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Eles pularam para fora e puxaram seu frágil veleiro pela margem, bem para cima da marca da maré. Admirado, Mandred olhou ao redor. A caverna era muito maior que pensara de início.

Farodin andou até ele e pousou a mão em seu ombro. Um calor agradável o percorreu.

— Obrigado por ter vindo comigo, filho de humanos. Desta vez eu não teria êxito sozinho.

Mandred duvidava que pudesse ser de grande ajuda. Já estava lhe custando todas as forças dominar o medo em seu íntimo, fato que, com certeza, não tinha ficado oculto de Farodin.

O elfo o conduziu sobre um friso de pedra ao longo da água, até uma saída escondida. Eles se equilibraram sobre rochas lisas, com crostas de gelo, até finalmente chegarem a uma praia. Agora a hora da despedida chegara. Ficaram em silêncio por um momento, de frente um para o outro. Farodin então agarrou o pulso de Mandred num cumprimento de guerreiros. Era a primeira vez que o companheiro se despedia dele dessa forma. O gesto dizia mais que qualquer palavra.

Com passos de pluma, o elfo correu pela praia e desapareceu na névoa. Deixou somente pegadas rasas na neve, que o vento logo apagou. Mandred virou-se e manteve-se bem perto da água, caminhando ruidosamente sobre o chão de pedras. Ali, onde a rebentação enxaguava o cascalho cinzento, não havia neve. Lá ele também não deixaria nenhuma pegada traidora.

Por cerca de uma hora, ele andou pela praia. De uma hora para outra, a névoa se dissipou. Sem a sua proteção, não passaria despercebido para nenhum guarda. Tinha a sensação de estar sendo observado, embora ninguém aparecesse. Recuou um passo e deu meia-volta. Para ele, era como se tivesse atravessado uma fronteira invisível. Atrás dele ainda havia, sobre o mar, um espesso véu branco. À sua frente, porém, a noite estava clara.

A luz das fadas pairava estranhamente baixa no céu. Diante de Mandred, surgiu um pico escarpado de rocha, no qual subia uma imensa torre. Uma luz fraca e amarelada brilhava por trás das janelas opacas. O Pico da Noite era totalmente diferente de como ele imaginara uma construção feita por trolls, quase como uma variante um pouco mais grosseira e escura do Castelo dos Elfos de Emerelle. Ladeada por pilares e arcos de sustentação, a torre subia bem alto para o céu e tocava a luz das fadas. A construção devia ter centenas de janelas. Em alguns lugares, pilares cresciam dos muros como enormes espinhos. Sem dúvida, o Pico da Noite era uma construção magistral. O construtor havia usado de toda a sua habilidade para fazê-la parecer o mais sombria e ameaçadora possível.

Mandred arrancou o galho de carvalho do pano de linho e agora segurava-o como um escudo na frente do peito. Pensou em Luth, o deus do destino, e em como não haveria ninguém que cantasse seu canto heroico se ele morresse naquela noite. Será que devia ter ouvido Ragna? A noite com ela foi totalmente diferente de todas as aventuras nos bordéis. Ela realmente o amava. Ele, seu antepassado! Não, esse amor jamais poderia dar em alguma coisa. Embora entre os dois houvesse tantas gerações, sentiu-se mal em pensamento naquela noite. Tinha sido uma boa decisão ter partido com Farodin.

— O que um filho de humanos faz nas sombras do Pico da Noite? — soou de repente uma voz grave.

Sob uma saliência na pedra, talvez a uns vinte passos de distância, adiantou-se um vulto gigantesco. Media mais que um homem e meio e tinha costas largas de impor respeito. Mesmo os antebraços do troll, que apesar do frio vestia somente uma pele ao redor do torso, eram mais fortes que as coxas de Mandred. Na luz fria das fadas, o humano não conseguia distinguir nitidamente o rosto dele. O vulto como um todo tinha algo de vago e instável.

— O que quer aqui? — perguntou o guarda na língua das terras do fiorde, com sotaque pesado.

— Sou um enviado de Emerelle, rainha dos Elfos. — O jarl ergueu o ramo de carvalho. — E exijo a hospitalidade de Orgrim, duque do Pico da Noite.

Ouviu-se um som gorgolejante.

— Você exige? — O troll curvou-se para a frente e apanhou o galho. Ficou imóvel por um momento e farejou. — Você de fato tem cheiro de elfo, humanozinho. — As mãos nodosas alisaram cuidadosamente o galho. Ele olhou para o mar escuro. — Como chegou até aqui?

Mandred olhou para cima. Ainda não podia ver com clareza o rosto de seu interlocutor. Desejou saber mais sobre os trolls. Nas histórias que ouvira sobre eles na infância, não eram exatamente tidos como espertos. Será que descobriria uma mentira?

— Você sabe o que são trilhas albas?

O troll fez que sim com a cabeça.

— Eu vim por uma delas. Um elfo me abriu um portal menor, perto da praia. Então cheguei ao coração do reino dos trolls.

Mandred estava satisfeito com a sua mentira. Ela explicava o fato de os espiões não o terem descoberto antes.

— Sei... — Isso foi tudo que o troll disse a respeito. E virando-se de súbito: — Siga-me!

O troll levou Mandred a um porto cercado de rochedos, ao pé do Pico da Noite. Ali estavam atracados enormes navios escuros. Pareciam fortalezas flutuantes. Do quebra-mar do porto, saía um caminho para cima do rochedo que dava em um túnel extenso, iluminado parcamente por pedras de barin.

A todo momento passavam por guardas, silhuetas obscuras que se apoiavam em pesadas clavas e machados de pedra do tamanho de homens. Nenhum deles fez qualquer pergunta aos dois. Mandred tinha a sensação de que seu guia gozava de grande prestígio. Agora, à luz das pedras de barin, podia vê-lo melhor. Sua pele era de um cinza-escuro com partes claras, o que a fazia lembrar um pouco o granito. O troll tinha a testa recuada e sua mandíbula era proeminente. Seus olhos eram esquisitos. Brilhavam na cor das pedras de barin, assim como os de Xern, o primeiro filho de albos que encontrou. Os braços dos trolls não eram proporcionais ao corpo, pareciam longos demais para Mandred. Músculos nodosos atestavam a sua força. Nas lutas, os trolls deviam ser oponentes terríveis.

Finalmente os dois chegaram a uma sala ampla. Ali estavam reunidos cerca de uma centena de trolls. Alguns bebiam ou jogavam com dados de osso; outros dormiam esticados junto a lareiras. Tudo fedia bestialmente a gordura velha, vômito azedo e cerveja derramada. O lugar era mais uma caverna que um salão de uma corte, pensou Mandred. Ao longo da sala havia mesas e bancos grosseiros, mas a maioria dos trolls parecia preferir ficar de cócoras no chão. Eram todos assustadoramente grandes. Seu guia da praia não era de maneira alguma um gigante entre seus semelhantes. Mandred estimava que o maior de todos ali na sala medisse mais de três metros da sola dos pés ao topo da cabeça. Só depois reparou que nenhum deles tinha cabelo. Muitos enfeitavam suas caras grosseiras e crânios calvos com tatuagens em padrões intrincados.

Quando os gigantes viram Mandred, a inquietação tomou conta deles. Gritos selvagens soaram. O guia ergueu o galho bem alto e berrou; sua voz encobriu todas as outras. Depois disso, tudo ficou um pouco mais calmo, mas Mandred podia ver ódio evidente nos olhos cor de pedras de barin do troll.

Ao longe ecoou o som de uma corneta. Mandred lembrou-se de Farodin. Será que no fim os elfos o tinham descoberto?

O guia deixou-se cair de pernas abertas sobre um dos bancos e sorriu-lhe, insolente.

— Diga o que você tem para nos dizer, humanozinho.

— Desculpe, mas só vou falar com o duque Orgrim — insistiu o jarl, olhando em volta com a esperança de ver em algum lugar um troll de pulseiras de ouro e pesadas correntes de prata.

Era assim que os heróis das sagas sempre reconheciam os nobres dos grandes povos. Mas nenhum deles ali usava nenhum adorno como esse.

Seu guia gritou algo na sala. Logo grunhidos altos se espalharam ao seu redor. Mandred levou alguns instantes para compreender que aquilo deveriam ser risadas.

— O que é tão engraçado? — perguntou friamente.

O guia sugou o lábio de baixo e encarou-o de forma penetrante.

— Você realmente não sabe, não é? — perguntou finalmente, com seu sotaque pesado.