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Teve um pequeno e estranho sonho. Os Cinco estavam a nadar — nus, sem constrangimento, debaixo de água —, ora a boiar indolentemente junto de um coral armação-de-veado, ora deslizando para fissuras que no momento seguinte ficavam obscurecidas pela passagem de massas de algas. A certa altura, ela subiu à superfície. Viu passar uma nave com a forma de um dodecaedro a pouca altura acima da água. As paredes eram transparentes e no interior distinguiam-se pessoas vestindo dhotis e sarongs, lendo jornais e conversando despreocupadamente. Voltou a mergulhar para debaixo da superfície da água. Para o lugar que lhe pertencia.

Embora o sonho parecesse prolongar-se durante muito tempo, nenhum deles tinha qualquer dificuldade em respirar. Inalavam e expiravam água. Não sentiam nenhum mal-estar — na verdade, nadavam tão naturalmente como se fossem peixes. Vaygay até se parecia um pouco com um peixe — talvez uma garoupa. A água deve ser tremendamente oxigenada, deduziu ela. No meio do sonho lembrou-se de um ratinho que vira uma vez num laboratório de fisiologia, perfeitamente satisfeito num frasco de água oxigenada, até a bater esperançadamente com as patinhas dianteiras. Uma cauda vermiforme estendia-se atrás dele. Tentou recordar quanto oxigênio era necessário, mas achou que dava muito trabalho. Cada vez pensava menos, achou. Não há problema. Realmente.

Os outros tinham-se entretanto tornado distintamente pisciformes. As barbatanas de Devi eram translúcidas. Era obscuramente interessante, vagamente sensual. Desejou que continuasse, para poder entender alguma coisa. Mas até a pergunta a que queria responder lhe escapava. «Oh, respirar água tépida!», pensou. Que inventarão a seguir?

Ellie acordou com um sentimento de desorientação tão profundo que raiava a vertigem. Onde estava? Wisconsin, Puerto Rico, Novo México, Wyoming, Hokkaido? Ou no estreito de Malaca? Depois lembrou-se. Não era claro o ponto da Galáxia da Via Láctea em que se encontrava, dentro de um espaço de trinta mil anos-luz; provavelmente, o recorde de desorientação de todos os tempos, pensou. Apesar de lhe doer a cabeça, riu-se; e Devi, que dormia ao lado dela, mexeu-se. Devido ao declive da praia — na tarde anterior tinham efetuado um reconhecimento numa distância de cerca de um quilômetro sem encontrar nenhum vestígio de habitação —, a luz direta do Sol ainda a não alcançara. Ellie estava deitada numa almofada de areia. Devi, que acordava naquele momento, dormira com a cabeça apoiada no fato-macaco enrolado.

— Não acha que há alguma coisa de papa-açordice numa cultura que precisa de almofadas moles? — perguntou Ellie. — Naqueles que deitam a cabeça em jugos de madeira, à noite, nesses é que os apostadores batidos arriscam o seu dinheiro.

Devi riu-se e deu-lhe os bons-dias.

Ouviram gritar, de um ponto mais acima, na praia. Os três homens acenavam e chamavam-nas com gestos. Ellie e Devi levantaram-se e juntaram-se-lhes.

A prumo, na areia, encontrava-se uma porta. Uma porta de madeira, com almofadas e um puxador de latão. Pelo menos parecia de latão. A porta tinha dobradiças de metal pintadas de preto e estava instalada entre duas ombreiras, uma padieira e uma soleira. Não tinha nenhuma placa com o nome. Não era em aspecto nenhum extraordinária. Para a Terra.

— Agora dê a volta para a parte de trás — convidou Xi.

Pela parte de trás, a porta não estava ali. Ellie via Eda, Vaygay e Xi, e Devi um bocadinho afastada; via a areia contínua, sem nenhuma interrupção, entre eles quatro e ela. Desviou-se para o lado, com os calcanhares molhados pelas ondas, e distinguiu uma única linha vertical escura com a espessura de uma lâmina. Sentiu relutância em tocar-lhe. Voltou de novo à parte de trás e confirmou que não havia quaisquer sombras ou reflexos no ar diante de si e depois andou para a frente.

— Bravo! — exclamou Eda, a rir.

Ellie virou-se e encontrou a porta fechada à sua frente.

— Que viram? — perguntou.

— Uma mulher encantadora passando através de uma porta fechada com dois centímetros de espessura.

Vaygay parecia estar a sentir-se bem, apesar da falta de cigarros.

— Tentaram abrir a porta? — perguntou Ellie.

— Ainda não — respondeu Xi.

Ela voltou a recuar, para admirar a aparição.

— Parece uma coisa de… Como se chama aquele surrealista francês? — perguntou Vaygay.

— René Magritte — respondeu ela. — Era belga.

— Concordamos, presumo, que isto não é realmente a Terra — opinou Devi, abrangendo com um gesto oceano, praia e céu.

— A não ser que estejamos no golfo Pérsico há três mil anos e haja gênios por aí — respondeu Ellie a rir.

— Não a impressiona o cuidado da construção?

— Pois sim, são muito bons, admito isso — concordou Ellie. — Mas para que serve? Para que se terão entregado a todo este trabalho minucioso?

— Talvez tenham apenas a paixão de fazer as coisas bem feitas.

— Ou talvez estejam apenas a exibir-se.

— Não compreendo como poderiam conhecer as nossas portas tão bem — continuou Devi. — Pense nas muitas maneiras diferentes de fazer uma porta. Como podiam eles saber?

— Pode ter sido pela televisão — respondeu Ellie. — Vega recebeu sinais de televisão da Terra até… deixe ver… até à programação de 1974. É evidente que podem mandar os clips interessantes para aqui, por mensageiro especial, num ápice. Provavelmente apareceram inúmeras portas na televisão entre 1936 e 1974. Muito bem — continuou, como se não fosse mudar de assunto —, que pensam que aconteceria se abríssemos a porta e entrássemos?

— Se estamos aqui para sermos examinados — respondeu Xi —, do outro lado daquela porta talvez esteja o exame, porventura um para cada um de nós.

Ele estava preparado. Ela também desejou estar.

As sombras das palmeiras mais próximas projetavam-se agora na praia. Silenciosos, olharam uns para os outros. Pareciam os quatro ansiosos por abrir a porta e transpor o limiar. Só ela sentia alguma… relutância. Perguntou a Eda se ele gostaria de passar primeiro. Já agora, é conveniente pôr à frente o nosso melhor pé, pensou.

Ele pôs o barrete, fez uma vênia ligeira, mas graciosa, voltou-se e dirigiu-se para a porta. Ellie correu para ele e beijou-o nas duas faces. Os outros também o abraçaram. Ele virou-se de novo, abriu a porta, entrou e desapareceu, volatizou-se, o pé avançado primeiro, a mão a balançar por último. Com a porta entreaberta, parecera haver apenas a continuação da praia e. das ondas atrás dele. A porta fechou-se. Ellie contornou-a, mas não havia nenhum vestígio de Eda.

Seguiu-se Xi. Ellie sentiu-se confundida com a docilidade de todos eles, com a aceitação imediata de todos os convites anônimos que lhes tinham sido feitos. Podiam ter-nos dito aonde nos iam levar e para que era tudo isto, pensou. Isso podia ter feito parte da Mensagem, ou sido informação transmitida depois de a Máquina ser ativada. Podiam ter-nos dito que íamos atracar numa simulação de uma praia da Terra. Podiam ter-nos dito que esperássemos à porta. É evidente que, apesar de todos os seus talentos, os extraterrestres talvez saibam inglês imperfeitamente, tendo a televisão como único professor. O seu conhecimento de russo, mandarim, tamil e hausa seria ainda mais rudimentar. Mas eles tinham inventado a linguagem introduzida no manual de instruções da Mensagem. Por que não a usaram? Para conservarem o elemento surpresa?

Vaygay viu-a de olhos fixos na porta fechada e perguntou-lhe se desejava entrar a seguir.

— Obrigada, Vaygay. Tenho estado a pensar. Sei que é um pouco idiota, mas veio-me à cabeça… Por que temos de saltar através de todos os arcos que eles seguram para nós? Suponhamos que não fazemos o que eles pedem?

— Ellie, é tão americana! Para mim, isto é como estar na minha terra. Estou habituado a fazer o que as autoridades sugerem… especialmente quando não tenho outra alternativa.