O jarl tirou uma das luvas e meteu a mão no barril de óleo de cachalote, já endurecido pelo frio. Apanhou um pedaço e segurou-o um pouco na mão para que derretesse. Então aplicou no rosto e limpou os dedos na pesada jaqueta de pele de foca. Maldito frio!
Impiedoso, Farodin fazia o barco avançar. Só raramente eles ancoravam no abrigo do vento oferecido pelos rochedos ou por alguma baía protegida, para dormir algumas horas. O elfo e o gelo que os cercava pareciam ter se tornado um só. Como se estivesse paralisado, ele ficava em pé junto ao timão, olhando para longe. O punhal ele acomodara na trouxa que descansava atrás dele na popa. Às vezes, Mandred se perguntava se era de fato a mesma arma que Farodin ficava afiando. Não combinava com o elfo ficar fazendo sempre a mesma coisa sem qualquer sentido. Mas talvez essa ação refletisse a sua inquietação, que fora isso ele sabia esconder muito bem.
Mandred olhou para cima e observou o céu para se livrar daquela ruminação que não servia de nada. Estavam tão ao norte que o sol não aparecia mais. Era a luz verde das fadas que se estendia de horizonte a horizonte. Como pedaços de tecido franzido, ela ondeava sobre as cabeças deles. Mandred não tinha muito o que fazer. Farodin poderia conduzir o barco mesmo sozinho.
Muitas vezes o jarl sentava-se na proa e ficava horas olhando a luz no céu. Ela o consolava naquela imensidão deserta de mares revoltos e abrolhos negros. O vento varava-lhe os ossos enquanto sonhava ali sentado.
Geleiras altas como torres margeavam a costa. Certa vez, Mandred viu ao longe uma avalanche de gelo despencar no mar e revolver a água. Outra vez pensou ter visto uma serpente do mar.
No nono dia de viagem, Farodin ficou agitado. Haviam adentrado um fiorde. Dedos cinzentos de névoa rastejavam em direção a eles sobre a água. Mandred estava de pé na proa e devia tentar ver recifes escondidos. A água estava calma. Logo a névoa os havia engolido. Bem próximo se podia ouvir o som baixo da rebentação.
Farodin parecia já ter estado ali alguma vez. Sabia das depressões antes mesmo que Mandred o alertasse com um grito.
Uma sombra gigantesca surgiu diante deles do meio da neblina. Primeiro Mandred achou ser um rochedo, mas então viu uma luz fraca. Um odor rançoso tomou conta do ar. A névoa agora estava bem quente, e se condensava na barba do humano.
De repente, uma voz rouca rasgou o ar. Era grave como o ronco de um urso enfurecido. Farodin sinalizou para que não se mexesse e pôs um dedo sobre os lábios. Em seguida, respondeu no mesmo tom, em uma língua gutural que Mandred nunca ouvira.
Uma saudação rápida soou de volta e então a sombra desapareceu. Farodin continuava num silêncio tenso. Uma eternidade pareceu passar. A névoa privava Mandred de qualquer noção de tempo. Finalmente, o elfo acenou-lhe com a cabeça.
— Logo vamos chegar ao Pico da Noite. Há nascentes quentes aqui no fiorde. Elas o mantêm sem gelo por todo o inverno. Elas também são as culpadas pela névoa que esconde a montanha dos trolls. Você sabe como tem de se comportar?
Mandred fez que sim com a cabeça. O que devia acontecer no Pico da Noite foi o único tema de conversa que Farodin tolerou durante a viagem. O que não queria dizer, contudo, que tivessem discutido sobre os planos do elfo. Mas ele confiava em seu companheiro. Farodin sabia o que estava fazendo!
Involuntariamente, o jarl pousou a mão sobre o machado em seu cinto. Lembrou-se dos conselhos de Farodin para a luta contra os trolls e das histórias que ouvira na infância. Os trolls eram caçados em grupos, assim como os ursos das cavernas. Um homem sozinho não era capaz de vencê-los. Mas então pensou em seu filho. Alfadas correra em auxílio aos elfos na Terceira Guerra dos Trolls. Saíra vitorioso de várias batalhas sangrentas contra esses monstros. Mas, no fim, ele foi mesmo morto por eles, Mandred alertou a si mesmo. Acariciou a lâmina do machado. Mais um motivo para vir até ali!
A névoa se dispersava. Na frente deles surgiram rochedos escarpados. Farodin apontou para um deles que lembrava vagamente a cabeça de um lobo.
— Veja! É o Pico da Noite. Lá há uma caverna que não pode ser vista do fiorde. Foi onde escondi meu barco da última vez.
— Então você já esteve aqui.
O elfo concordou.
— Há mais de quatrocentos anos. Naquela ocasião, matei o duque dos trolls, o comandante deles, que chefiou os exércitos dos trolls durante as campanhas na Terra dos Albos.
Esse era Farodin! Só transmitia seu conhecimento no último momento!
— Você bem que podia ter me dito isso antes! — resmungou Mandred.
— Por quê? Isso teria mudado alguma coisa na sua decisão?
— Não, mas eu...
— Então era desnecessário que você soubesse. Aliás, há mesmo uma mudança no nosso plano. Você vai sozinho ao Pico da Noite.
O queixo de Mandred caiu.
— O quê?!
— Eles jamais me admitiriam em sua corte. Sabe como eles me chamam? Morte noturna. Eles me matarão assim que me virem. Então você pode ver que é inevitável que parta sozinho. Vou encontrar um outro caminho para a montanha. Como um suposto enviado, você está submetido, em contrapartida, às leis da hospitalidade. Não podem fazer nada com você enquanto não violar essas leis. Eles tentarão, porém, induzir você a isso. Resista, não importa o que eles façam!
— E por que eles me receberiam como um enviado? Um humano! Eles devoram os meus semelhantes!
Farodin ajoelhou-se e abriu a trouxa que guardava na popa. Mostrou a Mandred um galho de carvalho embrulhado em linho fino.
— É por isso que eles vão recebê-lo. Este é um galho de uma árvore com alma. Só mensageiros da rainha carregam este símbolo. Eles são intocáveis.
Admirado, Mandred apanhou o galho e envolveu-o de novo no tecido.
— Ele é de verdade, não é? Onde você conseguiu?
Farodin ficou claramente desconfortável com a pergunta.
— Ele cresceu de uma bolota de Atta Aikhjarto. Espero que me perdoe pelo meu ato. Nós precisamos dele.
— Você o arrancou da árvore sobre o túmulo de Freya?
— Ela me deu permissão. Ela sabe para que vamos precisar do ramo.
Mandred se perguntou se Farodin se referia à árvore ou ao espírito de Freya. Suas mãos começaram a tremer. Prendeu-as sob as axilas. Farodin devia ter percebido o tremor.
— Frio maldito — queixou-se o jarl. Não queria fazer papel de covarde.
— Sim — Farodin concordou. — Até eu estou com frio. Pense em Yilvina. O que estamos ousando fazer vale a pena por ela e pelos outros.
O barco contornou uma rocha alta como uma torre no fiorde. Agora estavam indo em linha reta até a ribanceira. O elfo manobrou habilmente para passar entre os rochedos. Então eles deitaram o mastro. Mandred agarrou os remos e opôs-se à força da maré. Bem à frente deles, oculta entre as pedras, abria-se a entrada plana de uma caverna.
— Só é possível encontrar a caverna na maré baixa! — gritou Farodin competindo com a força das ondas. — Na maré intermediária, a entrada já fica escondida sob a água.
Só de pensar em ir a uma caverna que claramente já ficava embaixo d’água na cheia, o estômago de Mandred se encolheu. Farodin sabia bem o que estava fazendo, avisou a si mesmo em pensamento. Mas, desta vez, isso não ajudava a vencer sua inquietação.
Precisaram baixar a cabeça, de tão baixa que era a entrada. Uma onda agarrou o barco e o arrastou para a frente. Por um instante, ficaram na escuridão completa. O costado passou roçando em rochas que eles não viam. Mandred soltou um grito.
Finalmente chegaram a águas mais calmas. Farodin acendeu um lampião e segurou-o bem alto sobre a cabeça. Cercados de uma pequena ilha de luz, eles prosseguiam deslizando. Mandred apoiou-se nos remos e olhava o tempo todo sobre os ombros. Um pouco adiante, surgiu uma larga faixa de cascalho. Rangendo, o barco deslizou sobre a margem.