Enquanto isso, Orgrim levantara seu pesado trono e o arremessara na direção de Farodin. O elfo jogou-se no chão para desviar, batendo com força seu ombro. O pesado móvel voou por cima dele e arrebentou-se na parede oposta.
Ainda caído, um grito gutural desviou sua atenção. O ar naquele quarto ficara repentinamente gelado. Era a velha xamã, que agora elevava seus magros braços. Raios de luz clara dançavam ao redor de suas mãos. Farodin arremessou seu punhal, e a xamã despencou de seu banco com as mãos na garganta. Sangue escuro brotou entre seus dedos.
Orgrim, no entanto, aproveitou-se da distração de seu inimigo para apanhar uma clava.
Farodin puxou sua espada e a última faca. De canto de olho, viu guerreiros entrarem pela porta. Um deles ergueu o braço para lançar seu machado. Como um raio de prata, a faca partiu da mão do elfo e acertou a testa do guerreiro.
Orgrim, porém, agora estava próximo e brandia sua clava no ar. O elfo quis mergulhar por baixo do golpe, mas o duque mudou sua direção no último momento. Farodin ainda conseguiu erguer a espada, mas a violência da pancada arrancou-lhe a arma da mão. Ela deslizou no chão até a porta.
Orgrim deu uma gargalhada estridente.
— Então é isso, elfinho. Desarmado, você está morto!
Farodin saltou e bateu com os dois pés sob o queixo do gigante. Pôde ouvir os dentes do duque se estilhaçarem com a violência da batida das mandíbulas. Com a força do choque, Orgrim cambaleou para trás.
Farodin rolou para o lado. Em meio a gemidos e gritos, um tilintar o fez dar meia-volta. Os guerreiros restantes mantinham distância dele. A xamã estava novamente de pé, com o punhal no chão diante dela. Bem lentamente, ela pôs um pé sobre a arma.
O elfo ergueu os olhos. A ferida na garganta da velha mulher havia se fechado. Seus olhos ardiam febris.
Farodin baixou o olhar, mas já era tarde demais. Contra a sua vontade, deu um passo para trás. Ela assumira o controle sobre o elfo.
As folhas da janela se abriram com um estalo. O ar gelado adentrou o quarto.
— Você realmente achou que conseguiria matar o duque novamente? E pensou que eu toleraria isso até o fim dos tempos? — disse, desafiadora. — Há séculos eu sabia que você retornaria. Sua presunção é o que vai custar a sua vida, elfo; a crença de que conseguiria nos vencer uma vez depois da outra. Nem Emerelle é tão atrevida quanto você.
A vontade da xamã obrigou Farodin a erguer a cabeça e olhá-la no rosto. Deu outro passo para trás, e então mais um...
Farodin tentou combater desesperadamente o feitiço que ditava os movimentos de seu corpo. Mas estava desamparado como uma criancinha que esperneava para se desvencilhar de um adulto. E sentia a presença dela em seus pensamentos. Estava se apoderando de suas memórias!
A xamã o obrigou a subir no parapeito da janela. O frio cortante o golpeou. Uma nevasca havia começado. Isso era bom. Não! Ele não podia... Tentou pensar em Noroelle.
A velha sorriu.
— Os prisioneiros elfos fugiram, e também levaram o filho de humanos.
Lançou a Farodin um olhar inquiridor. O elfo tentou esvaziar seus pensamentos, invocando a imagem de um amplo e branco campo nevado. A xamã, no entanto, se apossava de suas lembranças sem esforço aparente.
— Os fugitivos querem chegar a um barco escondido em uma caverna do outro lado do fiorde.
— Mandem tropas de busca para a praia — ordenou Orgrim. — E também deixem dois navios prontos para partir.
— Você está em boa companhia, duque. — De forma fantástica, a voz da velha encobriu os bramidos da tempestade. — Ele também já matou soberanos de seu próprio povo. Por ordem de sua rainha. Você tem medo da morte, carrasco? — perguntou ela, curiosa.
De repente, duas rugas profundas se formaram em sua testa. Seus olhos se arregalaram de espanto.
— O devanthar...
Farodin sentiu o poder sobre ele se afrouxar de repente, e como ela, assustada, se retirou de suas memórias.
Seu corpo agora o obedecia totalmente. Farodin pôs as mãos sobre o parapeito congelado da janela. Ela esperava que ele, com medo, desse um salto para a frente? Estava totalmente equilibrado. Em segurança. Baixou a cabeça como um membro da corte:
— Vocês me dão licença de guardar meus pensamentos só para mim?
Com essas palavras, Farodin jogou-se para trás do parapeito da janela. Contra o duque, não conseguiria fazer mais nada. Era melhor morrer assim do que se entregar aos trolls sem ter controle de si.
Farodin despencou na escuridão. Suas costas bateram com força contra um dos pilares que sustentavam a torre. Ele escorregou dali e caiu, cada vez mais para o fundo. Meio anestesiado pela dor, tentava controlar a queda, esticando o corpo para se adiantar e tentar se agarrar a um parapeito ou a uma saliência qualquer. Mas, enquanto caía, sua capa esvoaçante enrolou-se nele como uma mortalha, impedindo os seus movimentos. Mais alguns instantes e ele de fato precisaria de uma.
De repente, sentiu um solavanco. Algo agarrou sua garganta como se quisesse arrancar sua cabeça. Farodin se sacudiu. A queda terminara abruptamente. Suas mãos e pés tateavam no vazio. Por alguns momentos, ficou totalmente desorientado. Então percebeu que estava pendurado em algo, desamparado como um filhote de gato que a mãe segurava pela nuca.
Farodin estendeu a mão sobre a cabeça. Ali encontrou apoio. Seus dedos agarraram-se na pedra coberta de gelo. Uma gárgula! Sua capa ficara presa na cabeça esticada da criatura de pedra. Tremendo, Farodin puxou-se para cima e chegou em relativa segurança a um friso de pedra, de onde sobressaía a estátua. Soltou o broche da capa que lhe salvara a vida. Seu pescoço estava ferido pelo tecido. Os músculos de sua nuca queimavam, distendidos. Mal conseguia mexer a cabeça. Então, tomou consciência do tamanho da sorte que teve. Na verdade o golpe podia quebrar o seu pescoço!
Farodin tentou estimar em que altura da torre se encontrava, mas na nevasca pesada pouco podia enxergar. Muito profunda sua queda certamente não havia sido, senão o solavanco o teria matado. Indeciso sobre o que fazer, piscou para tirar a neve dos olhos. Diante dele, um arco de sustentação perdia-se na escuridão. Não podia se demorar. Dali não havia nenhum caminho para o interior da torre. Precisaria descer escalando se quisesse se colocar em segurança. Se ficasse ali, os trolls cedo ou tarde o encontrariam.
O vento violento puxava a capa que Farodin agora segurava na mão. Deixou-a ir embora voando na escuridão. Ela só atrapalharia a sua descida. Esticou-se cuidadosamente e deixou-se escorregar sobre o arco de sustentação. Deslizava centímetro por centímetro sobre ele. Logo o arco deu em um pilar largo que descia verticalmente nas profundezas.
Com cuidado, Farodin tateou com os pés no escuro. O pilar era enfeitado com carrancas de pedra. Neve e gelo haviam se acumulado nelas. Descia escalando absurdamente devagar. Logo o frio entorpeceu suas mãos. Sua pegada tornava-se cada vez mais insegura.
Quando chegou ao próximo arco de sustentação ligado ao pilar, parou sobre um friso por um momento. Concentrou-se para criar um estofo de calor por baixo de suas roupas. Demorou para que a magia se sujeitasse ao seu desejo. Feitiços nunca eram fáceis para ele, principalmente quando estava exausto. Quando se sentiu um pouco mais aquecido, o sono ameaçou vencê-lo. Apoiou-se na parede e olhou para dentro da nevasca a seus pés.
Três ou quatro metros mais abaixo havia um vitral. Por trás dele brilhava a luz fraca de uma pedra de barin. Farodin pensou em como conseguiria chegar até lá. Do paredão da torre saíam algumas escoras de pedra. Tinham sido projetadas algum dia para sustentar varandas que não chegaram a ser construídas. Elas se sobressaíam da parede com dois palmos de largura e quase um metro de comprimento. Uma dessas escoras ficava imediatamente acima da janela. Pensou, então, em um plano desesperado para sair dali.
Cada grupo de cinco escoras ficava a uma distância de pouco mais de dois passos do próximo. Um pouco abaixo, outras cinco escoras saíam da parede. Estavam dispostas exatamente umas sobre as outras. Caso a tentativa de alcançá-las falhasse, ainda haveria esperança de se segurar. Não, a primeira tentativa precisava dar certo! Desesperado, examinou as pedras cobertas de neve. Para conseguir chegar até elas, precisava ir do maciço pilar de sustentação de volta para o muro da torre.