— Você tem certeza de que ele está aqui? — perguntou.
Elodrin apontou para a esquerda da roda de proa.
— Ali. Esta é a direção em que você deve olhar!
Mandred apertou os olhos. A luz das tochas refletia-se no mar calmo. De repente, uma pequela bola de fogo subiu a pino do Pico da Noite em direção ao céu. Ela traçou um arco amplo e lançou-se sobre eles, caindo a muitos passos de distância. Era uma lança com uma pequena chama na sua ponta de pedra.
Mal ela desapareceu na água escura, duas novas lanças de fogo partiram do Pico da Noite. Do porto, vinham gritos guturais. Mandred viu um dos grandes navios negros soltar os cabos.
O jarl procurava desesperado na água. Finalmente descobriu algo. Uma mancha clara. Cabelo dourado embalado pelo ritmo suave das ondas.
— Ali! Mantenham-se um pouco a estibordo! Farodin!
O amigo não reagiu. Boiava com o rosto submerso.
— Rápido! Um remo!
Mandred esbarrou com a pá do remo em Farodin, mas o elfo não fez nenhuma tentativa de se agarrar nele.
— Landal, tire-o da água! — ordenou Elodrin.
O elfo soltou-se de Mandred, pulou na água e tateou com o remo até chegar a Farodin. Virou-o, agarrou-o pelo cabelo e retornou ao barco, rebocando-o com braçadas vigorosas. Quando Nardinel o soltou para ajudar, Mandred teve de se agarrar à balaustrada. Não conseguia pôr peso sobre sua perna quebrada. Mas, ainda assim, lentamente recobrava suas forças.
Ambos os elfos foram puxados a bordo. Farodin não se mexia. Seus olhos arregalados e sem foco fitavam as estrelas. Seu tronco estava nu e azul por causa do frio. Estava coberto de cortes e contusões.
Com um assobio, uma das lanças de fogo passou bem perto do barco, atingindo a água.
Elodrin ordenou a Mandred que assumisse o lugar de Landal no último banco de remo. Estavam virando o barco. Todos se posicionaram junto aos remos. Outra lança flamejante passou voando por cima deles, desta vez bem perto.
Landal cuidava das feridas de Farodin. Tateava o corpo do elfo e arrancava cacos de suas costas, tudo isso de olhos vendados. Demonstrava grande habilidade em cada movimento. Por fim, envolveu Farodin em uma coberta. De repente parou e ergueu a cabeça como se tivesse percebido o olhar de Mandred. Landal fez um gesto para que ficasse calmo.
— Você não precisa se preocupar. Ele vai se recuperar.
— Mas ele estava boiando com o rosto na água. Como um... um... — A palavra não saía pela boca do jarl.
— Foi o frio que o salvou — explicou o elfo franzino. — Tudo fica mais lento na água gelada. As batidas do coração, o fluxo sanguíneo... até a morte. Não quero iludi-lo, filho de humanos. Ele não está bem. Está esgotado demais e tem dezenas de feridas. Mas ele vai se recuperar.
Um sinal de alerta soou. Apreensivo, Mandred olhou para trás. Um dos imensos navios trolls dirigia-se à saída do porto. Os remos foram puxados do casco e revolviam o mar escuro. Mesmo com a distância, era possível ver que estava mais veloz que o pequeno veleiro em que navegavam. Batidas surdas de tambor ecoavam sobre a água. Logo os remos do navio troll moviam-se no mesmo ritmo.
Mandred e os elfos remavam com tudo. No entanto, por mais que se esforçassem, os trolls venciam cada vez mais a distância. Assim que a perseguição começou, estava claro como terminaria. Mandred estava banhado em suor. Cada movimento castigava sua perna com dores latejantes. A perseguição já durava meia hora ou mais. O Pico da Noite já estava fora do campo de visão havia muito tempo. Rochedos altos e a parede de gelo de um glaciar ladeavam o fiorde.
Mandred estava sentado de costas para a proa e podia ver nitidamente o que se passava a bordo do navio dos trolls. A fortificação dianteira, que se erguia como uma torre sobre o convés principal, estava iluminada por tochas. Havia dezenas de trolls aglomerados ali. Haviam disposto bacias com brasas e, sobre elas, feixes de flechas. Como se não bastasse, um segundo navio troll os seguia a algumas centenas de metros de distância.
Farodin ainda não voltara a si. Pela fúria com que os trolls os perseguiam, devia ter tido êxito em seu plano audacioso, pensou Mandred.
Um comando estridente ecoou sobre a água. Os arqueiros ergueram suas armas e, no instante seguinte, uma saraivada de flechas partiu, caindo no mar bem atrás do barco dos elfos.
— Por quanto eles nos erraram? — perguntou Elodrin calmamente.
— Por dez ou quinze passos.
— O que há nas margens agora?
O sangue-frio dos elfos ainda deixava Mandred furioso. Elodrin fizera essa pergunta vinte vezes ou mais. De que importavam as margens? Ali eles não conseguiriam atracar. Por terra eles seriam ainda menos capazes de escapar dos trolls. Novamente, uma chuva de flechas acertou a água atrás deles. Desta vez, caíram a menos de dez passos de distância.
— A margem! — questionou Elodrin.
— Rochedos! Ainda rochedos! — retrucou Mandred, enervando-se. — A geleira agora está talvez uns sessenta passos atrás de nós.
— Landal, assuma o remo por favor.
O elfo franzino rendeu Elodrin, que se sentou ao lado de Mandred. Seu rosto estava consumido. As últimas horas haviam lhe custado suas últimas forças. Ele tirou a venda e pousou-a no chão diante de si. Mantinha os olhos bem fechados.
Mais flechas partiram. Muitas atingiram a água novamente, mas, desta vez, com um som surdo, várias perfuraram a popa. A próxima salva transformaria o veleiro no navio da morte, pensou Mandred desesperado.
— Para um humano, você é mesmo notável, Mandred — disse Elodrin amigavelmente. — Foi muito rude da minha parte puni-lo com o silêncio durante a nossa prisão. Queria me desculpar por isso.
Mandred curvava-se para a frente e para trás no ritmo das remadas. O velho era maluco. Lutavam com unhas e dentes por cada centímetro de vantagem sobre o navio inimigo e agora ele vinha com essa.
— Aceito suas desculpas! — arfou, contrariado.
Elodrin parecia não mais ouvir. Como alguém que rezava, suas mãos estavam erguidas para o céu. Tinha a boca escancarada e o corpo tenso, como se gritasse em agonia. Mas nenhum som passava por entre seus lábios.
Mais flechas atingiram o barco. Uma delas atingiu Nardinel bem no peito, arrancando-a do posto de remo. Outra cravou-se no banco bem ao lado de Mandred. O jarl começou a remar ainda mais ferozmente, saindo do ritmo dos outros remadores. Com isso, o barco, descompensado, derivou para estibordo. Isso os salvou. A chuva de flechas seguinte teria feito um grande estrago, mas acabou na água.
De repente, ouviram um estrondo violento vindo da geleira, como se um gigante batesse com a mão aberta no mar. Um pedaço de gelo grande como uma carroça de feno quebrara-se e precipitara-se no mar escuro. O pequeno barco foi suavemente erguido por uma onda e empurrado um pouco adiante.
Ouviram-se ordens a bordo do navio dos trolls. Mandred pôde ver que, desta vez, os arqueiros atearam fogo às suas flechas.
Como uma multidão de estrelas cadentes, os tiros de fogo voaram em direção ao barco. Mandred abaixou-se por reflexo, embora soubesse ser inútil. Flechas cravaram-se ao seu redor. Um dos elfos gritou. Elodrin caiu. Uma flecha saía de sua boca escancarada e duas outras estavam cravadas em seu peito.
A coberta em que Farodin estava embrulhado pegou fogo. Mandred puxou-a e jogou-a do barco. Enquanto isso, viu os arqueiros levantarem suas armas mais uma vez.
Um som que Mandred nunca ouvira ecoou dos rochedos da geleira. Lembrava o estrondo do tronco de uma árvore ao tombar para o lado quando os lenhadores tiram a sua sustentação. Só que era infinitamente mais alto. Um enorme pedaço da geleira soltara-se, desencadeando uma avalanche. Agora, cada vez mais gelo se partia, revolvendo o mar em um redemoinho de espuma e grandes ondas. Desajeitado, o navio dos trolls dançava desamparado sobre as ondas, sem conseguir desviar dos blocos de gelo que acabaram por destroçar o seu costado.
Em seguida, outra onda gigante começou a descer o fiorde. A popa do barco dos elfos foi lançada para cima. Landal agarrou-se no remo com toda a força. A água bateu sobre a balaustrada. Eles flutuavam no meio da espuma branca sobre a crista da onda. Tão rápido quanto um cavalo élfico em pleno galope, eles foram arremessados à frente. Mandred mal ousou respirar. Felizmente, Luth estava do lado deles. Os navios trolls ficaram presos nas barreiras de gelo no fiorde. Era impossível continuar a perseguição.