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— Olá, Presh — disse ele, a afagar-lhe a parte de trás da cabeça com a mão direita.

Era a sua voz. Reconheceu-a imediatamente. E o seu cheiro, o seu andar, o seu riso. O mesmo arranhar que a barba lhe causava na face. Tudo isso se combinou para esfrangalhar o seu autodomínio. Sentiu uma pedra maciça a ser forçada, levantada, e os primeiros raios de luz a penetrarem num túmulo antigo, quase esquecido.

Engoliu em seco e tentou controlar-se, mas ondas de angústia aparentemente inesgotável jorravam dela e voltava a chorar. Ele estava pacientemente parado, a tranqüilizá-la com o mesmo olhar — lembrava-se agora — que lhe lançara do seu lugar no fundo da escada, durante a primeira descida a solo que ela fizera dos grandes degraus. Mais do que tudo, ansiara por voltar a vê-lo, mas reprimira esse sentimento, impacientara-se com ele, por ser tão claramente impossível de realizar. Chorou por todos os anos perdidos entre os dois.

Na adolescência e quando jovem mulher, sonhara que ele a procurava para lhes dizer que a sua morte fora um engano, que estava realmente bem. E erguia-a, num vôo, nos braços. Mas ela pagava esses breves momentos de suspensão do sofrimento com o reacordar doloroso num mundo em que ele já não se encontrava. Apesar disso, considerara esses sonhos um tesouro e pagara de bom grado o preço exorbitante quando, na manhã seguinte, era obrigada a redescobrir a sua perda e a experimentar de novo a agonia que ela lhe causava. Esses momentos-fantasmas eram tudo quanto lhe restava dele.

E agora ei-lo ali — não um sonho ou um fantasma, mas carne e sangue. Ou coisa muito parecida. Chamara-a das estrelas e ela acorrera.

Abraçou-o com toda a sua força. Sabia que era um truque, uma reconstrução, uma simulação, mas era impecável, sem um defeito. Segurou-o um momento pelos ombros, de braços estendidos. Era perfeito. Era como se o seu pai tivesse morrido e ido para o Céu havia tantos anos, e finalmente — por aquele caminho nada ortodoxo — ela tivesse conseguido reunir-se-lhe. Soluçou e abraçou-o de novo.

Precisou de um minuto para se dominar. Se tivesse sido Ken, por exemplo, ela teria pelo menos brincado com a idéia de que outro dodecaedro — talvez uma Máquina soviética reparada — estabelecera uma carreira posterior da Terra ao centro da Galáxia. Mas semelhante possibilidade não podia ser encarada nem por um momento em relação a ele. Os seus restos apodreciam num cemitério junto de um lago.

Limpou os olhos, a rir e a chorar ao mesmo tempo.

— A que devo então esta aparição… à robótica ou à hipnose?

— Sou um artefato ou um sonho? Podias fazer essa pergunta a respeito de tudo.

— Ainda hoje, não passa uma semana em que não pense que daria tudo, tudo quanto tenho, somente para passar de novo alguns minutos com o meu pai.

— Pois aqui estou — respondeu ele alegremente, de mãos levantadas e descrevendo meia volta para que ela pudesse ter a certeza de que a parte de trás do seu corpo também ali estava.

Mas era tão jovem, certamente mais jovem do que ela. Tinha morrido com trinta e seis anos apenas.

Talvez aquela fosse a maneira de eles acalmarem os seus temores. Se era assim, eram muito… atenciosos. Ellie conduziu o pai para junto das suas poucas coisas, a enlaçá-lo pela cintura. Ele dava a sensação, sem dúvida nenhuma, de ser suficientemente substancial. Se havia sistemas de engrenagens interligadas e circuitos integrados debaixo da sua pele estavam bem escondidos.

— Então como vamos indo? — inquiriu. A pergunta era ambígua. — Quero dizer…

— Eu sei. Passaram muitos anos desde que receberam a Mensagem até chegarem aqui.

— Classificam pela rapidez ou pela exatidão?

— Nem por uma coisa, nem por outra.

— Quer dizer que ainda não completamos o exame?

Ele não respondeu.

— Bem, explique-me — pediu, com certa angústia. Alguns de nós levamos anos a descriptografar a Mensagem e a construir a Máquina. Não me vai dizer tudo, explicar do que se trata?

— Tornaste-te uma grande curiosa — disse ele, como se fosse realmente seu pai, como se estivesse a comparar as últimas recordações que conservava dela com a sua personalidade presente e ainda incompletamente desenvolvida.

Despenteou-lhe o cabelo, com um gesto afetuoso. Ela também se recordava de que ele costumava fazer isso quando era pequena. Mas como podiam eles, a trinta mil anos-luz da Terra, conhecer os gestos afetuosos do pai, no Wisconsin distante no tempo e no espaço?

De súbito adivinhou:

— Sonhos — disse. — A noite passada, quando estávamos todos a sonhar, vocês estavam dentro das nossas cabeças, não é verdade? Extraíram tudo quanto nós sabemos.

— Só fazemos cópias. Penso que tudo quanto costumava estar na tua cabeça ainda lá está. Olha bem. Diz-me se falta alguma coisa.

Sorriu e continuou:

— Havia tantas coisas que os vossos programas de televisão não nos diziam! Conseguíamos avaliar o vosso nível tecnológico muito bem e mais uma quantidade de coisas a vosso respeito. Mas há muito mais na vossa espécie do que isso, coisas que com certeza não conseguiríamos aprender indiretamente. Admito que possam sentir alguma intrusão na intimidade…

— Está a brincar.

— … mas temos tão pouco tempo!

— Quer dizer que o exame terminou? Respondemos a todas as vossas perguntas a noite passada, enquanto dormíamos? E então? Ficamos aprovados ou reprovados?

— Não se trata disso. Não é como o sexto ano do liceu.

Ela freqüentava o sexto ano quando ele morrera.

— Não nos vejam como qualquer xerife interestelar a abater civilizações fora da lei. Vejam-nos mais como o Gabinete de Recenseamento Galáctico. Nós recolhemos informação. Sei que pensam que ninguém tem nada a aprender com vocês, porque estão tecnologicamente tão atrasados. Mas há outros méritos numa civilização.

— Que méritos?

— Oh, música! Bondade carinhosa. (Gosto destas palavras.) Sonhos. Os humanos são muito bons a sonhar, embora nunca pudéssemos saber isso através da sua televisão. Há culturas em toda a Galáxia que permutam sonhos.

— Funcionam como um centro de intercâmbio cultural interestelar? É disso que se trata? Não se importam se alguma civilização rapace e sanguinária descobre e aperfeiçoa o vôo espacial interestelar?

— Eu disse que admiro a bondade carinhosa.

— Se os nazis tivessem conquistado o mundo, o nosso mundo, e depois desenvolvessem o vôo espacial interestelar, vocês não teriam intervindo?

— Ficarias surpreendida se soubesses como é raro acontecer uma coisa dessas. A longo prazo, as civilizações agressivas quase sempre se auto-destroem. Está na sua natureza. Não podem evitá-lo. Num caso desses, a nossa missão seria deixá-las em paz. Certificarmo-nos de que ninguém as incomodava. Deixá-las compreender o seu destino.

— Então por que não nos deixaram em paz? Não estou a protestar, note. Sinto apenas curiosidade quanto ao modo como o Gabinete de Recenseamento Galáctico funciona. A primeira coisa que captaram de nós foi aquela transmissão do Hitler. Por que estabeleceram contato?

— Claro que o quadro era alarmante. Compreendemos que vocês estavam metidos num grande sarilho. Mas a música disse-nos outra coisa. Beethoven disse-nos que havia esperança. Os casos marginais são a nossa especialidade. Pensamos que lhes seria útil uma pequena ajuda. Na realidade, só podemos oferecer uma pequena ajuda. Tu compreendes. Há certas limitações impostas pela causalidade.

Tinha-se acocorado, a passar as mãos pela água, e agora estava a enxugá-las nas calças.

— A noite passada olhamos para dentro de vocês. De todos os Cinco. Há muita coisa lá: sentimentos, recordações, instintos, comportamento aprendido, percepções, loucura, sonhos, amores. O amor é muito importante. Vocês são uma mistura interessante.