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— Tudo isso numa noite de trabalho? — Estava a provocá-lo um bocadinho.

— Tínhamos de nos apressar. O nosso programa é muito apertado.

— Por quê, está alguma coisa prestes a…

— Não. Sucede apenas que, se não engendramos uma causalidade consistente, ela se desenvolve sozinha. Então é quase sempre pior.

Ellie não fez a mais pequena idéia do que ele queria dizer.

— «Engendrar uma causalidade consistente.» O meu pai nunca costumava falar assim.

— Costumava, com certeza. Não te lembras como ele te falava? Era um homem muito lido, e desde pequenina que ele… eu… te falei como um igual. Não te lembras?

Ela lembrava-se. Lembrava-se. Pensou na mãe num lar de idosos.

— Que bonito medalhão — observou ele, exatamente com aquele ar de reserva paternal que ela sempre imaginara que o pai cultivaria se tivesse vivido para assistir à sua adolescência.

— Quem to deu?

— Ah, isto! — exclamou, a apalpar o medalhão. — Para falar verdade, é de alguém que não conheço muito bem. Pôs a minha fé à prova. Ele… Mas você já deve saber isso tudo.

Ele voltou a sorrir.

— Quero saber o que pensa de nós — disse Ellie, concisamente. — O que pensa de fato.

Ele não hesitou um momento sequer.

— Está bem. Penso que é extraordinário que se tenham saído tão bem como saíram. Praticamente, não têm nenhuma teoria de organização social, têm sistemas econômicos espantosamente atrasados, não têm nenhuma compreensão da engrenagem da predição histórica e têm muito pouco conhecimento a respeito de vocês próprios. Considerando a rapidez com que o vosso mundo está a mudar, é surpreendente que não tenham já ido pelos ares. É por isso que não queremos dá-los já por perdidos. Vocês, humanos, possuem um certo talento para a adaptabilidade… pelo menos no curto prazo.

— É esse o problema, não é?

— Esse é um problema. Verifica-se que, passado algum tempo, as civilizações possuidoras apenas de perspectivas a curto prazo desaparecem. Também cumprem o seu destino.

Ellie queria perguntar-lhe o que ele sentia sinceramente a respeito dos humanos. Curiosidade? Compaixão? Nenhuma espécie de sentimento, eles faziam apenas parte de um dia de trabalho? No fundo do seu coração — ou do órgão interno equivalente, fosse ele qual fosse, que possuía —, sentia a respeito dela como ela sentia a respeito de… de uma formiga? Mas não foi capaz de perguntar. Tinha demasiado medo da resposta.

Tentou fazer alguma idéia, pela entonação da voz e pelas nuances do que dizia, de quem estava ali disfarçado como seu pai. Ela tivera uma quantidade imensa de experiência direta com seres humanos; os chefes de estação tinham tido menos de um dia. Não seria capaz de discernir qualquer coisa da sua verdadeira natureza sob aquela fachada amigável e informativa? Mas não, não era. No conteúdo das suas palavras, ele não era, evidentemente, o seu pai, nem fingia ser. Mas em todos os outros aspectos parecia-se espantosamente com Theodore F. Arroway, 1924-60, vendedor de ferragens, marido e pai amante. Não fora um contínuo esforço de vontade, e ela estaria toda babosa, toda sentimental com aquela, aquela… cópia. Sabia-o. Uma parte do seu ser queria perguntar-lhe como tinham corrido as coisas desde que ele fora para o Céu. Quais eram as suas opiniões acerca de Advento e Êxtase? Preparava-se alguma coisa de especial para o Milênio? Havia culturas humanas que ensinavam a existência de uma vida além da morte dos abençoados em cumes de montanhas ou em nuvens, em cavernas ou oásis, mas ela não se lembrava de nenhuma que dissesse que, se uma pessoa era muito, muito boa, ia para a praia quando morria.

— Dispomos de tempo para algumas perguntas antes… do que quer que temos de fazer a seguir?

— Com certeza. Uma ou duas, pelo menos.

— Fale-me do vosso sistema de transporte.

— Posso fazer melhor do que isso. Posso mostrar-te. Agüenta firme agora.

Uma ameba de negrume escorreu do zênite, obscurecendo o Sol e o céu azul.

— Grande truque — comentou ela, ofegante.

Debaixo dos seus pés estava a mesma praia arenosa, na qual ela enterrou os dedos. Por cima… estava o cosmo. Encontravam-se, parecia, muito alto, sobre a Galáxia da Via Láctea, a olhar para baixo, pela sua estrutura espiralada, e a cair na sua direção a uma velocidade impossível. Ele explicou-lhe em termos práticos, utilizando a linguagem científica familiar da própria Ellie para descrever essa imensa estrutura em forma de roda de pinos. Mostrou-lhe o Braço Espiral de Órion, no qual o Sol estava, naquela época, embebido. Interiormente em relação a ele, por ordem decrescente de significado mitológico, encontravam-se o Braço de Sagitário, o Braço Norma/Scutum e o Braço de Três Kiloparsec.

Apareceu uma rede de linhas retas, representando o sistema de transporte que eles tinham utilizado. Lembrava os mapas iluminados do Metro de Paris, Eda tivera razão. Cada estação, deduziu Ellie, ficava num sistema estelar com um buraco negro duplo de massa baixa. Ela sabia que os buracos negros não podiam ter resultado de colapso estelar, da evolução normal de sistemas estelares maciços, porque eram demasiado pequenos. Talvez fossem primordiais, restos do Big Bang apresados por alguma nave estelar inimaginável e rebocados para a estação que lhes fora designada. Ou talvez tivessem sido feitos a partir do nada, desde o princípio. Desejou perguntar-lhe isso, mas a excursão avançava a uma velocidade estonteante.

Havia um disco de hidrogênio incandescente a rotacionar à volta do centro da Galáxia e dentro dele um anel de nuvens moleculares a correr para o exterior, na direção da periferia da Via Láctea. Ele mostrou-lhe os movimentos ordenados no conjunto de nuvens moleculares gigante Sagitário B2, que durante décadas fora um terreno de caça de moléculas orgânicas complexas preferencialmente explorado pelos seus colegas radioastrônomos na Terra. Mais perto do centro encontraram outra nuvem molecular gigante e depois a Sagitário A Ocidental, uma intensa fonte de rádio que a própria Ellie observara em Argus.

E imediatamente adjacentes, no próprio centro da Galáxia, apertados num apaixonado abraço gravitacional, um par de imensos buracos negros. A massa de um deles era de cinco milhões de sóis. Rios de gás com as dimensões de sistemas solares escorriam da sua bocarra. Dois colossais — Ellie pensou, agastada, nas limitações da linguagem da Terra —, dois supermaciços buracos negros orbitam-se um ao outro no centro da Galáxia. A existência de um fora conhecida, ou dela houvera, pelo menos, fortes suspeitas. Mas dois? Não deveria isso ter-se revelado como uma deslocação de linhas espectrais Doppler? Imaginou um letreiro da parte de baixo de um deles dizendo ENTRADA e da do outro SAÍDA. Naquele momento, a entrada estava a ser utilizada; a saída encontrava-se apenas ali.

E era aí que se situava aquela estação — a Grand Central Station —, em toda a segurança no exterior dos buracos negros do centro da Galáxia. Milhões de jovens estrelas vizinhas tornavam o firmamento brilhante; mas as estrelas, o gás e a poeira estavam a ser devorados pelo buraco negro de entrada.

— Vai ter a qualquer lado, não é verdade? — perguntou Ellie.

— Claro.

— Pode dizer-me onde?

— Com certeza. Todo este material vai parar a Cygnus A.

Cygnus A era uma coisa acerca da qual ela estava informada. Tirando apenas o resto de uma supernova próxima, em Cassiopéia, era a fonte de rádio mais brilhante do firmamento da Terra. Ela calculara que Cygnus A produzia num segundo mais energia do que o Sol em quarenta mil anos. A fonte de rádio encontrava-se a seiscentos milhões de anos-luz de distância, muito para além da Via Láctea, no seu reino das galáxias. Como acontecia com muitas fontes de rádio extragalácticas, dois enormes jatos de gás, viajando separados quase à velocidade da luz, faziam uma teia complexa de frentes de choque Rankine-Hugoniot com o rarefeito gás intergaláctico — e produziam, no processo, um farol de rádio que brilhava vivamente sobre a maior parte do universo. Toda a matéria daquela enorme estrutura, com quinhentos mil anos-luz de diâmetro, saía de um pequeno e quase insignificante ponto no espaço, exatamente a meio caminho entre os jatos.