Farodin, então, subiu escalando em um dos arcos que se uniam ao paredão da torre. Avançou com dificuldade, centímetro por centímetro, até chegar à parede. Lá ele se agachou. Estava agora exatamente sobre uma das escoras transversais que se projetava da parede cerca de três metros abaixo. Farodin praguejou. Teria de saltar sobre a pedra coberta de gelo, um movimento extremamente arriscado.
Olhou para baixo por um tempo. Sentia o frio penetrar em seus membros. O feitiço de calor se extinguira tão logo deixara de se concentrar nele. Saltou!
Farodin aterrissou na escora, mas as solas de seus pés não encontraram apoio. Meio caindo e meio se jogando, conseguiu virar e pousar, caindo, com as pernas abertas, sobre a escora mais abaixo. A dor fez encher seus olhos de lágrimas.
Gemendo, soltou o cinto dos quadris e prendeu-o ao redor da pedra. Tirou a camisa e amarrou uma das mangas ao cinto. O vento gelado cortava as suas costas nuas como uma faca afiada. Agora o vitral estava abaixo dele.
Farodin fez um grande nó na ponta da segunda manga, torcendo muito para que as costuras da camisa fossem sólidas. Então jogou-se do friso. A camisa se esticou de uma vez. O couro do cinto rangeu sobre a pedra áspera. Balançando, o elfo pegou impulso, lutando contra a ventania violenta. Depois de muito esforço, a janela agora estava quase na mesma altura dele. Lentamente seus dedos rígidos foram perdendo a firmeza. Mais um impulso e... Ele se soltou.
A janela explodiu, barulhenta, com o impacto de suas botas. O vidro cortou seus braços. Chocou-se com força contra o chão e rolou para o lado. Sangue quente escorria de sua testa.
Respirando com dificuldade, ficou ali, deitado. Tinha conseguido escapar! Nesse primeiro instante, não conseguiu fazer nada além de simplesmente fitar o teto sobre ele. Quase não podia acrecitar. Estava vivo!
Embora estranhasse que ninguém tivesse ouvido a janela se quebrar, acabou tomando consciência de que o ruído havia sido abafado pelo enorme barulho que retumbava na torre. Batidas de gongo soavam. O fogo!
Nuvens de fumaça passavam na frente da pedra de barin abaixo do teto. A fumaceira tornava-se espessa rapidamente. Farodin conseguiu sentar, mas já sentia tontura. Seus olhos lacrimejavam.
Ele rasgou uma tira de pano da calça e pressionou-a sobre o nariz e a boca, à guisa de filtro. A fumaça facilitaria a sua fuga — caso não o matasse.
A canção de Elodrin
Mandred estava apreensivo. Não poderiam esperar mais. Logo a maré estaria tão alta que não seria mais possível sair da caverna. E então ficariam presos lá por horas! Tremendo, enrolara um cobertor ao redor dos ombros. O estrondo da maré que subia ecoava nas paredes da gruta. Sentia-se muito fraco. Desamparado, estava à mercê dos elfos. Haviam atravessado o fiorde a nado com ele. Landal, um elfo magro e louro, agarrou-o pela barba e puxou-o atrás de si. O feitiço dele livrou o jarl de morrer na água gelada. Ele se sentia, contudo, mais morto do que vivo. O frio penetrara fundo em seus ossos. Estava deitado no chão do barco enrolado em várias cobertas, e mal conseguia se mexer.
— Conduzam o barco para fora da gruta — comandou Elodrin, aproximando-se do timão na popa. — Vamos esperar lá fora, no fiorde. Ali pelo menos não estaremos sentados na armadilha.
Os demais elfos se posicionaram nos remos. Lutar contra a forte correnteza na entrada da caverna exigia todas as suas forças. A água estava tão alta que a curva da roda de proa do barco batia o tempo todo contra o teto baixo da caverna. Já parecia ser tarde demais para escapar quando o pequeno veleiro, de repente, deu um pequeno salto para a frente, vencendo uma onda. E então eles estavam livres.
Com muita habilidade, Elodrin os conduziu pelos recifes e baixios até finalmente chegarem às águas mais profundas e navegáveis do meio do fiorde. Esgotados, os elfos se puseram de cócoras ao longo do costado do barco, recuperando-se da luta contra o mar. Somente Elodrin estava de pé na popa. Inquieto, espreitava através da névoa densa.
— Um feitiço poderoso está agindo — disse ele em voz baixa. — Sinto magia em todo lugar. Não deveríamos ficar aqui.
— Nós vamos esperar Farodin! — insistiu Mandred.
— Isso não é muito esperto. — O velho elfo apontou para adiante, para onde devia estar o Pico da Noite do outro lado da névoa. — Farodin veio até aqui para morrer.
— Não, você não o conhece. Ele dedicou sua vida toda à busca por sua amada. Ele não vai morrer aqui.
Elodrin sorriu cansado.
— Então você conhece a alma dos elfos assim tão bem, filho de humanos?
“Maldito sujeitinho petulante”, pensou Mandred.
— Se vão abandoná-lo, então me levem até a margem. Vou procurar por ele!
— O que você quer fazer? Arrastar-se até o Pico da Noite?
— Seja como for, não vou deixar um amigo na mão.
— E se você também morrer, de que isso vai servir a Farodin? — perguntou Elodrin.
— Isso você nunca vai compreender, elfo. Não abandonar os amigos é uma questão de honra para nós, humanos. Tanto faz em que circunstâncias. Tenho certeza de que Farodin faria a mesma coisa por mim!
O velho elfo concordou com a cabeça.
— Sim, ele mudou muito. Isso eu pude sentir. Talvez... Fique quieto agora, filho de humanos. Preciso de silêncio!
Elodrin soltou o timão e agachou-se na popa. Começou a entoar, quase sussurrando, uma canção de ninar. O suave balanço do barco e o cansaço estavam deixando Mandred com sono. Sua cabeça tombou para o lado. Não adormecer — esse foi o seu último pensamento.
Assustado, Mandred acordou num sobressalto. Os elfos estavam novamente sentados junto aos remos e a névoa tinha se dissipado. Pareciam ter deixado o fiorde! Furioso, Mandred ergueu os olhos para Elodrin.
— Seu patife covarde! Você me adormeceu com um feitiço para fugir!
Tateou em busca do machado. Não estava lá. Cada movimento fazia uma dor lancinante percorrer sua perna.
O velho elfo havia recolocado a venda. Inclinou a cabeça na direção de Mandred e sorriu.
— O fato de você acordar só agora mostra como é forte o laço de amizade entre vocês.
— Você vai me levar imediatamente de volta ao fiorde, seu miserável, comedor de lama...
— Nardinel! Landal! Ajudem-no a se levantar! O falatório dele está atrapalhando o meu feitiço!
Os elfos que ele chamou recolheram seus remos e vieram até ele. Estavam novamente vendados. Mandred gemeu de dor quando o agarraram e o puseram sobre as pernas.
— Eu não sei como você conseguiu — sussurrou Nardinel em seu ouvido —, mas a sua insensatez também contagiou Elodrin! Os xamãs dos trolls estão dissipando a névoa do fiorde. Todos podem nos ver. E, ainda assim, estamos indo para o porto do Pico da Noite!
Enquanto se apoiava nos elfos, Mandred podia ver por cima da balaustrada. A nevasca tinha cessado. O céu estava claro e cheio de estrelas. A cerca de um quilômetro de distância, a torre dos trolls erguia-se sobre o fiorde. Tochas moviam-se em todo lugar sobre os rochedos e ao longo da praia. O pé da torre estava cercado por uma claridade débil e avermelhada, muita fumaça densa brotava de suas janelas.
O longo quebra-mar estava cheio de trolls. Pelo visto, tripulavam seus navios a todo vapor.
— Você o vê? — perguntou Elodrin da popa. — Farodin deve estar perto de nós, na água. Sinto sua proximidade. Mal preciso de força para manter o feitiço de busca.
Mandred espreitou o movimento suave das ondas. Seria possível ver claramente um nadador que estivesse revolvendo a água. Mas ali não havia nada.