Landal assumiu o comando entre os elfos a bordo. Decidiu que o corpo de Elodrin não devia ser entregue às ondas. Ele foi embrulhado em cobertas e deitado entre os bancos de remo. Nardinel, ferida, entoou uma canção fúnebre para ele, enquanto os outros elfos erguiam o mastro para que a força do vento impelisse o barco a partir de então. Mas, até deixarem o fiorde, ainda precisariam se esforçar nos remos.
Quando alcançaram o mar aberto, Landal decidiu seguir uma rota a sudeste. Mandred estava mergulhado num esgotamento mudo. Para ele, não importava mais o que os elfos fizessem. Sua perna o torturava e sentia um frio deplorável. Farodin ainda estava profundamente desmaiado ao lado do cadáver de Elodrin. Seu companheiro respirava regularmente, mas todas as tentativas de despertá-lo tinham sido em vão.
Landal afirmava que o sono em que Farodin estava imerso era de cura, mas Mandred tinha suas dúvidas. O elfo franzino tinha algo de inacessível. Parecia ser dotado de poderes mágicos extraordinários. Sem esforço, ele seguia uma trilha alba sobre o mar. No terceiro dia de viagem, encontrou uma grande estrela alba e abriu um portal cuja aparência era totalmente diferente de qualquer um que seus companheiros haviam criado até então. Como um arco-íris reluzente, ele se erguia alto sobre as ondas.
Ao atravessarem para a Terra dos Albos, Farodin acordou num sobressalto. Precisou de muito tempo para compreender onde estava. Não quis contar sobre o que ocorrera no Pico da Noite. Aproximou-se da proa e ficou olhando o mar.
Na Terra dos Albos estava menos frio. O vento constante preenchia a vela e, dois dias depois de atravessarem o portal, chegaram a Reilimee, a cidade branca junto ao mar. Landal hospedou-os em sua casa. Todos os sobreviventes juraram não revelar a Emerelle que Farodin e Mandred haviam voltado.
A inquietação de Farodin crescia a cada dia na cidade branca. Porém, o ferimento grave de Mandred não os permitia deixar a cidade tão logo. E o filho de humanos estava desfrutando a paz. Todos os dias, a entrevada Nardinel vinha vê-lo. Ela se recuperara admiravelmente rápido da flechada. Suas mãos curadoras uniam os ossos dele com grande habilidade e faziam ainda mais: nenhuma elfa jamais tratara Mandred como Nardinel. Já no barco, ela o aquecia com o corpo quando os calafrios o acometiam, e em Reilimee também dividia o leito com ele com frequência. Falava muito pouco. Até o dia da despedida, Mandred não conseguiu explicar para si mesmo de onde vinham os sentimentos dela.
Duas semanas depois da chegada, quando Mandred se lançou novamente ao mar para retornar com Farodin ao mundo dos homens, ela não usou gestos nem encontrou palavras para a despedida. Em silêncio, enfiou uma pulseira no braço dele, tecida com seus longos cabelos negros. Então virou-se e logo desapareceu na multidão do porto.
Sua estranha forma de amor deixou em Mandred um sentimento inquieto. Com isso, ficou satisfeito de estar indo para o seu mundo, onde, pelo menos às vezes, pensava que conseguia entender as mulheres.
Dareen
Nuramon tinha a sensação de que uma eternidade se passara desde que estivera naquele lugar e resolvera a sua parte do enigma. No paredão de pedra diante deles descansavam as pedras preciosas: diamante, cristal de rocha, rubi e safira.
Alwerich conseguiu ler a inscrição sobre o cristal de rocha em voz alta: Cante a canção de Dareen, filho da noite! Cante a sabedoria dela, com sua mão na escuridão! Cante as palavras que um dia você disse, e então entrem lado a lado.
— Como são as suas palavras? — perguntou Nuramon ao seu irmão de armas.
— Elas são: Em uma noite calma de outono / como os albos / as estrelas na gruta / claras como nunca / como elas nasciam.
— Você se lembra das minhas palavras? Nós precisamos unir os nossos versos e cantar juntos. Então fica: Você veio até nós em uma noite calma de outono / A sua voz veio como os albos / Você nos mostrou as estrelas na gruta / Elas brilhavam claras como nunca / Nós pudemos ver como elas nasciam.
Um sorriso se desdobrou no rosto de Alwerich.
— De duas canções fazer uma! Agora estou entendendo. — Ele pousou a mão sobre o cristal de rocha. — Venha, vamos entoar juntos a canção-chave!
A canção-chave! O anão encontrara a expressão certa para ela. Era a chave do portal do oráculo. Nuramon levou a mão sobre o diamante, trocou um rápido olhar com Alwerich e então os dois começaram a cantar.
Mal suas palavras terminaram, o diamante e o cristal de rocha se acenderam. Do diamante irradiou a luz brilhante que Nuramon já conhecia, enquanto do cristal de rocha saiu uma luz cor de chumbo, que fluiu pelo sulco na direção do rubi central. Os feixes de luz encontraram-se na pedra vermelha e juntaram-se em um só, que desceu brilhando até atingir a safira. A pedra azul se iluminou e pulsou, como se dentro dela batesse um coração de luz.
Repentinamente as pedras preciosas, os sulcos e as inscrições desapareceram da frente deles. Alwerich recuou assustado. Nuramon só olhou para a própria mão, que agora tocava a rocha nua. Agora era tão macia que era possível penetrar nela. As pontas de seus dedos já estavam afundadas na parede. Quando pôs a mão para dentro da rocha, percebeu que Alwerich já estava novamente ao seu lado. O anão olhava surpreso para o braço de Nuramon, então arriscou também deixar sua própria mão desaparecer para dentro do rochedo.
Nuramon voltou-se para Felbion, que se mantinha um pouco à distância.
— Venha conosco!
Em vez de se aproximar, o cavalo deu meia-volta. Felbion preferia claramente esperar lá fora. Isso não parecia coisa daquele animal curioso.
— Vamos entrar antes que esse portal estranho se feche de novo! — gritou o anão.
Lado a lado, Nuramon e Alwerich adentraram a pedra.
Teria sido assim que os albos um dia viajaram por suas trilhas, com olhos conscientes e atravessando os elementos?
Nuramon sentiu-se cruzar o limiar da estrela dos albos. O cenário mudou: a rocha clara transformou-se em marrom-avermelhada. Saiu da rocha dois passos à frente e, diante dele, surgiu um corredor entre duas paredes cor de canela. Estava em uma garganta estreita, na qual a luz do sol penetrava hesitante. O chão era irregular e coberto por areia. Devia ser um antigo leito de rio que ninguém atravessava havia uma eternidade.
Nuramon olhou ao redor. Alwerich não estava ao seu lado. Virou-se assustado. Então finalmente um rosto com um sorriso bobo saiu da pedra. Era o anão.
— Onde você estava? — perguntou Nuramon.
— Se aqui é o portão, eu estava na guarita. E lá eu encontrei isso aqui. — Alwerich abriu a mão. Dentro dela havia uma pequena estátua de dragão de pedra verde. — É um amuleto anão feito de jade, um talismã.
Nuramon balançou a cabeça, surpreso. O anão, que havia pouco recuara diante do portal, agora movia-se nele como se fosse um corredor de sua própria casa.
Alwerich alisou as paredes ao longo da quebrada.
— Nunca tinha visto rochas sólidas como esta. Onde estamos?
Nuramon não sabia ao certo. O ar era tão límpido como nas montanhas do mundo dos humanos, mas não tão puro quanto na Terra dos Albos.
— Estimo que ainda estamos no mundo dos homens. Mas eu não sei... — Nuramon interrompeu-se, pois ouviu algo ao longe. Olhou para cima. Ouviu gritos a distância que penetraram até ali, naquela garganta. Pareciam sons de animais. — Onde quer que seja, resta esperar que Dareen ainda esteja aqui.
Eles seguiram a garganta estreita. Nuramon foi na frente; ali a areia era tão fina que mesmo ele deixava pegadas. Ficava contrariado por ter de destruir com cada passo a harmonia dos finos padrões de ondas. Ao olhar para trás, viu que não se podia comparar suas pegadas com as marcas profundas das botas de Alwerich, que sequer parecia perceber o que estava fazendo.