O duque cumprimentou o cozinheiro pela refeição primorosamente preparada. Então ergueu a segunda cesta. Embaixo dela estava a cabeça de uma mulher de cabelos louros e curtos. Sua testa estava arrebentada e a sobrancelha esquerda, totalmente esfolada. As orelhas pontudas atravessavam o cabelo curto. Sua pele era tão pálida como Mandred nunca vira antes em uma elfa. Era quase tão branca como a neve recém-caída.
Incrédulo, Mandred encarou aquele rosto. Os ferimentos claramente haviam sido causados por um golpe de clava. O jarl conhecia aquela elfa tão bem como seu próprio filho. Por três anos eles haviam cavalgado lado a lado. Yilvina! Seu estômago encolheu e revolveu-se de repente.
O reino dos anões
Quando, depois de um dia e uma noite, eles finalmente deixaram a floresta, Nuramon mal acreditava no que seus olhos viam. Diante deles estava um gigantesco paredão de pedra — as muralhas do Reino dos Anões. Um imenso portão de ferro formava a entrada. No paredão de pedra havia janelas, colunas e brechas escavadas. Contudo, o que mais impressionava Nuramon eram todas as torres que cresciam na pedra como cogumelos, esticando-se em direção ao céu. Quem quer que tivesse construído aquilo, certamente era um mestre em seu ofício.
Nuramon apeou de Felbion; não conseguia desviar o olhar da fortaleza.
— É impressionante, não é verdade? — perguntou Alwerich. — Vocês, elfos, certamente não são capazes de construir algo assim.
Nuramon olhou para as bandeiras que tremulavam nas torres. Os enormes tecidos desfraldados estampavam um dragão prateado sobre fundo vermelho. Eram tão grandes que o brasão podia ser reconhecido a muitas milhas de distância. Os anões viviam tão recolhidos que dificilmente um forasteiro encontraria o caminho até eles. Aparentemente, o que importava para eles não era a utilidade, mas a visão que aquilo tudo oferecia. A esse respeito, os anões eram semelhantes aos elfos, já que essa construção magistral expressava tudo menos adequação modesta.
Nuramon seguiu os anões a caminho do portão. Quanto mais perto chegavam daquele monstro de duas folhas, menor o elfo se sentia. Era um portão gigante, considerando as criaturas tão pequenas que eram os anões. Mas talvez houvesse qualquer coisa no reino deles que exigisse aquela grandeza. Olhou para as bandeiras acima e examinou o animal no brasão. Aquele portão era grande o suficiente para permitir a entrada de um dragão.
Na frente do portão não havia guardas, mas as numerosas seteiras chamaram a atenção de Nuramon, assim como o comprido balcão bem acima delas. Naquela entrada não era necessário ter mais nenhum guarda. Sem que os acompanhantes de Nuramon precisassem dizer qualquer coisa, ouviu-se um estalo perto do portão, e suas folhas abriram-se na direção deles, chiando e rangendo. Como é que os anões conseguiram forjar um portão de ferro assim tão grande? Como eles o transportaram e ergueram? A única resposta que ocorria a Nuramon era feitiçaria.
A grande peça trazia, em molduras enfeitadas, o retrato de várias cenas de caça, com silhuetas de heróis durante lutas e paisagens. A imagem mais acima só se reconhecia vagamente, devido à altura do portão. Mostrava uma cordilheira; Nuramon tinha certeza de se tratar dos Iolídens. Havia ainda caracteres gravados. Logo à primeira vista, o elfo reconheceu que se tratava da mesma escrita que havia no portal do oráculo Dareen.
Ele não tinha se enganado. Viera ao lugar certo. Em uma fortaleza enorme como esta deveria haver um anão disposto a acompanhá-lo ao oráculo!
Pelo meio das folhas do portão que se abriam, Nuramon pôde lançar um primeiro olhar sobre o interior do Reino dos Anões. Do outro lado do limiar surgiu um pavilhão imenso, sustentado por colunas semelhantes a árvores. A luz do sol penetrava em seu interior por claraboias estreitas, localizadas bem alto na rocha. Havia pedras de barin das mais diversas cores embutidas nas colunas, iluminando os pontos onde os raios de sol não chegavam. No salão reinava uma movimentação animada. Mesmo que numerosos anões olhassem curiosamente na direção dos recém-chegados, a maioria deles parecia seguir seus caminhos cotidianos.
— Você teria algo contra a sua montaria esperar aqui fora? — perguntou Alwerich.
Nuramon concordou e cochichou algo para Felbion. O garanhão trotou dali para pastar nas proximidades do portão. Pareceu satisfeito de ficar para trás naquele gramado suculento.
Os anões conduziram Nuramon para o interior. Foi ali que viu um sentinela pela primeira vez. Ele estava em pé, à sua direita; de pronto perguntou a Alwerich quem era o elfo e aonde o anão pensava levá-lo. Alwerich disse seu nome e esclareceu que Nuramon vinha da Terra dos Albos.
— Vou levá-lo ao rei — prosseguiu Alwerich.
Receberam permissão para passar. Nuramon reparou em uma grande roda que várias dúzias de anões fizeram girar. Lentamente, o portão fechou-se.
— Por aqui — disse Alwerich, apontando para a frente.
Todos os anões que eles encontraram no caminho pela fortaleza imponente vestiam metais, embora ali certamente não estivessem contando com nenhum perigo. Parecia que, para os anões, o metal era mais uma vestimenta que uma armadura. Alguns preferiam pesados trajes de malha de ferro e pareciam especialmente protegidos dentro deles; outros vestiam camisas de trama aberta sobre tecidos finos, guarnecidos de pequenas chapas metálicas. Claramente não havia roupas feitas sem nenhum metal.
Todos os que cruzaram o caminho de Nuramon o examinaram como se nunca tivessem visto um elfo na vida. E era bem possível que fosse verdade. Alguns cochichavam e o cumprimentavam discretamente. Ele se mostrava amigável, esperava que seus gestos fossem interpretados corretamente.
Pela primeira vez o elfo viu também anãs, cujas roupas expressavam toda a habilidade artística daquele povo das montanhas. Fios de metal e joias ornavam os trajes; mesmo aquelas que não podiam pagar por ouro ou prata vestiam trabalhos adornados com metais menos preciosos. Uma anã em especial, cujo vestido estava adornado com pequenas chapas de cobre no formato de folhas, chamou a sua atenção. Embora do ponto de vista da estatura ela fosse baixa e larga, lembrava-o uma fada das árvores, como as convidadas de Alaen Aikhwitan que vira uma vez.
Os rostos das anãs pareciam meigos e amáveis. Tinham cabelos longos, na maioria das vezes presos em tranças. O da anã do vestido de cobre era louro e caía-lhe sobre os ombros em quatro grossas tranças. O fato de Nuramon observá-la tão detidamente deixou-a claramente constrangida. Ela sorriu para ele e desviou os olhos escuros fitando o chão.
Quando Alwerich e os seus o conduziram à direita do caminho central entre as colunas, Nuramon perguntou-se por que aquele mundo de pedra agradava tanto um elfo como ele, embora nas salas dos anões ainda sequer tivesse visto qualquer planta. Será que havia mesmo beleza naquele lugar? Ou será que se tratava da sua visão peculiar, da qual, aliás, seus parentes sempre zombavam em casa, na Terra dos Albos? Ele não sabia dizer. Mas o que acontecia era que ele sentia aquela vizinhança como bonita, mesmo que lhe fosse desconhecida e ele parecesse um gigante esguio no meio dos anões atarracados.
Nuramon seguiu Alwerich para dentro de outra sala, não menos impressionante do que a entrada para o Reino dos Anões. Ali, as colunas agrupavam-se sobre largos pedestais, formando pilares que sustentavam arcos imensos. Escadas amplas criavam pequenas praças e conectavam-se umas às outras. As pessoas percorriam seus degraus de uma praça para a outra, subindo de nível em nível. Muitas das praças eram usadas pelos anões. Ali havia mesas e bancos nos quais eram postas à venda as mais diversas mercadorias. Era um mercado barulhento. O falatório dos anões era acompanhado por um murmúrio de água corrente. Em algum lugar ali perto devia haver um curso d’água.