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Bem alto acima dele, sobre o Pico da Noite, Farodin pôde ouvir uma centena de risadas. Será que Mandred estava se mantendo firme? Ou será que o filho de humanos já estava morto há muito tempo?

Simplesmente não tinha pensado bem sobre o seu plano. Acreditar que em todos aqueles séculos nada teria mudado ali não fora muito esperto! Farodin já encontrara murados três portões escondidos para o labirinto de corredores secretos que atravessava os rochedos e a torre. E tudo isso era um trabalho antigo de alvenaria. Até mesmo os trolls tinham compreendido de onde ele viera aquela outra vez, quando matou o comandante. E agora o quebra-mar também estava reformado!

Sem grandes esperanças, desceu uma escada até a água. Tirou a capa, enrolou-a e amarrou-a como uma faixa ao redor dos quadris. Assim ela o atrapalharia menos. Atento para não fazer nenhum barulho que o traísse, deixou-se deslizar lentamente para o abraço gelado da água. Precisava se concentrar totalmente para que suas roupas não se ensopassem e o arrastassem para o fundo.

Restava-lhe pouco tempo para a sua busca. Não demoraria para que o frio o paralisasse, a despeito de qualquer feitiço, pensou, desesperado. Ele apalpou o muro cuidadosamente, como que buscando algo, e então mergulhou. Depois de poucas braçadas, encontrou o que procurava: uma abertura no quebra-mar. Desta entrada, os trolls evidentemente se esqueceram. Talvez até nunca a tivessem encontrado.

Um túnel cheio de ar levava do porto até uma gruta profunda, sob a torre. Dali saíam vários caminhos que seguiam para cima, até o labirinto escondido, nas muralhas das torres. Diziam que o Pico da Noite teria sido erguido por duendes sequestrados pelos trolls como seus escravos. Como no castelo de Emerelle, ali eles também tinham construído corredores secretos em que podiam se mover longe dos olhos de seus senhores. Esses túneis eram estreitos e baixos, obrigando Farodin a andar quase que agachado por eles; um troll, porém, jamais conseguiria chegar ali. Eram caminhos perfeitos.

O elfo estava congelando de frio quando chegou à Gruta Branca. Ele não sabia como os duendes deviam chamar aquele lugar no tempo deles, mas naquela época, durante as longas horas de espera, batizou-o assim devido aos sedimentos de calcário branco como a neve que revestiam o teto e as paredes. Grandes estalactites desciam do teto. Em alguns locais havia pedras de barin incrustadas nas rochas, que séculos depois da morte dos mestres de obras secretos ainda irradiavam sua luz quente e amarelada.

Farodin sacudiu suas roupas e secou-as com a ajuda do feitiço que o protegia do frio. O cinto largo e as braçadeiras onde suas facas de atirar ficavam enfiadas estavam bem engraxados. A água não tinha lhes causado nenhum dano.

Os séculos de experiência haviam ensinado a ele que facas pesadas de atirar eram as melhores armas na luta contra os trolls. O corpo deles era tão maciço que lhes causar ferimentos mortais era uma arte. Já vira trolls que, embora com o corpo crivado de flechas, ainda continuavam lutando. Uma faca lançada nos olhos era sua maneira preferida de matá-los rápida e silenciosamente.

Se aprendera algo em todos aqueles séculos de conflito, era que não se devia lutar corpo a corpo com um troll. Um único acerto com suas pesadas clavas ou machados podia ser o bastante para destroçar um elfo; em contrapartida, o efeito de um golpe de espada contra aquelas bestas na maioria das vezes só causava arranhões. Também era impossível conter as suas batidas: o peso de suas pancadas quebrava qualquer braço que se pusesse no caminho. Só era possível desviar delas, mas o melhor de tudo era simplesmente não chegar perto.

Quando se queria matá-los em um só ataque, era preciso acertá-los na garganta. Mas só o tamanho deles já tornava difícil aplicar um golpe como esse. A única opção era uma pontada diagonal de baixo para cima, acertando seu coração por entre as costelas. Isso só podia funcionar depois de conseguir fazê-los baixar a guarda, mas alguém que ama a vida jamais devia se aproximar de um troll tanto assim.

Farodin acocorou-se no chão gelado e alongou os braços de leve. Esvaziou seus pensamentos, tentando concentrar-se totalmente nas trilhas secretas dos duendes. Era possível chegar a quase todos os cômodos do Pico da Noite por esses caminhos. Onde Mandred estaria? E será que as trilhas ainda existiam? Ou os trolls as teriam descoberto e murado as portas escondidas, da forma como fizeram lá fora ao pé do rochedo íngreme?

Carne

Mandred despertou com uma sensação ruim. Sua cabeça latejava de dor. Com dificuldade, abriu os olhos, mas pouco conseguiu enxergar, pois o ambiente estava quase totalmente escuro. Sentiu o chão balançar com seus movimentos. Percebeu, então, estar preso em uma gaiola, provavelmente pendurada por uma corda. Tentou se esticar, mas seus braços estavam amarrados às suas costas. Ao tentar levantar-se, percebeu que era inúticlass="underline" a gaiola era tão pequena que ele precisava se manter agachado. Lembrou-se dos prisioneiros sobre o mercado de cavalos em Iskendria, aterrorizado. Eles eram colocados em jaulas para que morressem à míngua. Tentou mais uma vez se empinar em suas amarras, mas tudo o que conseguiu foram dolorosos cortes nos pulsos, provocados pelas finas e ásperas tiras de couro das amarras.

Mandred tentou se lembrar de como chegara até ali. Ele tinha vomitado no meio da sala. Os trolls riram e o empurraram de um lado para o outro. Cheio de repugnância, chamou o duque de mentiroso infame. Mas isso não impressionara muito Orgrim. Ao contrário: ele perguntou cinicamente se Mandred chamava suas cabras e gansos de prisioneiros. Não suportou tamanho escárnio, e então sacou seu machado. Que erro absurdo de estúpido! Mas ele não podia fazer outra coisa. Com um grito lancinante, voou sobre Orgrim para partir-lhe o crânio. Antes que pudesse chegar até ele, no entanto, um dos trolls acertou-lhe uma cacetada entre as pernas, fazendo-o cair. Com um pontapé, Orgrim o desarmou. Entregou-o a Scandrag, o cozinheiro. Este agarrou Mandred pela nuca, como uma cadela leva seu filhote, e amarrou suas mãos às costas. Qualquer resistência teria sido em vão; contra os trolls, ele era inofensivo como uma criança. A última coisa que Mandred ouviu de Orgrim foi o anúncio de que se veriam novamente no jantar do solstício de inverno. Assim que gritou ao duque que ele iria se engasgar com essa refeição, Scandrag o nocauteou.

Um cochicho arrancou Mandred de seus pensamentos. Alguém estava acima dele, um pouco de lado. Falava com uma voz baixa e gutural. Silêncio breve. Então o cochicho retornou. Dessa vez, o tom e a melodia estavam diferentes. Por fim, a voz falou em élfico, mas Mandred só pôde entender algumas palavras. Parecia falar de uma tentativa, de pessoas, provavelmente dele.

— Você entende daílico? — perguntou Mandred na língua dos centauros.

— Quem é você? — soou outra pergunta em daílico.

Mandred hesitou. Será que podia ser uma artimanha dos trolls para arrancar dele aquilo que não contara à mesa de jantar?

— Sou Torgrid de Firnstayn — mentiu ele por fim.

— Como eles o prenderam? — perguntou a voz acima dele.

— Eu estava caçando.

Lentamente, seus olhos iam se acostumando à escuridão. Pôde ver outras gaiolas penduradas ao seu redor.

— E por que um caçador humano fala a língua dos centauros? Quem a ensinou a você? Desde os tempos de Alfadas, os filhos dos albos raramente têm contato com os humanos.

Mandred praguejou em pensamento: a mentira tem pernas curtas!

— Um amigo me ensinou.

— O filho de humanos está mentindo para nós — disse agora uma voz cansada, bem acima na escuridão. — Meus ouvidos não suportam nem as mentiras dele, nem a forma como mutila a língua daílica. Deixem-no! Vai ser o próximo que Scandrag vem buscar. Não falta mais muito tempo até as celebrações do solstício de inverno, eu estou sentindo. Até lá, recomendo o silêncio a vocês, meus irmãos e irmãs. Porque, afinal, nós somos só carne. E carne não fala.