— Ou o contrário.
— Mas é isso que quer dizer, não é? Há uma espécie qualquer de ética e não interferência em planetas primitivos. Eles sabem que de vez em quando alguns dos primitivos poderiam utilizar o metropolitano…
— E eles estão muito seguros dos primitivos — disse Ellie, a continuar o pensamento —, mas não podem estar absolutamente seguros. Por isso, deixam-nos viajar apenas nos metropolitanos que vão para os lugarejos no meio do mato. Os construtores devem ser uma malta muito cautelosa. Mas, sendo assim, por que motivo nos mandaram um comboio suburbano, e não um expresso?
— Provavelmente é muito difícil construir um túnel expresso — opinou Xi, baseado em anos de experiência de escavações, e Ellie pensou no Túnel Honshu-Hokkaido, um dos orgulhos da engenharia civil da Terra, com os seus cinqüenta e um quilômetros de comprimento.
Algumas das curvas eram agora muito acentuadas. Ela lembrou-se do seu Thunderbird e depois receou agoniar-se. Decidiu lutar o mais tempo que pudesse contra esse mal estar. O dodecaedro não dispunha dos tradicionais saquinhos para o enjôo aéreo.
De repente encontraram-se numa reta e depois o céu apresentou-se coberto de estrelas. Para onde quer que olhasse havia estrelas, não a ninharia de alguns milhares ainda ocasionalmente reconhecidas a olho nu por observadores da Terra, mas uma imensa multitude — algumas, parecia, quase a tocarem as suas vizinhas mais próximas — a cercá-la em todas as direções, muitas delas coloridas de amarelo, azul ou vermelho — em especial de vermelho. O céu fulgurava com sóis vizinhos. Ellie conseguiu distinguir uma imensa nuvem espiralada de poeira, um disco de acreção a fluir aparentemente para um buraco negro de proporções espantosas, do qual saíam clarões de radiação, como relâmpagos de calor numa noite de Verão. Se aquilo era o centro da Galáxia, como ela suspeitava, devia estar banhado de radiação sincrotrônica. Desejou que os extraterrestres se tivessem lembrado quanto os humanos eram frágeis.
E, como se nadasse para o seu campo de visão, à medida que o dodecaedro rotacionava, aproximava-se… um prodígio, uma maravilha, um milagre. Alcançaram-no quase antes de se aperceberem. Enchia metade do céu. Voavam já por cima dele. Na sua superfície havia centenas, talvez milhares, de portais iluminados, cada um de forma diferente. Muitos eram poligonais, ou circulares, ou com um corte transversal elíptico; alguns tinham apêndices salientes ou uma seqüência de círculos excêntricos sobrepostos. Ela percebeu que eram portos de atracação, milhares de diferentes portos de atracação — uns tendo apenas, talvez, metros de tamanho, enquanto outros tinham inequivocamente quilômetros de diâmetro, ou mais. Cada um eles, concluiu, era a réplica, o molde de uma máquina interestelar como aquela. Grandes criaturas em grandes máquinas tinham imponentes portos de entrada. Pequenas criaturas, como nós, tinham pequenos portos. Era um critério democrático, sem qualquer indício de civilizações particularmente privilegiadas. A diversidade dos portos sugeria poucas distinções sociais entre as diversas civilizações, mas implicava uma diversidade de seres e culturas de tirar o fôlego. Falassem da Grand Central Station! — pensou.
A visão de uma Galáxia povoada, de um universo transbordante de vida e inteligência, deu-lhe vontade de chorar de alegria.
Aproximavam-se de um porto iluminado de amarelo que, como Ellie conseguiu ver, tinha a forma exata do dodecaedro em que viajavam. Observou um porto de atracação próximo, onde uma coisa do tamanho do dodecaedro e com a forma aproximada de uma estrela-do-mar estava a encaixar-se suavemente no seu molde. Olhou para a esquerda e para a direita, para cima e para baixo, para a curvatura quase imperceptível daquela grande estação situada no que calculava ser o centro da Via Láctea. Que orgulho para a espécie humana ser finalmente convidada para ali! Há esperança para nós, pensou. Há esperança!
— Bem, não é Bridgeport.
Disse as palavras em voz alta, quando a manobra de atracação se completou num silêncio perfeito.
CAPÍTULO XX
Grand Central Station
Todas as coisas são artificiais, pois a natureza é a arte de Deus.
Os anjos precisam de um corpo simulado, não por eles próprios, mas por nós.
O Demônio tem poder
Para assumir uma forma agradável.
A câmara de vácuo estava construída de maneira a acomodar apenas uma pessoa de cada vez. Quando tinham sido levantadas questões de prioridade — quanto a qual das nações seria a primeira representada no planeta de outra estrela —, os Cinco haviam levantado as mãos, escandalizados, e dito aos dirigentes do projeto não se tratar de uma missão desse gênero. Tinham evitado conscientemente discutir o assunto entre eles.
Tanto a porta interior como a exterior da câmara de vácuo se abriram simultaneamente. Eles não tinham dado nenhuma ordem.
Aparentemente, aquele setor da Grand Central estava adequadamente pressurizado e oxigenado.
— Bem, quem quer sair primeiro? — perguntou Devi.
De videocâmara na mão, Ellie esperava na bicha para sair, mas achou que a fronde de palmeira devia estar com ela quando pusesse os pés naquele novo mundo. Quando foi buscá-la, ouviu um grito de alegria vindo do exterior, provavelmente de Vaygay. Ellie correu para a brilhante luz solar. A soleira da porta exterior da câmara de vácuo estava cheia de areia. Devi, metida na água até aos tornozelos, chapinhava de brincadeira na direção de Xi. Eda tinha um grande sorriso rasgado no rosto.
Era uma praia. Desfaziam-se ondas na areia. O céu azul ostentava alguns cumulus indolentes. Havia uma série de palmeiras irregularmente espaçadas, um pouco afastadas da beira de água. Brilhava um sol no céu. Um sol. Amarelo. Exatamente como o nosso, pensou Ellie. Pairava no ar um aroma tênue; cravo-de-cabecinha, talvez, e canela. Podia ser uma praia de Zanzibar.
Tinham então feito uma viagem de trinta mil anos-luz para passear numa praia. Podia ser pior, pensou. Soprava uma brisa que provocava um pequeno redemoinho de areia à sua frente. Seria tudo aquilo apenas uma complicada simulação da Terra, talvez reconstruída a partir de dados trazidos por uma expedição de reconhecimento rotineira, um milhão de anos atrás? Ou teriam os Cinco empreendido aquela épica viagem somente para aperfeiçoarem o seu conhecimento de astronomia descritiva e serem depois abandonados sem-cerimônia num canto agradável da Terra?
Quando se voltou, verificou que o dodecaedro desaparecera. Tinham deixado a bordo o supercomputador supercondutor e a sua biblioteca de referências, assim como alguns dos instrumentos. O fato preocupou-os durante cerca de um minuto. Estavam em segurança e tinham sobrevivido a uma viagem acerca da qual valia a pena escrever para casa. Vaygay olhou a fronde que Ellie insistira em trazer consigo para a colônia de palmeiras ao longo da praia e riu-se.
— Chover no molhado — comentou Devi. Mas a fronde dela era diferente. Talvez ali tivessem espécies diferentes. Ou talvez a variedade local tivesse sido produzida por um fabricante desatento. Olhou para o mar. Veio-lhe irresistivelmente ao pensamento a imagem da primeira colonização do solo da Terra, havia cerca de quatrocentos milhões de anos. O que quer que aquilo fosse — o oceano Índico ou o centro da Galáxia —, os Cinco tinham feito uma coisa sem paralelo. Era verdade que o itinerário e os destinos estavam completamente fora da sua decisão. Mas eles tinham atravessado o oceano de espaço interestelar e iniciado o que seria com certeza uma nova era da história humana. Sentia-se muito orgulhosa.