— Você deve cruzar armas com ele — sussurrou Wengalf.
Nuramon sacou a espada de Gaomee da bainha. Se ainda há pouco soavam cochichos, ruídos metálicos e um pouco de excitação no átrio dos anões, agora todos os sons tinham se calado. Só o murmúrio do vento e da água da fonte quebravam o silêncio. Os olhos de Wengalf, assim como os de Alwerich, eram os de quem tinha visto um fantasma. Thorwis era o único que não parecia surpreso. Em vez disso, olhava para a arma com um sorriso estampado na face.
— Lustro de estrelas! — disse Wengalf, baixo.
O som de suas palavras ecoou por todos os lados em novos sussurros.
Lentamente, Nuramon conduziu sua espada até o cabo do machado de guerra de Alwerich e disse:
— Irmãos de armas!
Sem desviar o olhar da espada de Gaomee, o jovem anão puxou seu machado de volta.
Nuramon estava inseguro. Todos olhavam a espada tão desconcertados que ele só conseguiu deixá-la escorregar para dentro da bainha com muita hesitação.
— Você tem ideia do quanto essa espada é valiosa? — perguntou Wengalf.
— Aparentemente eu não a avaliei bem — respondeu ele ao rei. — Aqui não existe lustro de estrelas?
— Não, só há na Terra dos Albos. Nós só pudemos trazer um pouco conosco. Só o lustro de estrelas já torna essa espada algo impressionante. Mas, além disso, essa arma é de tempos ancestrais. Ela é mais jovem que a sua velha espada, mas é o trabalho de um anão. Ele forjou muitas armas como essa e foi um dos poucos que partiu para a luz de prata. Posso vê-la mais uma vez?
Nuramon puxou a espada novamente e estendeu-a para o rei. Wengalf pegou-a e passou os dedos sobre a lâmina.
— O grande Teludem fez esta arma para um elfo. — O rei apontou para o nome de Gaomee, em escrita tortuosa. — Este símbolo aqui foi acrescentado mais tarde por mão de elfo. — E, devolvendo a espada a Nuramon: — Há somente quatro dessas espadas élficas feitas pelas mãos de anões. Diziam que todas haviam sido aniquiladas nas Guerras dos Trolls e na luta contra os dragões. Não consigo imaginar um portador melhor para essa arma que você, Nuramon. Ela lhe prestará bons serviços.
Nuramon curvou-se sobre o joelho diante do rei para ficar com os olhos na altura dos dele. Então disse:
— Agradeço a você, a Thorwis e a todos os outros. Eu cheguei a este átrio com esta vida, e estou deixando-o com todas as anteriores. Agradeço a você por tudo que me ofereceu e por aquilo de que ainda não consigo me lembrar. Nós nos veremos novamente, Wengalf. Se não nesta vida, então em uma próxima.
— Se todos os elfos fossem como você, Nuramon, não teríamos virado as costas para a Terra dos Albos — respondeu o rei. — E agora vocês dois precisam ir, antes que eu aja totalmente contra a razão e resolva acompanhá-los.
Nuramon fez que sim com a cabeça. Então se ergueu.
— Adeus! Até a vista!
Lançou um olhar para Alwerich. O anão veio até o seu lado. Nuramon olhou mais uma vez para dentro do átrio gigantesco. Então, os dois companheiros saíram para a luz do sol.
Caminhos sem fim
Farodin acordou em um salto e bateu a cabeça. Estava completamente escuro ao seu redor. Tonto, tateou na escuridão. Suas mãos apalparam rochas e cascalho; doíam.
Lentamente, a lembrança começou a voltar. Tinha adormecido de cansaço. Os trolls haviam preenchido uma parte dos corredores secretos com entulho. Em alguns lugares haviam sido colocadas até armadilhas primitivas, fossas com lanças e pedras pendulares que esmagavam os que estivessem distraídos.
Eles deviam ter mandado duendes ou escravos humanos ali para baixo. Tudo de que Farodin se lembrava já não era mais como agora. Longos túneis tinham desaparecido, portas secretas haviam sido muradas e escadas, demolidas.
Com as mãos nuas, o elfo estivera cavando para penetrar no cascalho. Em algumas partes, só conseguira avançar rastejando de barriga para baixo. Duas vezes tinha cavado por um túnel semicoberto de entulho somente para dar de cara com um pesado bloco de pedra que obstruía a passagem.
Por quanto tempo teria ficado dormindo? Sentia uma fome que o corroía por dentro. Sua garganta estava seca e os lábios, rachados. Será que ficara dias inteiros ali? A escuridão privava-o de qualquer noção de tempo. Só a fome e a sede serviam de medida para os dias que se passaram. Devia fazer cerca de cem horas desde que se separara do filho de humanos. Agarrou o cascalho e afastou as pedras soltas de lado para baixo dele. Como uma toupeira, avançava centímetro por centímetro. O que teria acontecido com Mandred? Ele devia fazer o papel de enviado somente por algumas horas. Quatro dias era tempo demais!
Com um estrondo, os escombros rolaram para a frente. Tinha conseguido abrir passagem! Escorregou um último trecho sobre pedras angulosas e então chegou a um corredor em que conseguia andar abaixado. Seguia em frente tateando cuidadosamente. Dez passos. Vinte passos. O corredor subia levemente.
De repente deparou com um muro de pedra de alvenaria e argamassa. abriu os braços, nervoso. À direita e à esquerda havia sólidas paredes de rocha. Estava cercado de pedra pelos três lados. O elfo gania de raiva. Mais uma vez, tinha caído em um beco sem saída!
Irmãos de armas
Nuramon e Alwerich haviam deixado as montanhas. Andavam sobre os prados das planícies, seguidos por Felbion. O anão olhou em volta. Para ele, o horizonte aberto parecia não ter limites, era possível sentir nitidamente que a amplitude o deixava inseguro. Além disso, Alwerich simplesmente não queria cavalgar com Nuramon sobre Felbion. Caminhou ao lado do cavalo por dias até que seus pés estivessem totalmente feridos. Se ele não tivesse negado convictamente a proposta de Nuramon de viajar pelos portais que o elfo da Terra dos Albos conseguia criar, já estariam em seu destino há muito tempo. Mas o anão tinha uma cabeça tão dura como Nuramon até então só havia encontrado em Mandred.
Alwerich baixou o olhar para os pés.
— Suas mãos curadoras são poderosas.
— Mas elas nunca tinham tocado pés de anão antes — disse Nuramon, sorrindo. — Pelo menos não nesta vida.
— Se seus amigos elfos na Terra dos Albos soubessem disso, com certeza torceriam o nariz.
— Você podia lavá-los pelo menos de vez em quando — disse Nuramon, lembrando-se da cura que fizera.
Tocar os pés do anão fora um grande sacrifício para ele.
— Vou melhorar nisso.
— Não se preocupe com isso. As mãos dos elfos não ficam sujas. A poeira não fica presa na minha pele; a água forma gotas redondas ao tocá-la; consigo me livrar de esguichadas de lama somente com uma chacoalhada rápida.
— Então você não precisa se lavar nunca?
— Mas eu me lavo mesmo assim.
— Quando? Eu nunca vi.
— O que você não vê ainda assim pode acontecer, Alwerich. Só quando aquilo que você vê não acontecer é que deve começar a se preocupar. Agora diga... Antes de partirmos, você foi até uma mulher e a abraçou. Era a sua mulher?
— Sim. Aquela era Solstane.
— O amor dos anões dura para sempre? Vocês se veem de novo nas novas vidas?
— Nós nos vemos de novo, mas não necessariamente precisamos nos amar. Veja o caso do rei. Nesta vida ele ainda não escolheu nenhuma mulher. A rainha de sua última vida já era mais velha quando Wengalf nasceu na sua vida atual. Quando cresceu, ele tomou-a como esposa novamente. Mas eles não se suportavam mais. Com a morte, ela foi separada dele. Em algum momento, ele escolherá uma outra mulher e gerará descendentes.
— Então não existe algo como o amor eterno?
— Ah, sim. Alguns prometem tirar a própria vida quando os amados morrem. Então eles os seguem, e assim podem crescer juntos e algum dia se amarem novamente. Foi isso o que cumpri com minha amada. Na escritura da minha vida, consta que Solstane e eu já éramos um casal na Terra dos Albos. Nós nos amamos, ficamos muito velhos e geramos muitos filhos.