Выбрать главу

Sorriu e girou agilmente nos calcanhares.

— Não aceite conversa fiada nenhuma do grão-duque! — recomendou ela, quando ele saiu.

Lá, muito no alto, uma gaivota piou. Vaygay deixara a porta entreaberta. Do outro lado continuava a haver apenas praia.

— Está bem? — perguntou-lhe Devi.

— Estou ótima. Palavra. Quero apenas ficar um momento comigo própria. Já os sigo.

— Sério, estou a perguntar como médica. Sente-se bem?

— Acordei com uma dor de cabeça e creio que tive uns sonhos muito fantasiosos. Não lavei os dentes nem bebi o meu café forte. Também não me importaria de ler o jornal da manhã. Tirando tudo isso, estou realmente bem.

— Parece, de fato, que está. Por acaso, também tenho uma dorzita de cabeça. Cuide de si, Ellie. Fixe tudo na memória, para mo poder contar… quando nos voltarmos a encontrar.

— Assim farei! — prometeu Ellie.

Beijaram-se e desejaram-se mutuamente felicidades. Devi transpôs o limiar e desapareceu. A porta fechou-se atrás dela. Depois, Ellie teve a impressão de que captara um odor a caril.

Lavou os dentes com água salgada. Fizera sempre parte da sua natureza um certo pendor para a meticulosidade, para o extremo asseio. Bebeu leite de coco como pequeno-almoço. Cuidadosamente, limpou toda a areia acumulada nas superfícies exteriores do sistema de microcâmara e do seu minúsculo arsenal de videocassetes em que registrara maravilhas. Lavou a fronde de palmeira na rebentação, como fizera no dia em que a encontrara em Cocoa Beach, pouco antes de partir para Methuselah

A manhã já estava quente e ela resolveu tomar banho. Com a roupa muito bem dobrada em cima da palmeira, mergulhou ousadamente na rebentação. Podem ser capazes de tudo, mas é pouco provável que os extraterrestres se sintam excitados pela vista de uma mulher nua, mesmo que ela esteja muito bem conservada, pensou. Tentou imaginar um microbiólogo excitado, levado a cometer crimes passionais depois de observar uma paramécia surpreendida em flagrante delito de mitose.

Languidamente, flutuou de costas, a subir e a descer, com o seu ritmo lento faseado com a chegada de sucessivas cristas de ondas. Tentou imaginar milhares de… câmaras, mundos simulados, fosse o que fosse que aqueles eram, comparáveis — cada um deles uma cópia meticulosa da parte mais agradável do planeta natal de uma pessoa. Milhares deles, cada um com céu e tempo, oceano, geologia e vida indígena indistinguíveis dos originais. Parecia uma extravagância, embora também sugerisse que estava ao alcance do possível uma conseqüência satisfatória: fossem quais fossem os recursos disponíveis, não se fabricava uma paisagem àquela escala para cinco espécimes de um mundo condenado.

Por outro lado… A idéia de extraterrestres como guardas de jardim zoológico tornara-se algo parecido com um clichê. E se aquela estação de grande tamanho, com a sua profusão de portos de atracação e ambientes, fosse realmente um zôo? «Vejam os animais exóticos nos seus habitats nativos» imaginou um pregoeiro de cabeça de caracol a gritar. Vêm turistas de toda a Galáxia, especialmente durante as férias escolares. E depois, quando há um exame, os chefes de estação transferem temporariamente as criaturas e os turistas, varrem a praia para apagar as pegadas e proporcionam aos primitivos que estão a chegar meio dia de repouso e recreio antes de a provação do exame começar.

Ou talvez fosse assim que eles abasteciam os zôos. Ellie pensou nos animais fechados em jardins zoológicos terrestres que se dizia terem sentido dificuldade em se reproduzir no cativeiro. Deu uma cambalhota na água e mergulhou sob a superfície, num instante de constrangimento. Deu algumas braçadas fortes na direção da praia e, pela segunda vez em vinte e quatro horas, desejou ter tido um filho.

Não estava ninguém por ali e não se lobrigava uma vela no horizonte. Algumas gaivotas percorriam a praia, aparentemente à procura de caranguejos. Desejou ter trazido pão para lhes dar. Depois de secar, vestiu-se e inspecionou de novo a porta. Estava ali, meramente à espera. Sentiu a mesma relutância em entrar. Mais do que relutância. Talvez medo.

Afastou-se, sem a perder de vista. Sentada debaixo de uma palmeira, com os joelhos erguidos para o queixo, percorreu com o olhar a longa extensão de praia arenosa branca.

Passados momentos levantou-se e espreguiçou-se um pouco. Com a fronde e a microcâmara numa das mãos, aproximou-se da porta e girou o puxador. A porta abriu-se um nadinha. Através da abertura viu as cristas brancas das ondas, ao largo. Empurrou mais um bocadinho e a porta abriu-se sem um gemido. A praia, serena e desinteressada, olhava para ela. Abanou a cabeça, voltou para trás e retomou a anterior postura pensativa.

Pensou nos outros com curiosidade. Estariam agora, nalguma estranha instalação examinadora, a estudar avidamente as perguntas de múltipla opção de resposta? Ou tratar-se-ia de uma prova oral? E quem eram os examinadores? Sentiu a inquietação aumentar de novo. Outro ser inteligente — um ser que evoluíra independentemente nalgum mundo distante, em condições físicas alheias às da Terra e com uma seqüência de mutações genéticas fortuitas completamente diferentes… um tal ser não se assemelharia a ninguém que ela conhecia. Ou imaginava, sequer. Se aquela era uma estação de exame, então havia chefes de estação, e os chefes de estação tinham de ser totalmente, devastadoramente não humanos. Havia dentro dela, lá muito no fundo, um não sei quê que se incomodava com insetos, cobras, toupeiras de focinho estrelado. Era uma pessoa que sentia um pequeno calafrio — para falar claro, um tremor de repugnância — quando confrontada com seres humanos defeituosos, ainda que ligeiramente. Aleijados, crianças com a síndrome de Down, até mesmo o aspecto do parkinsonismo, despertavam nela, mal-grado a sua resolução intelectual em contrário, um sentimento de nojo, um desejo de fugir. De modo geral, fora capaz de conter o seu medo, embora receasse ter alguma vez magoado alguém por causa dele. Não gostava muito de pensar naquilo; adivinhava o seu próprio embaraço e desviava o pensamento para outro tópico.

Mas agora preocupava-a a possibilidade de ser incapaz de enfrentar sequer — quanto mais de influenciar a favor da espécie humana — um ser extraterrestre. Na seleção não se tinham lembrado de examinar os Cinco acerca desse aspecto. Não houvera nenhum esforço para determinar se eles tinham medo de ratinhos, ou anões, ou marcianos. Fora coisa que não ocorrera, pura e simplesmente, às comissões selecionadoras. Perguntou a si mesma por que não teriam pensado nisso. Agora parecia-lhe um ponto de interesse bastante evidente.

Fora um erro terem-na mandado. Talvez, quando confrontada com algum chefe de estação galáctico com cabelo feito de serpentes, ela se desgraçasse — ou, muito pior, fizesse desviar a graduação dada à espécie humana, no inimaginável exame que estava a ser feito, de «aprovado,» para «reprovado». Olhou, com um misto de apreensão e atração, para a porta enigmática, cujo limite inferior estava agora debaixo de água. A maré enchia.

Surgiu uma figura na praia, a algumas centenas de metros de distância. Ao princípio julgou que fosse Vaygay, talvez despachado cedo do exame e que vinha dar-lhe a boa nova. Mas quem quer que era não vestia um fato-macaco do Projeto Máquina. Ademais, parecia uma pessoa mais jovem, mais vigorosa. Ellie estendeu a mão para a objetiva de grande profundidade de foco, mas hesitou, sem saber por quê. Levantou-se e protegeu os olhos do sol, com a mão em pala. Por um momento, por um momento apenas, parecera-lhe… Era claramente impossível. Eles não se aproveitariam de uma vantagem tão indecente sobre ela.

Mas não pôde conter-se. Desatou a correr direita a ele pela areia dura da beira de água, com o cabelo a esvoaçar atrás de si. Ele tinha o mesmo aspecto da fotografia que vira recentemente, parecia vigoroso, feliz. Apresentava a barba crescida, de um dia. Ela lançou-se-lhe nos braços a soluçar.