Numa questão de semanas, Lorde Ariakan tornou-se o dono e senhor de mais territórios do que os Senhores Supremos dos Dragões haviam conseguido conquistar durante a Guerra da Lança. E isto com muito menos baixas, de ambos os lados.
A vida mudou para os conquistados, mas apenas por formas sutis que não se tornaram óbvias de imediato. Os que receavam a chacina e a matança desenfreadas, como haviam presenciado durante a última guerra, surpreenderam-se ao constatar que os cavaleiros, embora de um modo rude, tratavam os vencidos com justiça. Difundiram-se leis rigorosas, de cumprimento frio, desapaixonado e por vezes brutal. Excetuando as escolas que divulgavam os ensinamentos da Rainha das Trevas, as demais foram encerradas. Qualquer feiticeiro, apanhado fora dos limites da Torre de Wayreth, corria perigo. Os que desrespeitavam as leis, eram condenados à morte. Sem apelo nem agravo. A exuberante cidade de Flotsam, conhecida pela grosseria e turbulência dos seus habitantes, no final do mês, tornara-se submissa, calma e pacífica.
Havia quem defendesse esta paz como uma coisa boa. Já não era sem tempo, os homens honestos poderem viver em território ordeiro e seguro. Havia outros que consideravam o preço cobrado por esta paz, comprada em troca da liberdade deles, muito alto.
Depois do último cliente sair, Tika Waylan Majere fechou a porta, baixou a pesada tranca de madeira e deu um suspiro. Não retomou logo as tarefas — e havia tanto que fazer: canecas para lavar e enxugar, travessas para raspar e transportar para a cozinha, mesas para limpar. Tika permaneceu junto à porta da estalagem, de cabeça inclinada, retorcendo o avental nas mãos. Permaneceu por tanto tempo e tão silenciosa, que Caramon parou de limpar o bar e se aproximou da mulher.
Colocou-lhe os braços em volta dos ombors e ela encostou-se ao marido e envolveu-lhe os pulsos com as mãos.
— Que se passa? — perguntou ele com brandura. Tika abanou a cabeça.
— Nada — respondeu, soltando novo suspiro. — Tudo. — Passou a mão pelos olhos. — Oh, Caramon! Não costumava ficar contente quando, à noite, fechava a estalagem. Costumava sentir-me penalizada por ver o último cliente partir. Mas agora, fico triste por ter que abrir a estalagem de manhã. Tudo mudou! Está tudo mudado!
Virando-se, enterrou o rosto no peito do marido e começou a soluçar. Caramon pôs-se a acariciar o cabelo ruivo com doçura.
— Você só está cansada, querida. O calor a derrubou. Anda, vamos nos sentar. Deixamos isto tudo para amanhã. Os pratos sujos não vão fugir. Anda, descansa, vou buscar um copo de água fresca.
Tika sentou-se. Não que lhe apetecesse o copo de água que, na melhor das hipóteses, estaria morna. Com aquele calor ficava tudo quente, até a cerveja. Os clientes estavam aprendendo a gostar de cerveja morna. Mas Caramon sentia-se feliz por lhe agradar, de modo que se sentou e permitiu que o marido lhe trouxesse água e os biscoitos preferidos, e que enxotasse Raf, o duende dos esgotos, que entrara vindo da cozinha, ansioso por “limpar” os pratos e que assim fez, devorando os restos de comida.
Com um duende dos esgotos por perto, quem precisava de caixotes de lixo?
Tika ouviu o desapontado Raf choramingar na cozinha. Carrancudo, Caramon atirou-lhe um pedaço de pão bolorento e fechou de novo a porta com estrépito. Continuaram a ouvir-se os choramingos.
Tika mordiscou um bolinho. Não sentia fome, mas se não comesse Caramon continuaria cercândo-a e a preocupar-se até fazê-lo. Vendo-a comer, exibiu um rasgado sorriso, sentou-se ao seu lado e deu-lhe palmadinhas na mão.
— Eu sabia que esses biscoitos te abririam o apetite.
— São deliciosos, querido — disse Tika, mentindo. Os bolinhos tinham gosto de pó. Naquela época, tudo parecia pó. Mas, vendo-a comer, Caramon rejubilou e, sabe-se lá como, o prazer dele tornou-os saborosos. Deu por si a tirar outro.
— Oh, Caramon! — disse, com um suspiro. — Que vamos fazer?
— A respeito de quê?
— A respeito... bom, a respeito... — respondeu ela, fazendo um gesto vago com a mão.
— A respeito dos cavaleiros das trevas? Minha querida, pouco podemos fazer — disse Caramon em tom solene. — Tenho que reconhecer que por causa deles o negócio melhorou. — Ficou por um momento em silêncio e acrescentou baixinho: — Algumas pessoas afirmam que esta ocupação não foi assim tão má.
— Caramon Majere! — exclamou Tika, enraivecida. — Como se atreve?
— Não fui eu quem disse — esclareceu Caramon. — Só citei que algumas pessoas afirmam isso. E de certo modo têm razão. As estradas são seguras. Quando este calor desanuviar... por certo vai acontecer um dia... as pessoas voltarão a viajar. Os cavaleiros são cavalheiros. Não se parecem com os draconianos que, durante a última guerra, se apoderaram da torre. Ariakan não enviou os seus dragões para reduzirem tudo a cinzas. Os soldados dele não roubam. Pagam o que compram. Não se embebedam, não são grosseiros. Eles...
— Não são humanos — atalhou Tika com amargura. — Parecem-se com uma daquelas máquinas sobrenaturais dos gnomos que meteu na cabeça que se tornaria humana, mas que por dentro continua máquina. Esses cavaleiros não possuem coração nem sentimentos a respeito de nada. Sim, comigo são educados, mas sei perfeitamente que se lhes ordenassem para me dilacerarem a garganta, em honra da Rainha das Trevas deles, o fariam sem hesitações.
— Bom, lá isso é... — concordou Caramon.
— E o que me diz... — A fúria de Tika ganhava contornos, adensava-se. Comeu mais quatro bolinhos. — E o que me diz das pessoas que desapareceram sem mais nem menos? Pessoas como o Todd Wainright?
O rosto de Caramon tornou-se sombrio.
— Há um ano que o Todd andava pedindo encrencas. Era um rufião, um arruaceiro. Não foram poucas as vezes que o expulsei ou o arrastei lá para fora pelos pés. Você mesma lhe disse para não voltar aqui.
— É bem possível — disse secamente Tika —, mas os soldados da Rainha das Trevas não levaram o Todd por ser um bêbedo ruim. Levaram-no por não se coadunar com o grandioso plano deles, por ser um arruaceiro e um rebelde.
— Contudo, as coisas, por estas bandas, estão mais pacíficas agora sem ele — argumentou Caramon. — Têm de manter a lei e a ordem...
— Paz! — exclamou Tika dando uma fungada. — Lei e ordem! É verdade que conseguimos isso. Temos leis que chegam para atolar um duende dos esgotos. E ordem. Algumas pessoas receiam a mudança, receiam tudo o que seja diferente. Percorrem a estrada segura e movimentada porque receiam deixá-la. Esse Ariakan cavou um pequeno sulco na estrada e espera que todo mundo o siga. Quem não o fizer, quem pretenda seguir por um trilho secundário ou abandonar a estrada, desaparece no meio da noite. Caramon Majere, está são e salvo no fundo de um poço escuro e seco, mas, acho que quase nada realiza de válido.
Caramon aquiesceu com a cabeça. Ouviu em silêncio o discurso de Tika, mas, discretamente, pusera-se a cortar fatias de pão e, depois de lhes juntar queijo, colocara-as diante da mulher. Acabados os bolinhos, Tika virou-se para o pão com queijo.
— Puseram termo às guerras entre os Elfos — mencionou Caramon. Tika atirou-se com voracidade a um pedaço de pão e mastigou-o como se estivesse a abocanhar os detestados cavaleiros.
— Transformando o próprio filho do Tanis numa das suas máquinas embotadas — murmurou, entre duas dentadas.
— Se é que dá crédito ao Porthios — replicou Caramon serenamente. — Ele afirma que o Gilthas está pensando em vender-se aos cavaleiros para salvar a própria pele. Encontrei-me com o jovem Gil e tenho-o em melhor conta. Lembre-se que é filho do Tanis, e também da Laurana. Os paladinos das trevas mataram o pai. Não sei o que o jovem tem em mente, mas aposto que não é o que os cavaleiros pensam. Qualinesti ainda não caiu.