O rei voltou-se para Thorwis:
— Você viu?
Ele parecia não acreditar que tinha um elfo diante de si.
— Sim, meu rei.
O velho dirigiu-se a Nuramon:
— Este é Wengalf, rei dos anões e soberano de Aelburin.
— Eu sabia que você viria. Só não sabia quando — esclareceu o rei Wengalf.
Nuramon não ficou tão admirado com isso. Como Emerelle com frequência sabia o que havia acontecido, o que estava acontecendo em outros lugares e o que um dia poderia acontecer em algum lugar, o rei dos anões talvez olhasse para os tempos remotos e visse o que podia acontecer.
— O que o traz até nós?
— Estou em busca de uma elfa e tenho esperanças de que o oráculo de Dareen possa me ajudar nisso. Mas o caminho até ele está trancado para mim. Só com a ajuda de um anão o portão talvez possa ser aberto.
Nuramon então descreveu o portal de Dareen em detalhes e contou o que havia se passado lá.
Wengalf dirigiu um olhar a Thorwis, que o velho interpretou como um sinal para dirigir a palavra a Nuramon.
— Nós conhecemos o oráculo de Dareen. No tempo que deixamos a Terra dos Albos, outros filhos de albos também partiram para encontrar seu lugar neste mundo. Anões e elfos encontraram-se um dia e descobriram Dareen do outro lado de um portal que levava a um lugar distante deste mundo. E ele nos disse como deveríamos fechar o portal. Nos velhos tempos, nós o usávamos com frequência. Mas os elfos se retiraram. Alguns esconderam-se em florestas encantadas; outros criaram seu reino no Mundo Partido. A maioria deles, contudo, retornou para a Terra dos Albos. Nós não podíamos abrir o portal sozinhos. E a necessidade e a curiosidade nunca foram tão grandes a ponto de querermos recorrer ao oráculo.
Nuramon lembrou-se de Yulivee. Ela devia ter sido um dos elfos que um dia encontraram os anões.
— Pois então, um anão estaria pronto para me acompanhar? — perguntou ele, esperançoso.
— Um anão estará ao lado de um elfo da mesma forma como um elfo um dia esteve ao lado dos anões — disse Wengalf solenemente.
Nuramon não sabia o que o rei dos anões queria dizer com isso. Talvez se referisse a quando os anões ainda viviam na Terra dos Albos e formavam alianças com os elfos.
— Você não se lembra — disse o rei.
— Não. Sou jovem demais. Eu não vi o tempo em que elfos e anões viveram lado a lado na Terra dos Albos.
— Mas você não mudou nada. Eu ainda o reconheço. E Thorwis também o reconheceu imediatamente. Quantos anos já faz? Certamente mais de três mil anos.
— Três mil, duzentos e setenta e seis anos, precisamente — explicou Thorwis.
De um só golpe, ficou claro para Nuramon ao que o anão se referia.
— Você deve estar me confundindo com um dos meus antepassados!
— Não, nos referimos a você — disse Thorwis. — Eu o reconheci. Você é Nuramon. Não há dúvidas.
— Um dia nós nos declaramos amigos — continuou o rei.
Nuramon não conseguia entender. Ele viera a um lugar onde as pessoas se lembravam de um de seus antepassados e estavam prontas para falar sobre ele. E o rei dos anões um dia considerara esse seu antepassado um amigo!
— Foi no tempo em que eu ainda esperava ser nomeado rei que nós cultivamos essa amizade. Você foi embora da Terra dos Albos ao nosso lado. Nosso povo empreendeu uma grande jornada junto com você e descobriu este lugar. Nós caçamos, lutamos e celebramos juntos. E também encontramos a morte.
— Eu morri aqui? — perguntou Nuramon.
Wengalf apontou para baixo, vale adentro.
— Lá, uma centena de anões lutou contra o dragão Balon. Só nós dois o vencemos, mas pagamos o feito com nossa vida. Você morreu lá fora; eu, alguns dias mais tarde. Coroaram-me rei em meu leito de morte.
Nuramon mal podia acreditar no que estava ouvindo. Wengalf realmente achava que ele era o mesmo elfo de antes. Ele tinha a sensação de estar ouvindo uma saga, mas sem conseguir se lembrar de nada desse tipo.
— Eu ainda me lembro de como você morreu. Nós dois estávamos deitados no sangue quente do dragão. Você disse: “Esse não é o fim. Eu voltarei”. Essas foram suas últimas palavras. Por quanto tempo esperei o seu retorno! Preciso confessar que o tempo tornou-se tão longo que só raramente pensei nisso, sempre no aniversário daquela data. Eu imaginava como sua alma renasceria eu algum outro lugar, mas que você não conseguiria se lembrar do que já fez um dia. Por fim, tanto tempo se passou que eu pensei que você já havia partido há muito para o luar. Mas me enganei.
Nuramon pôs-se de joelhos para ficar com os olhos na mesma altura dos de Wengalf.
— Eu queria que, junto com a alma, tivesse mantido também a memória dos meus antepassados. Mas não é assim. O que você está me contando é a história de um outro. Não consigo considerá-la um pedaço da minha própria.
Thorwis interviu.
— Como assim você não consegue? Quando você se deita para dormir e acorda de novo, então você ainda é o mesmo? E se você é o mesmo, como sabe disso?
— Eu sei porque me lembro do que aconteceu antes — respondeu Nuramon.
Thorwis pousou a mão no ombro dele.
— Então encare o que você descobre sobre os seus antepassados como uma lembrança da sua alma; como algo que você só esqueceu. E, quem sabe, um dia a lembrança da sua alma também pode se tornar a do seu espírito.
— Você quer dizer que um dia eu talvez possa me lembrar da luta contra o dragão e da minha amizade com Wengalf?
— Não posso prometer isso nem criar essa esperança em você. Só posso dizer que já aconteceu assim antes. Há filhos de albos que ainda se lembram de suas almas anteriores. A maioria deles é anã. Talvez um dia você também encontre a trilha para suas vidas anteriores. A feitiçaria não é desconhecida para você, seus sentidos estão muito despertos. O primeiro passo desse caminho é reconhecer que o Nuramon que já se sacrificou um dia e o Nuramon que está diante de nós é o mesmo filho de albos.
— Agradeço pelo seu conselho, Thorwis. E a você, Wengalf, agradeço pelo que me contou. Você me permite fazer uma pergunta?
— Vá em frente — pediu-lhe o rei.
— Vocês conhecem uma elfa de nome Yulivee?
Wengalf e Thorwis trocaram um olhar surpreso.
— É claro — respondeu o rei. — Mas já faz muito tempo. Lado a lado, nós colocamos um cristal de rocha e um diamante no portal até Dareen, para que elfos e anões só pudessem encontrar juntos o caminho para o oráculo.
— Eu o encontrei em minha vida anterior?
— Não, naquele tempo você seguiu o seu próprio caminho e só mais tarde deparou-se novamente conosco.
— Obrigado, Wengalf. E também a você, Thorwis. Vocês não podem imaginar o quanto todas essas palavras me tocam. Vou seguir o conselho e tornar o que contam sobre minha vida anterior minha própria lembrança.
Wengalf sorriu e deu tapas vigorosos nos ombros de Nuramon, que ainda estava ajoelhado.
— Então preciso contar urgentemente sobre as festas, para que você se lembre do que bebemos e comemos. Naquela época, você conseguia comer e beber muito. Venha! Vamos celebrar como nos velhos tempos!
O rei dos anões abraçou-o.
O último caminho
Farodin puxou de volta a faca do olho do troll. Limpou a lâmina no grande casaco de lã do morto e empurrou-a de volta à bainha que trazia afivelada ao redor do antebraço esquerdo. Em seguida, agarrou o troll pelos ombros. Seus músculos quase se romperam enquanto puxava o gigante lentamente, centímetro por centímetro, até a borda do quebra-mar, deixando-o deslizar para dentro da água escura.
— Que você espere muito até renascer — sussurrou ele.
Então subiu um trecho do cais, comparando o que via com a antiga referência que tinha na memória. O quebra-mar recebera um novo calçamento e fora prolongado. Tomara que o resto não tivesse mudado ainda mais!
Olhou cheio de desprezo para os enormes navios negros. Não tinham qualquer elegância! A proa e a popa pareciam ter sido feitas como se a verdadeira intenção fosse construir torres de fortificação em vez de uma embarcação. Erguiam-se ameaçadoramente sobre a água. Que inimigo ousaria enfrentar esses navios?