais amplo e eles faziam melhor tempo.

— Será isto? — Ellie deu consigo a gritar a Devi. Trazem-nos a Vega para nos exibirem os seus buracos negros. Deixam-nos dar uma olhadela aos seus radiotelescópios de um milhar de quilômetros de distância. Demoramo-nos aí dez minutos, atiram-nos para outro buraco negro e recambiam-nos para a Terra. Foi por isso que gastamos dois bilhões de dólares?

— Talvez nós não contemos — dizia Lunacharsky. Talvez o verdadeiro objetivo fosse infiltrarem-se eles próprios na Terra.

Ellie imaginou escavações noturnas sob as portas de Tróia.

Eda, com os dedos das duas mãos esticados, recomendava calma.

— Aguardemos, para ver — disse. — Este túnel é diferente. Por que haveria de pensar que regressa à Terra?

— Não é Vega o nosso destino previsto? — perguntou Devi.

— O método experimental. Vejamos onde emergimos a seguir.

Neste túnel havia menos atrito com as paredes e menos ondulações. Eda e Vaygay discutiam um diagrama espaço-tempo que tinham desenhado nas coordenadas krusksl-Szekeres. Ellie não fazia idéia nenhuma daquilo de que falavam. O estágio de desaceleração, a parte da passagem que dava a sensação de subir, ainda era desconcertante.

Desta vez, a luz ao fundo do túnel era cor de laranja. Emergiram a uma velocidade considerável no sistema de um contato binário, dois sóis tocando-se. As camadas exteriores de uma estrela gigante vermelha, velha e dilatada emanavam para a fotosfera de uma estrela anã amarela, de meia-idade e vigorosa, uma coisa parecida com o Sol. A zona de contato entre as duas estrelas era brilhante. Ela olhou à procura de anéis de resíduos, ou planetas, ou radiobservatórios em órbita, mas não encontrou nada. Isso não queria dizer grande coisa, pensou. Estes sistemas poderiam ter um número razoável de planetas que eu nunca o conheceria com esta insignificante objetiva de grande profundidade de foco. Projetou o sol duplo no bocado de papel e fotografou a imagem com uma objetiva de pequena profundidade de foco.

Como não havia anéis, havia menos luz disseminada naquele sistema do que à volta de Vega; com a objetiva de ângulo largo conseguiu, depois de explorar um bocado, reconhecer uma constelação que se assemelhava suficientemente à Ursa Maior. Mas teve dificuldade em identificar as outras constelações. Como as estrelas brilhantes da Ursa Maior estão a algumas centenas de anos-luz da Terra, chegou à conclusão de que não tinham saltado mais de algumas centenas de anos-luz.

Disse-o a Eda e perguntou-lhe o que pensava.

— Que penso? Penso que isto é um metropolitano.

— Um metropolitano?

Lembrou-se da sensação de cair por momentos, parecera que nas profundas do Inferno — logo após a Máquina ter sido ativada.

— Um metrô. Um comboio subterrâneo. Estas são as estações. As paragens. Vega, e este sistema, e outros. Embarcam e desembarcam passageiros nas paragens. Aqui mudamos de comboio.

Eda apontou para o contato binário e ela reparou que a sua mão projetava duas sombras, uma antiamarela e outra antivermelha, como — foi a única imagem que lhe veio à cabeça — numa discoteca.

— Mas nós, nós não nos podemos apear — continuou Eda. — Nós estamos numa carruagem fechada. Seguimos para o término, para o fim da linha.

Drumlin apodara tais especulações de Fantasilândia e aquela era — tanto quanto ela podia saber — a primeira vez que Eda cedia à tentação.

Dos Cinco, Ellie era a única astrônoma observacional, embora a sua especialidade não fosse o espectro óptico. Considerava sua obrigação acumular o máximo de dados possível nos túneis e no espaço-tempo quadrimensional comum em que periodicamente emergiam. O presumível buraco negro do qual saíam encontrava-se sempre em órbita à volta de uma estrela ou de um sistema de estrelas múltiplas. Eram sempre aos pares, sempre dois compartilhando a mesma órbita similar — um do qual eram ejetados e outro no qual iam cair. Não havia dois sistemas estreitamente semelhantes. Nenhum era muito parecido com o sistema solar.

Todos forneciam percepções astronômicas instrutivas. Em nenhum deles se via nada parecido com um artefato — um segundo dodecaedro ou qualquer imenso projeto de engenharia para dividir um mundo e reconstituí-lo naquilo a que Xi chamara um engenho.

Desta vez emergiram perto de uma estrela que mudava visivelmente a sua luminosidade (pôde deduzi-lo pela progressão de flstops necessários). Talvez fosse uma das estrelas Lyrae RR. Perto havia um sistema quíntuplo e depois uma anã castanha fracamente luminosa. Algumas encontravam-se no espaço aberto e outras embebidas em nebulosidade, cercadas por incandescentes nuvens moleculares.

Ellie recordou a advertência. «Isto será deduzido da sua parte no Paraíso.»

Nada tinha sido deduzido da parte dela. Apesar de um esforço consciente para manter uma calma profissional, o seu coração estava eufórico com aquela profusão de sóis. Desejou que cada um deles fosse a casa de alguém. Ou viesse a ser um dia.

Mas depois do quarto salto começou a preocupar-se. Subjetivamente, e pelo seu relógio de pulso, parecia ter decorrido cerca de uma hora desde que tinham «deixado» Hokkaido. Se demorasse muito mais tempo, a ausência de certas instalações far-se-ia sentir. Provavelmente havia aspectos da fisiologia humana que não podiam ser deduzidos, mesmo depois de atenta observação televisiva, por uma civilização muito avançada.

E, se os extraterrestres eram tão espertos, por que nos faziam dar tantos pequenos saltos? Enfim, talvez o salto para fora da Terra utilizasse equipamento rudimentar em virtude de apenas primitivos estarem a trabalhar de um lado do túnel. Mas depois de Vega? Por que não nos lançavam diretamente para onde quer que o dodecaedro ia?

Todas as vezes que saía disparada de um túnel, Ellie sentia-se na expectativa. Que maravilhas a esperavam a seguir? Aquilo fazia-lhe lembrar um parque de diversões em escala muito grande, e deu consigo a imaginar Hadden a espreitar pelo seu telescópio para Hokkaido, no momento em que a Máquina fora ativada.

Por muito gloriosas que fossem as vistas oferecidas pelos autores da Mensagem, e por muito que lhe agradasse a sensação de domínio possessivo do assunto quando explicava aos outros algum aspecto da evolução estelar, ao fim de certo tempo sentiu-se decepcionada. Teve de se esforçar para compreender a que se devia tal sentimento. Não tardou a consegui-lo: os extraterrestres estavam a fanfarronar. Parecia incrível. Denunciava qualquer deficiência de caráter.

Enquanto mergulhavam por outro túnel abaixo, este mais largo e tortuoso do que os anteriores, Lunacharsky pediu a Eda uma opinião acerca do motivo por que as paragens do metropolitano se encontravam em sistemas estelares tão pouco prometedores:

— Por que não à volta de uma única estrela, uma estrela jovem, de boa saúde e sem resíduos?

— Porque — respondeu Eda —… claro que se trata apenas de uma opinião, como pediu… porque todos esses sistemas são habitados…

— E eles não querem que os turistas assustem os nativos — comentou Sukhavati.

Eda sorriu e acrescentou: