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— Se você se lembra, então também sabe como é... morrer.

Wengalf riu.

— A morte não é nada mais que um sono. Você adormece e em algum momento acorda. Mas alguns de nós sonham. Eles veem os albos, veem a luz de prata, descobrem sobre o passado ou o futuro. Mas o que isso significa só os sábios podem dizer.

— Você quer dizer Thorwis.

— Eu sempre tentei induzi-lo a me revelar alguma coisa sobre os sonhos da morte. Mas ele disse que nunca sonhou enquanto estava morto, que não pode falar do que nada entende.

— Você já sonhou?

— Sim. Mas o que quer que tenha visto, preciso guardar para mim até o fim.

Nuramon não perguntou mais. Olhou para as armas a seus pés e apanhou o arco. Talvez ele pudesse trazer de volta a sua lembrança. Queria saber como viveu um dia na Terra dos Albos. E talvez, ao contrário de Thorwis, tivesse sonhado na morte.

O arco era de madeira clara; a corda, de um material totalmente desconhecido para ele. Brilhava na luz. Devia ser um dos arcos encantados que ele conhecia das lendas de sua infância.

Ele passou a mão sobre a madeira lisa do arco. Ainda estava intacta. Um aroma chamou sua atenção. Ele cheirou os dedos, e depois diretamente a madeira. Conhecia-a melhor que qualquer outra na Terra dos Albos. Era de Ceren, a árvore que fora usada para construir a sua casa. Melancólico, lembrou-se de seu lar. Sem se despedir nem mesmo de Alaen Aikhwitan, ele partira de forma precipitada para alguém que talvez jamais voltasse. Com esse arco longo, ele carregaria algo consigo que sempre o lembraria de sua casa. Mas de onde vinha a corda? Parecia um fio de prata. Testou-a, passando os dedos ao longo dela, e então puxou-a. Ela emitiu um som nítido, quase como o de um alaúde.

— Antes você torcia o nariz para as nossas bestas, dizendo que o arco era melhor.

— E? Eu tinha razão?

— As armas são sempre tão boas quanto aqueles que as manejam. Assim, para você o arco era superior à besta. Pegue-o! Talvez com ele alcance as alturas que um dia já percorreu. — Ele apanhou o arco. — Estas flechas nós produzimos para você. São um presente especial, pois o arco não é feito para nós, anões. Mas olhe as pontas delas. — Ele puxou uma flecha para fora. Sua ponta era de ferro lustroso. — Desde o dia da sua morte, há mais de três mil anos, elas estão aqui, e não sofreram nenhum dano. É o feitiço do metal dos anões.

Toda vez que os anões se referiam a quando ele morreu ali, ele se perguntava quantas vidas houve entre aquela e a de hoje. Mesmo para um elfo, três mil anos eram muito tempo.

Wengalf estendeu-lhe a aljava com a cinta. Nuramon apoiou o arco na perna e então pegou-a. O anão sorriu.

— Você não se esqueceu de tudo. Veja como apoia o arco... Exatamente como naquele tempo!

Nuramon admirou-se. Tinha feito sem pensar.

Agora o rei dos anões estendia-lhe a espada.

— Esta é a sua espada. Sua lâmina estreita é dos tempos remotos, quando anões e elfos forjavam lado a lado.

Nuramon recebeu a arma. Era leve para uma espada longa. Seu pomo era em forma de disco; a guarda, estreita, não oferecia muita proteção à mão. O punho era curto, mas ajustava-se à sua mão como se tivesse sido feito para ela. Nuramon puxou a arma da bainha e examinou a lâmina. Era mais longa que a da espada de Gaomee. Não apresentava sulcos, mas ainda assim era leve. Isso devia ser em parte pelo fato de a lâmina ser realmente estreita. Mas só isso não podia explicar seu baixo peso. O metal tinha a aparência de aço comum. Devia haver um feitiço na arma, embora não sentisse nada. Estranhou, pois desde a busca por Guillaume, havia se tornado muito sensível a magia.

— Uma espada lisa, e sim, encantada! — esclareceu Wengalf. — Você me disse uma vez que a espada era um velho tesouro de sua família.

A espada era sua! Quem sabia em quantas vidas ele a carregara consigo? Agora ele possuía duas espadas que foram usadas contra dragões. Uma estava conectada a esta vida, e a outra às anteriores. Olhou novamente para seu corpo de antes. Ele usaria a espada de Gaomee até que chegasse o dia em que se lembrasse de suas vidas anteriores e os feitos do guerreiro morto diante dele se tornassem o seu próprio passado.

A despedida de seu corpo antigo e da sala não foi fácil. Tinha a sensação de estar deixando algo para trás. Contrafeito, seguiu Wengalf para a sala do rei, onde guardas esperavam por eles. Mesmo que, enquanto isso, os caminhos já tivessem se tornado familiares, ele poderia passar séculos no Reino dos Anões sem desvendar todos os segredos daquele mundo na montanha. Se algum elfo da Terra dos Albos soubesse o quanto aquele lugar o agradava, com certeza a zombaria aumentaria ainda mais. Os elfos não queriam ter nada com os anões.

Como esse povo podia ter caído em tamanho esquecimento, a ponto de sequer se saber que eram eles os filhos de albos das trevas? O rei Wengalf atribuía isso ao conflito que fez com que elfos e anões rompessem. Os anões não reconheceram nenhuma rainha élfica e, por isso, até fizeram guerra, para então virar as costas para a Terra dos Albos. Depois disso, os anões tornaram-se personagens de lendas e os filhos de albos das trevas, mitos.

Nuramon desejou que pudesse ficar ali, aprender com os anões e um dia retornar à Terra dos Albos como alguém que recuperara as lembranças de suas vidas anteriores. Mas bastava um pensamento em Noroelle e a saudade e a preocupação o incentivavam a ir adiante. O que sua amada acharia daquele lugar? Ele não sabia dizer.

Eles caminharam até o portão, onde Thorwis os aguardava. O velho feiticeiro vestia uma túnica branca reluzente e segurava um bastão de madeira petrificada nas mãos.

— Ouça-me, Nuramon, amigo dos anões!

Nos últimos dias ele ouvira esse nome com frequência. E também dessa vez um arrepio percorreu suas costas.

Thorwis continuou:

— Seus feitos ao lado do nosso rei jamais serão esquecidos. Meus companheiros e eu precisamos nos esforçar para convencer o rei Wengalf de que o lugar dele é aqui e de que outra pessoa deve procurar pelo oráculo Dareen ao seu lado. Foi tarefa minha escolher o seu acompanhante.

— Você fez a sua escolha? — perguntou Wengalf.

— Sim, meu rei. Não foi fácil. Pois vozes vieram ao meu encontro de todos os lados, pedindo-me para escolher este ou aquele. Eu tive dificuldade e não queria dar prioridade a um em detrimento do outro. Mas, então, percebi que o destino já havia tomado a decisão. — Ele apontou para uma fila de guerreiros bem armados. — Aí vem o seu companheiro.

Os guerreiros abriram caminho para Alwerich, que apresentou-se carregando uma grande bagagem e vestindo um traje de malha de ferro e um casaco pesado.

— Aqui está o anão cujos olhos o encontraram primeiro nesta vida! — disse Thorwis, acenando para o jovem guerreiro.

Alwerich curvou-se diante do rei e então baixou a cabeça para Thorwis e Nuramon.

Wengalf pousou a mão sobre o ombro do jovem.

— Alwerich, esta é a primeira viagem em muito tempo que levará um anão pela trilha para fora destas montanhas. O último a empreender uma jornada lado a lado com um elfo fui eu. Honre o nosso povo e jure que será um companheiro para Nuramon como fui um dia.

— Eu juro! — disse Alwerich solenemente.

Thorwis colocou-se ao lado do rei.

— Você sabe que pergunta deve fazer ao oráculo.

— Sim, eu sei, mestre. E eu voltarei com a revelação dele.

Alwerich virou-se mais uma vez, aproximou-se de uma anã nobremente vestida e abraçou-a. Então retornou.

— Este é o meu machado, irmão de armas!

Puxou o machado de guerra e estendeu-o na frente de Nuramon. A arma tinha o cabo curto, com uma grande lâmina em uma ponta e a parte oposta em forma de bico.