— Quanto a isso não posso mudar nada. Vim aqui por conselho do oráculo Dareen. E na palavra dele eu confio.
— Dareen! Esse é um nome de tempos mágicos. Deixou a Terra dos Albos um dia porque o mundo dos homens é um reino de mudanças.
— E ela tinha razão. A cidade lá embaixo é a prova disso.
Xern pôs-se ao lado de Nuramon, e juntos eles olharam para Firnstayn.
— Esse é o legado de Alfadas.
— Ele não está mais vivo? — perguntou Nuramon com pesar.
Teria gostado de rever o filho de Mandred.
— Não. Ele cresceu entre os filhos dos albos, mas sua vida era a de um humano. Então ele morreu quando foi sua hora.
— Quanto tempo se passou desde que deixamos a Terra dos Albos?
Xern esforçou-se visivelmente para conseguir expressar o fluxo dos anos em um número. Na Terra dos Albos, o tempo era muito menos importante do que para os humanos ou anões. Mal havia mudanças lá e a vida durava muito. O que importavam dez ou cem anos? Na Terra dos Albos, quase tudo era como devia ser. Um anão, em contrapartida, certamente teria sido capaz de lhe dar uma resposta naquela situação.
— Já faz cerca de 250 verões que vocês desapareceram.
Duzentos e cinquenta anos! Antes esse número não significaria nada para um elfo como ele. Mesmo que sua noção de tempo não tivesse mudado sensivelmente, ele há muito já entendia quanto eram 250 anos para um humano. Então não tinha se enganado. Eles deviam ter dado um salto no tempo.
Xern prosseguiu:
— Nesses anos muita coisa aconteceu.
Nuramon lembrou-se de que a rainha havia mandado vigiar todos os portões.
— Pois bem, Emerelle revogou abertamente sua proibição.
Devia ter sido isso mesmo, pois Xern certamente não quebraria as regras da rainha somente para falar com ele.
— Sim, e isso foi uma surpresa para todos nós. Alfadas atou um laço entre os elfos e os humanos nestas terras do fiorde. Nós lutamos juntos contra os trolls.
— Houve algo como uma outra Guerra dos Trolls?
Xern apontou ao seu redor.
— Aqui foi um dos campos de batalha. Tudo foi muito rápido, rápido demais para muitos de nós. A rainha disse que um novo tempo se iniciava e que precisávamos nos acostumar ao novo.
Nuramon ainda tinha muitas perguntas, mas uma em especial o afligia. Será que tinha dado o salto no tempo junto com seus companheiros ou sem eles? Se ele se tornou vítima dos anos ao entrar em Iskendria, então aconteceu o mesmo a Mandred e Farodin. Mas, se dera o salto junto com Alwerich para chegar ao oráculo, então Mandred já podia estar morto há muito tempo. E para Alwerich o retorno para casa certamente teria sido amargo.
— Você ouviu algo a respeito de Farodin? Ou de Noroelle?
— Não, nem de Farodin nem da sua amada. Quanto a isso tudo continua como antes. Agora, pouco se fala sobre você e seus companheiros. Há outras histórias. — O olhar de Xern perdeu-se ao longe. — Um tempo de heróis passou por nós. Entre os humanos, eles se tornaram lendas há muito tempo, mas entre nós eles estão vivos e gozam de reconhecimento, ou então renasceram. Grandes nomes! Zelvades, Ollowain, Jidena, Mijuun e Obilee!
— Obilee! Ela lutou na guerra?
— Sim. Ela fez jus às honras de sua antepassada.
Nuramon imaginou Obilee tornando-se admirada por todos e apresentando-se à rainha como uma guerreira feiticeira. Ela já era uma jovem mulher quando eles retornaram da caçada ao devanthar. Certamente se tornara a elfa que Noroelle sempre viu nela. Ele tinha perdido tanta coisa. Com certeza ainda falariam muito sobre a Guerra dos Trolls, assim como falavam daquela de que Farodin participou um dia.
— Você gostaria de ver Obilee, não é?
— Pelo visto ainda é fácil ler o meu rosto — Nuramon respondeu sorrindo.
— Obilee deve estar em Olvedes. Eu poderia mandar um recado para ela. Ela não se esqueceu de Noroelle e certamente nem de você.
— Não, isso só abriria velhas feridas — Nuramon respondeu.
Talvez agora ela até insistiria em acompanhá-lo em sua busca. Pensar nisso podia ser interesseiro, mas ele se tranquilizava de saber que pelo menos a antiga confidente de Noroelle na Terra dos Albos ainda tinha algum valor. Tinha certeza de que sua amada ficaria orgulhosa de sua protegida.
Xern baixou a cabeça e deu de ombros.
— Como quiser. Não vou contar a ninguém além de Atta Aikhjarto sobre este encontro.
— Obrigado, Xern.
— Torço para que encontre Noroelle. — Com essas palavras, Xern recuou para o círculo de pedras e desapareceu na névoa fina.
Nuramon voltou a olhar para a cidade lá embaixo. No caminho até lá, estivera atento ao lugar que Dareen mostrou a ele. Fez até um desvio. Julgando pelas árvores que vira, o portal que eles procuravam devia ficar no norte gelado, perto do mar, ou então junto a um lago nas montanhas altas. Era só isso o que ele sabia dizer.
O oráculo tinha razão. Ele precisaria da ajuda de seus companheiros. Aliando o seu conhecimento ao feitiço de Farodin, eles conseguiriam juntos descobrir a pista para aquele lugar. Talvez Mandred e Farodin o estivessem esperando lá embaixo. Podia ser que o destino voltasse a reuni-los ali.
Nuramon agarrou as rédeas de Felbion e iniciou a descida. No pé da colina, montou e cavalgou em direção à cidade. Enquanto isso, ficou pensando na Caçada dos Elfos. Embora para a sua noção de tempo só tivessem se passado poucos anos, sua sensação era de que ela tinha acontecido em outra vida. A morte de Aigilaos, a luta com o devanthar e o terrível retorno à Terra dos Albos... Parecia já fazer tanto tempo, como se ele já estivesse há uma eternidade em busca de Noroelle.
Quando Nuramon passou diante do portão da cidade, a guarda já o tinha visto havia muito. Mas ele estava aberto. Assim, pôde entrar sem que o sentinela perguntasse sobre sua origem e o que queria. Em vez disso, ele anunciou em fiordlandês que um elfo havia chegado. Embora os filhos dos albos — como Xern disse — agora estivessem mais próximos dos humanos, parecia ser um acontecimento especial elfos virem para Firnstayn.
Sentado sobre Felbion, Nuramon deixou o cavalo caminhar calmamente entre as fileiras de casas, acompanhado por crianças, por olhares que vinham das janelas e por saudações amigáveis. Ele não sabia o que os firnstaynenses viam nele. Isso o desagradava, pois não fizera nada para merecer essas honras. Então apeou para continuar caminhando.
Nuramon tentava se orientar, mas nada mais era como ele conhecia. Finalmente, chegou a uma praça com uma casa comunal de pedra. Aquela devia ser a nova morada do jarl. Uma escada larga, ladeada por estátuas de leões, levava até lá em cima. Os humanos aglomeravam-se ao redor de Nuramon, mas mantendo uma distância respeitosa. Ninguém ousava se aproximar demais dele. Lembrou-se da partida junto aos anões. Que mudança em sua vida o fato de ser recebido ou se despedir com prestígio de todos os lugares onde passava!
Hesitante, um guerreiro humano desceu a escada. Era um homem forte, que trazia uma espada montante no cinto.
— Você veio para falar com o rei? — perguntou ele.
Nuramon hesitou para responder. Antes chamavam seu líder de jarl. Será que isso também era legado de Alfadas? O que Mandred diria quando descobrisse que em Firnstayn agora havia um rei?
— Estou procurando Mandred Torgridson — esclareceu Nuramon.
Um murmúrio se espalhou, e então o silêncio retornou. Mencionara um nome que eles certamente só conheciam das lendas... Mas a resposta do guerreiro que se aproximara de Nuramon surpreendeu-o ainda mais:
— Mandred esteve aqui, acompanhado de um elfo chamado Farodin. Eles partiram há muito tempo.
De repente, as pessoas abriram caminho para um filho de humanos, reconhecível como líder por sua vistosa armadura de placas. Aquela armadura não era obra de humanos — provinha dos ferreiros da Terra dos Albos. Talvez fosse um presente de Emerelle. Podia ter pertencido a Alfadas. Quem a vestia agora era um homem de cabelos grisalhos. Chegou com passos largos e estufou o peito diante do elfo. Era um humano gigante e carregava uma espada estreita demais.