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A trilha subia lentamente. No céu azul, um grande pássaro desconhecido para Nuramon voava em círculos. Era semelhante a um falcão. Aquele certamente não era o Mundo Partido, pois havia vida demais para isso. Devia ser algum lugar ainda no mundo dos homens.

A garganta estreita logo se abriu em um pequeno barranco. À direita havia um lago, próximo ao paredão de rocha, em cujo centro erguia-se uma pedra da qual brotava água. Nas margens do lago cresciam grama, árvores, flores e arbustos com botões em formato de estrela. Do outro lado do vale, na parede de pedra, abria-se a entrada para uma caverna. Lá podia estar a gruta das estrelas de que falava a canção-chave!

Em silêncio, Nuramon e Alwerich se aproximaram. Não queriam perturbar o oráculo. Nuramon contemplou o lago. Perguntou-se para onde a água fluía, e foi inevitável lembrar do Lago de Noroelle e de seu feitiço especial.

Então era esse o lar de Dareen. Nuramon nunca vira um oráculo de verdade antes, embora ainda houvesse alguns poucos na Terra dos Albos. Mas quase ninguém procurava se aproximar deles, pois haviam se tornado silenciosos. Ele se perguntava qual seria a aparência de Dareen. Talvez ela fizesse parte dos povos que ainda viviam na Terra dos Albos. Talvez fosse uma elfa, uma fada, uma ninfa, talvez até uma centaura.

Mal deixaram o lago para trás, na entrada da caverna surgiu uma mulher, uma elfa em uma túnica simples cor de areia. Seus cabelos negros caíam sobre os ombros em largas ondas. Ficou ali em pé, inerte, olhando na direção deles.

Hesitantes, Nuramon e Alwerich se aproximaram dela. E, quando estavam à sua frente, Nuramon não ousou lhe dirigir sequer uma palavra. O olhar da elfa parecia atravessá-lo; seus olhos negros exerciam algum encanto nele.

— Vejo filhos da luz e das trevas de mãos dadas — disse ela com voz clara. — Já faz muito tempo que vocês vieram até mim. Sou Dareen, o oráculo.

Nuramon olhou para seu o companheiro, que fitava a elfa como se estivesse enfeitiçado. Ao voltar-se novamente para ela, assustou-se por ter de repente uma anã diante dos olhos, que de fato tinha semelhança com a elfa que surgira antes para ele.

— Eu me mostro de muitas formas aos filhos dos albos. Vou facilitar para vocês.

Primeiro nada aconteceu, mas foi só Nuramon piscar e repentinamente tinha diante dele uma filha de albos que podia se passar tanto por uma elfa baixa e atarracada como por uma anã muito magra.

— Qual é a sua verdadeira forma? — perguntou Nuramon.

O oráculo sorriu com voz suave.

— Qual é a sua verdadeira forma, Nuramon? É essa que está à minha frente? Ou é o guerreiro que você viu há pouco? Talvez seja o corpo que carrega o seu primeiro nome. Mas também pode ser que sua verdadeira forma ainda esteja esperando por você. Então qual forma é a sua?

— Eu não sei. Perdoe-me pela pergunta.

— Não peça perdão! Eu estou aqui para responder perguntas. E se eu mesma respondo com uma pergunta, é apenas para abrir a sua mente. Eu possuo uma forma real, mas ela é desconhecida para vocês e lhes diria muito menos do que este corpo. — E voltando-se para o anão: — Venha, Alwerich! Siga-me até a Gruta das Estrelas, lá embaixo! — Para Nuramon disse, contudo: — Você espera aqui! Pode se refrescar ali no lago. — Desapareceu então na caverna, seguida por Alwerich.

Nuramon, que ficou para trás, estava com tontura. Foi até o lago e bebeu de sua água. Estava fria, o que causou um arrepio em seu corpo. A tontura desapareceu. Quando seu olhar pousou sobre a superfície da água, pensou novamente na nascente de Noroelle. Tirou a corrente do pescoço e mergulhou a almandina, que sua amada lhe presenteara por meio de Obilee, na água gelada. Ali a pedra preciosa castanho-avermelhada brilhou como todas as outras pedras faziam no Lago de Noroelle.

Nuramon olhou para a entrada da caverna. O que Alwerich estaria perguntando? O anão não quisera lhe dizer nada durante toda a viagem. Para se justificar, invocava a promessa que fizera a Thorwis.

Nuramon, em contrapartida, havia se aberto e contado sobre Noroelle. E ficou evidente que Alwerich conseguiu compreender o que movia o elfo. O anão seguira algumas vezes sua mulher Solstane na morte para estar próximo dela na vida seguinte. Nuramon queria que o caminho fosse assim fácil para ele. Alwerich se oferecera para acompanhá-lo no restante de seu caminho. Mas ele recusara. O anão devia voltar para Aelburin e lá levar, com sua mulher, a vida que havia conquistado. Nuramon contara-lhe sobre a mulher de Mandred, do tempo que passou para eles enquanto deram somente alguns passos. Ele não queria que a vida de Alwerich desse uma virada como essa, ainda que ele — ao contrário de Mandred — fosse renascer.

Ao colocar a corrente novamente e sentir a pedra fria sobre o peito, Nuramon perguntou-se qual era o poder que se escondia naquela almandina. Ela repousara por tantos anos no fundo do lago... Noroelle contara a ele que a pedra preciosa era alimentada pelo feitiço do lago. Era muito mais que uma recordação da amada. Mas Nuramon não sabia como liberar o poder particular daquela pedra. Talvez ainda não tivesse chegado a hora.

Quando Alwerich saiu da caverna, sua expressão era de perplexidade. Claramente o anão descobrira coisas com as quais jamais havia contado. Disse, gaguejando:

— Agora você pode entrar.

E então deixou-se cair sobre uma pedra perto do lago, fitando a água.

Nuramon não perguntou a seu companheiro o que ele ouvira. Se não quisera lhe contar a sua pergunta, certamente também não revelaria a resposta. Assim, deixou seu irmão de armas para trás no lago e adentrou a caverna.

Primeiro chegou a uma pequena sala da qual partiam três corredores que levavam mais fundo para dentro do rochedo. De um deles vinha um brilho azul, enquanto nos outros corredores o que reinava era uma meia-luz cinzenta.

Dareen entrou no corredor com a luz azul. Nuramon seguiu-a em silêncio. Continuaram em frente e em declive para dentro de uma caverna escura. As paredes eram tão negras quanto a noite, mas acima arqueava-se um céu estrelado, que fornecia um pouco de luz. As estrelas pareciam tão reais como se Dareen as tivesse apanhado no céu noturno. Então era essa a Gruta das Estrelas!

O oráculo posicionou-se no meio da caverna, onde uma superfície de pedra azul e brilhante estava incrustada no chão. Logo a seguir Dareen começou a falar com voz sensíveclass="underline"

— Vejo dois desejos no seu espírito. Dos dois só posso realizar um. Quanto ao outro, só posso mostrar-lhe o caminho. O primeiro desejo é o da sua lembrança. Você gostaria de ser um só com suas vidas anteriores. O outro desejo é libertar a sua amada. Posso presenteá-lo com sua memória aqui e agora, mas não seria capaz de libertar Noroelle. Só o ajudarei um pouco em seu caminho. Qual desejo deve ser, portanto?

As palavras de Dareen acertaram Nuramon como um golpe. Estava somente a uma pergunta de distância da sua lembrança. Ali, naquele momento, poderia conseguir de volta todas as suas vidas anteriores. E talvez isso até o ajudasse em sua busca por Noroelle! Não queria, todavia, correr esse risco. Mesmo a menor indicação sobre o paradeiro de Noroelle valia mais para ele do que a lembrança de suas vidas anteriores.

— Eu vim com a intenção de perguntar sobre o lugar onde minha amada está exilada. E eu espero poder partir com uma resposta. Minha lembrança um dia virá até mim por si só.

— É uma escolha inteligente, Nuramon. Pois bem, eu vejo em você o que aconteceu. E eu lhe direi coisas que podem ser úteis. Não posso dizer tudo, pois se você souber demais não acontecerão coisas que precisam acontecer. O que posso mostrar você pode ver ali.

Ela apontou para o teto de abóbada.

Nuramon olhou para cima. Das estrelas surgiu uma paisagem: um grande lago, ou então a enseada de um mar com florestas na margem. No fundo via-se ao longe uma cadeia de montanhas. Longe da costa havia uma ilha com uma pequena mata.