Onde ele deveria procurar esse povo misterioso? Como o portal para Noroelle, eles podiam estar em qualquer lugar deste mundo. Nuramon suspirou. Era como se tivesse retornado ao ponto de partida. Podia prosseguir em sua busca somente de uma maneira: ao modo dos elfos. Ele procuraria o povo perdido e Noroelle. Em algum momento encontraria um dos dois. E talvez isso resultasse em alguma pista nova em que ele ainda não havia pensado. Só uma coisa estava fora de cogitação: voltar até Farodin para segui-lo por sua trilha de areia!
A ira de Farodin
Mandred não era um homem medroso, mas a forma como Farodin se transformou o deixou assustado. O que se escondia nos abismos da alma do elfo? Após todos aqueles anos ele pensou conhecer o seu companheiro. Ledo engano! Depois que o elfo ouviu o relato de Shalawyn, algo obscuro cresceu nele. Não! Pensando melhor, agora estava certo de que essa essência sombria sempre estivera lá. Farodin é que aprendera a ocultá-la. Mas agora algo havia despertado, algo que fazia Farodin se esquecer até da busca pelos grãos de areia.
O elfo solicitara a ele que pedisse permissão ao rei Njauldred Klingenbrecher para usar um dos armazéns dos barcos. Também pediu a ajuda de alguns criados experientes, que foram concedidos generosamente. Passou as semanas seguintes exclusivamente no armazém, construindo um barco como Firnstayn jamais vira. Tratava os criados quase como escravos, de tão duro que os fazia trabalhar. Eles praguejavam contra ele, mas também admiravam sua capacidade. Nunca Farodin mencionara conhecer a arte da construção naval. Mas, afinal, quanto é possível aprender quando sua própria vida dura séculos?
Em apenas dez semanas, um barco pequeno e estreito foi construído. Sua quilha fora cortada de um único tronco de carvalho, que o próprio Farodin escolhera nas florestas ao norte da cidade, assim como as hastes que formavam o esqueleto do casco. A vela era feita do mais fino linho, reforçada com cordas atadas no formato de uma rede. O barco media cerca de cinco metros de comprimento, mas não mais que um metro na sua parte mais larga. Quando foi lançado ao mar, os moradores de toda Firnstayn se reuniram para admirá-lo. Era esguio e tinha um belo formato. Suas tábuas se sobrepunham umas às outras como Mandred nunca vira em outro barco.
Quando Farodin explicou ao rei e seu séquito que no dia seguinte se lançaria em sua busca, ninguém pôde acreditar no que ouvia. Deixar o fiorde no inverno velejando para o norte era loucura pura. Tanto fazia a qualidade do navio: nada nem ninguém sairia vitorioso contra as tempestades e o gelo.
Essa intenção era tão maluca que ninguém esperava que Mandred seguisse o elfo. Recusar essa viagem não tinha nada a ver com falta de lealdade a um irmão de armas. Mas o filho de humanos sentia-se preso a Farodin. Ele, Mandred Torgridson, não era aquele guerreiro invencível que os escaldos cantavam quando pronunciavam seu nome. Também não realizara aqueles feitos heroicos que lhe atribuíam em todo lugar. Mas talvez a verdade e os cantos à sua saga pudessem se fundir em uma só vida se ele seguisse Farodin agora.
O rei Njauldred abasteceu o navio com as melhores provisões. Carne de urso, ótima para recuperar forças após uma luta; roupas de peles de lontra, que repeliam a água gelada; e um barril com óleo de cachalote, que, se aplicado sobre a pele, protegia contra o frio. Mandred sabia que o companheiro não temia o frio, mas se alegrava por si mesmo de saber que o barril estaria a bordo.
Njauldred convidou-os a sua sala real e fez uma festa em sua honra. Mandred sentia-se como convidado em uma celebração fúnebre. Embora os escaldos se esforçassem, a atmosfera não era de animação. Farodin deixou o festejo ainda cedo. Estava tão mergulhado em seus pensamentos que saiu para a noite sem se despedir.
Mandred também se retirou logo. Não queria precisar suportar o olhar triste de Ragna, filha de Njauldred, por mais tempo; além disso, não ousava mais se embebedar na noite anterior à partida para uma aventura audaciosa.
O vento frio do norte fez sua capa esvoaçar quando saiu do salão da corte. Um ruído de algo raspando o fez escutar com atenção. Não havia lua no céu. As estrelas escondiam-se atrás das nuvens. Mais uma vez, aquele ruído. Vinha dos leões de pedra que ladeavam a escada para a sala do rei. O que se ouvia era como se eles raspassem inquietos com as patas contra os degraus da escada.
Uma sombra saiu do degrau mais baixo. Mandred gritou para o vulto, mas não recebeu resposta. Como a fumaça que brotava dos frontões das casas comunais, o vulto desapareceu na noite como se nunca houvesse existido. O guerreiro baixou a mão para o machado em seu cinto. Desceu lentamente os degraus da escada. Além do vento, que passava com um uivo sob os telhados, não se ouvia mais nenhum ruído.
Não é nada, pensou Mandred acalmando a si mesmo. Foi até a casa que um dos filhos de Alfadas mandara erguer para ele. Quando abriu a porta com um solavanco, o fogo queimava no fogão a lenha. Fumaça e um calor agradável preenchiam a sala. Não se via Farodin. Talvez tivesse descido para o armazém do barco. Apesar do frio, ele passou a maioria das noites lá.
Mandred tirava sua capa quando um barulho o fez ficar imóvel. Alguém estava ali. Ouvira um leve farfalhar da palha do nicho de dormir. Uma mão branca puxou a cortina de lã grosseira. Era Ragna, a filha do rei! Suas bochechas estavam vermelhas. Não conseguia olhar Mandred nos olhos.
— Não é o que você está pensando — balbuciou ela. — Eu... Eu pensei que o elfo tinha chegado.
Eu me escondi ali. Acendi o fogo para que fique aquecido nesta noite difícil. — Ela olhou para a porta.
— Obrigado, Ragna — respondeu Mandred, acanhado.
Ela era linda. Tinha a pele branca como leite. Sardas pálidas decoravam o seu rosto. O cabelo ruivo estava preso em pesadas tranças. Ragna descendia da linhagem de Alfadas, mas Mandred não conseguia reconhecer nenhum traço de seu filho no rosto dela.
— Você precisa mesmo velejar com ele? — perguntou, tímida.
— É uma questão de honra!
— Para o inferno a tal da honra! — Seu acanhamento desapareceu. A fúria se refletia em seus olhos. — Você não vai voltar de lá. Ninguém volta do Pico da Noite!
Mandred resistia ao olhar dela. Seus olhos tinham o verde-claro das mudas de pinheiro. Tinham um pedaço da primavera preso neles.
— Já estive em muitos lugares dos quais diziam que as pessoas não voltariam — disse ele, vaidoso.
— Como dois homens querem vencer centenas de trolls? Se quer morrer, você pode se jogar agora mesmo do penhasco no mar, seu... — Assustada, ela ergueu a mão na frente da boca. — Não quis dizer isso. Eu...
— Por que é tão importante para você que eu continue vivo?
“E por que minha vida significa tão pouco para mim?”, acrescentou Manred em pensamento. “Porque fui empurrado para fora do tempo? Porque vivo embora os meus ossos já devessem estar apodrecendo há séculos no túmulo?”
— Você é o homem mais imponente que eu já conheci. Não é como os rapazinhos petulantes da corte de meu pai. Cada centímetro seu é de um herói.
Mandred sorriu.
— Antes eram os homens que cortejavam as mulheres.
Ragna ficou muito vermelha.
— Não foi isso que eu quis dizer... Eu... É que... — Ergueu as mãos sem ter o que fazer. — É que, para mim, não é indiferente que amanhã você veleje a caminho da ruína.