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“Calem-se, seus bastardos”, pensou Mandred consigo mesmo. “Repreendam-me! Em duas ou três horas, Farodin vai me tirar daqui. E aí vocês beijarão meus pés por eu ter vindo até aqui.”

O espelho

Nuramon acompanhou o rei dos anões. Tinha certeza de que, no fim do caminho, outra surpresa esperava por ele. Na sua vida atual ele jamais encontrara tanto reconhecimento como ali, nos átrios dos anões. O rei dera uma festa em sua honra e Nuramon celebrou de forma tão animada que ele mesmo mal se reconheceu. Um pouco de amabilidade bastara para que já se sentisse parte da comunidade. Embora os anões afirmassem que ele erguera o copo de forma muito nobre, tinha se esforçado o tempo todo para assumir suas maneiras cruas à mesa e aceitar pratos e bebidas que ele jamais teria comido em outra ocasião.

Muitos anões lhe perguntaram se ainda se lembrava de tê-los encontrado. Mas, para o seu pesar, ele não reconhecia ninguém de sua vida anterior. Até tivera esperanças de que o ambiente familiar pudesse refrescar sua memória, mas estava claro que não era assim tão fácil. Mas acreditava em Thorwis, então um dia ele voltaria a reconhecer seus amigos e a compreender o que um dia viu, pensou e sentiu.

Há muito Nuramon já entendera o porquê de ter sido tão próximo dos anões em sua vida anterior, embora à primeira vista tivessem tão pouco em comum com ele. Thorwis dissera-lhe que os anões de fato conheciam o luar e o chamavam de luz de prata, mas que até então só poucos haviam partido para essa luz. A maioria dos anões guardava as experiências de uma vida e morria em algum momento, para então tomar posse de sua própria herança em uma nova vida. Desde o começo, o renascimento foi a regra para os filhos de albos das trevas. E todos viam a morte somente como uma interrupção da vida, como um sono que turvava a memória. Com o tempo, era possível recuperar essas memórias. A morte, então, não era mais que um sonho curto.

Alguns anões tinham resgatado as lembranças de todas as suas vidas. Thorwis e Wengalf estavam entre eles. Mas a maioria ainda encontrava-se no caminho para essa meta. Até que a alcançassem, leriam os escritos que eles mesmos deixaram para trás para tomar conhecimento de seu passado.

Nuramon ainda estava distante dessa lembrança. Sabia pouco sobre suas vidas e também não havia deixado nada para si mesmo. Wengalf e Thorwis haviam relatado que ele conhecera os anões na Terra dos Albos, que fora embora dali com eles e que nesse lugar realizara alguns feitos heroicos. Mas o que eles tinham a dizer sobre ele ia contra a imagem que construíra de si mesmo. Eles falavam de um herói como os que eram cantados nas antigas canções. Mas o que ele já concretizara nesta vida para merecer um reconhecimento como esse? Nada!

Wengalf arrancou Nuramon de seus pensamentos.

— Estamos quase lá. Precisamos seguir por aqui.

O anão virou em um largo corredor. Ali estava frio, o que não combinava nada com a luz morna que as pedras de barin nas paredes forneciam. A uma certa distância, Nuramon pôde ver uma luz mais forte que brilhava até o corredor.

— Que lugar é aquele? — perguntou Nuramon.

— Aqueles são os átrios das faces — respondeu o rei dos anões de forma enigmática.

Eles estavam cada vez mais próximos daquela luz. Alguns passos adiante, Nuramon reparou que as paredes pareciam estar incrustadas de gelo. Um olhar mais atento o fez perceber que se tratavam de cristais. Quando chegaram à luz, Nuramon viu como as paredes eram arranjadas: minerais brancos cresciam delas em finas agulhas de cristal, parecendo tufos. Do outro lado desse trecho, abria-se um corredor para uma sala redonda, com uma cúpula abobadada relativamente baixa e que deixava a luz descer do teto até cobrir um cristal de rocha da altura de um elfo. Dentro desse cristal havia uma silhueta.

— Você não me perguntou o que fizemos com o seu corpo depois da morte — disse Wengalf em voz baixa, enquanto andavam ao encontro do grande cristal.

Nuramon assustou-se. Diante dele, dentro do cristal, havia um elfo vestido com uma armadura de metal. Seus olhos estavam fechados como se estivesse dormindo. Para Nuramon, era como se olhar no espelho. Era verdade que o homem ali dentro tinha cabelo preto em vez de castanho e muito mais longo que o dele. Seu rosto era um pouco mais largo e o nariz, mais curto. Mas, apesar das diferenças, ele reconhecia a si mesmo naquele elfo. Os anões haviam trazido seu corpo sem vida àquela sala e, com suas habilidades mágicas, posto-o dentro do cristal de rocha. O resultado parecia a estátua de um herói. Nuramon deu a volta em torno do cristal e examinou o corpo de sua vida anterior. Comparado a esse guerreiro, de ombros largos e porte nobre, ele devia parecer uma criança. Mas ainda assim não havia dúvidas de quem se tratava.

— Como vocês fazem isso? — perguntou a Wengalf. — Por que vocês amortalham os corpos assim? Como eu posso acreditar em uma só grande vida se aqui vejo o corpo de outra pessoa diante de mim?

Wengalf levantou os olhos para ele com seriedade.

— Thorwis achou que você devia ver isso e que agora era o momento certo. E eu tenho a mesma visão. Você precisa aprender que é muito mais do que só o seu corpo. — E apontando para o cristaclass="underline" — Na morte, você se despiu desse aí como faz com uma armadura cujos dias chegaram ao fim. E que dias foram aqueles! — O olhar do rei dos anões perdeu-se no vazio. — A morte é dolorosa, e a lembrança dela raramente é agradável. Mas, quando venho a estes átrios para ver meus corpos antigos, eu me fortaleço. Eu contemplo o meu rosto anterior e reconheço o que fui. Minha lembrança torna-se clara. Diante dos meus corpos anteriores, sinto-me transportado para os velhos tempos.

Wengalf tinha razão. Por que deixar o corpo perecer se a sua visão podia servir de ponte para o passado? Nuramon aproximou-se da pedra. Só agora percebia que havia algo apoiado no cristal. Tinha passado despercebido, tamanho foi o encanto que o vulto exerceu sobre ele. Era uma espada com o cinto e a bainha, e ao lado dela havia um arco esticado com uma aljava cheia de flechas.

— Por que as armas não estão fechadas ali dentro junto com ele? — perguntou ao rei dos anões.

— Essa é uma pergunta inteligente. Mesmo um anão faria essa pergunta. — O rei dos anões veio ao seu lado e olhou para cima, para o velho corpo de Nuramon. — Você e eu falamos com frequência sobre a morte. Thorwis nos disse que sua alma retornaria à Terra dos Albos quando você morresse. E lá não havia ninguém que pudesse contar a você a história da sua vida. Você precisa saber que, quando renasceu, precisou tolerar certa zombaria naquela época.

Nuramon pensou no seu clã. Com certeza ainda viviam com medo de que algo pudesse acontecer a ele de forma a fazer o próximo Nuramon renascer junto deles.

O rei prosseguiu:

— Mas você tinha certeza de que o caminho o traria de volta para cá caso perdesse a vida. Você dizia: “Quando eu morrer, guardem minhas armas. Na nova vida eu as apanharei de volta”. — Wengalf sacudiu a cabeça. — Na época nós rimos. Não pensávamos que a morte chegaria tão rápido para nós. Essas aí são as suas armas. Você era um arqueiro distinto e um mestre da espada.

— Eu era um bom arqueiro? Não posso acreditar nisso.

De fato, Nuramon conseguia lidar razoavelmente com um arco, mas mal era possível compará-lo com os mestres caçadores de sua pátria.

— Você precisa se acostumar ao fato de que outrora foi diferente do que é hoje. Um dia você irá transpor as barreiras que o separam da sua lembrança. E então as suas habilidades crescerão.

— Assim como as suas cresceram?

— Exatamente. Quando lutamos lado a lado contra o dragão, eu conhecia minhas vidas passadas somente pelos escritos que deixara para mim, pelo livro do rei e pelo que minha família contava. Ainda no meu leito de morte, contei a Thorwis sobre a minha luta contra o dragão para que, na nova vida, também pudesse descobrir sobre ela. Aí eles me coroaram, pois eu nunca me despedi da vida sem carregar uma coroa. Então morri. Mas eu não precisei fazer esforço para recuperar minhas lembranças. Eu as consegui logo na vida seguinte.