Nuramon levara anos para pensar na paisagem da costa que aparecia no quadro.
— É o mar. Fiquei muito tempo fazendo as ondas. São ondas do mar. — Deixou seus dedos deslizarem pelo quadro. — Esta cordilheira também pode ser uma ajuda. Ela é muito imponente, mas não tão alta para haver neve nos cumes.
— Pode ser um fiorde. Talvez esteja por aqui, nos nossos arredores.
— Não. Aqui não há montanhas claras como essas. Eu perguntei a cada marinheiro, a cada viajante, a cada conhecedor local. No meu caminho até aqui, mantive os olhos abertos para essas montanhas. Elas não se encontram aqui nas terras do fiorde.
Farodin recuou e observou o todo do quadro.
— Por todos os albos! Agi errado com você em Iskendria. Esse quadro! Sinto claramente que tudo em mim busca esse lugar.
— Nós dois agimos errado um com o outro. Mas nós precisávamos nos separar para que pudéssemos fazer progressos no caminho... no nosso caminho até Noroelle. Tenho a sensação de que o Carvalho dos Faunos nos mandou intencionalmente através do portal para o deserto. Talvez a árvore tenha visto algo no futuro. Eu refleti muito sobre isso. Nenhum dia se passou sem que eu me perguntasse por que a rainha simplesmente não mandou me buscar.
— Ninguém da Terra dos Albos esteve aqui?
— Ninguém! Encontrei Xern por acaso. A rainha não fala sobre nós e não tolera que se desperdice nem uma palavra conosco na sua presença.
O canto da boca de Farodin tremeu.
— Ou ela está fora de si em fúria e só esperando nós voltarmos para poder nos julgar, ou então tem alguma outra coisa aí — disse ele por fim.
— Os portais estão novamente abertos e não são mais vigiados desde que a Guerra dos Trolls terminou. Parece que a ameaça de que Emerelle tinha medo foi afastada.
— Ela disse que a morte de Guillaume poderia provocar algo e que ainda sentia o poder do devanthar como antes. Como isso poderia simplesmente passar?
— O devanthar nunca foi visto novamente. Todos se calam também a seu respeito. Pelo menos é o que diz Xern... Pensei muito no que o devanthar estaria tramando agora, quem ele está perseguindo e se realmente encerrou os planos que tinha para nós.
— Não fique quebrando a cabeça com isso! Vamos evitar a Terra dos Albos, se for possível, e esquecer o devanthar por enquanto. Com este quadro você talvez tenha me mostrado um caminho. De alguma forma, eu tenho a sensação de que é assim mesmo.
— Ainda tem mais uma coisa. Com os anões eu...
De repente a porta se escancarou, e Mandred entrou cantando alto.
— Então veio o filho de Torgrid, trazendo ali um fígado de javali! Ah, aí estão vocês! E? Vocês a viram?
— Quem? — perguntou Farodin.
— Ah, ela. Aquela mulher maravilhosa! A irmã de Neltor!
— Para mim todas as mulheres daqui são iguais — retrucou Farodin.
Nuramon sorriu.
— Ele está falando de Tharhild.
— Sim! E que nome! Tharhild! — o filho de humanos sorriu atrevido.
— Quem imaginaria — disse Farodin. — Mandred Torgridson está apaixonado.
O jarl pareceu não ter ouvido as palavras de Farodin.
— Nós somos parentes muito próximos? — perguntou a Nuramon.
— Deixa eu pensar. Você é pai de Alfadas, que por sua vez é pai de... — Ele se calou e ficou pensando. Mas então se perguntou por que seu amigo queria saber. Estava claro que, a respeito de Ragna, esses pensamentos não lhe ocorreram. Ou ele estava com medo de que Tharhild pudesse ser sua filha? — Há onze gerações entre você e Tharhild. Então você não precisa se preocupar. A não ser que...
— A não ser o quê?
— Você se lembra do nome Ragna?
Medo puro se espalhou no rosto de Mandred.
— Tharhild por acaso é...
Nuramon enrolou um pouco o amigo antes de responder.
— Diga logo o que Ragna tem a ver com Tharhild!
— Então, Ragna é nada mais que... tia de Tharhild.
Mandred respirou aliviado.
— E que fim levou ela? Ela ficou triste por minha causa?
— Mandred Torgridson, o grande herói das mulheres! Caçador de aventais de Firnstayn! É só dividir a cama com uma moça um dia e ela irá chorar eternamente por ele e esperá-lo voltar... Não, Mandred. Ela encontrou um bom marido, deu filhos a ele e morreu depois de uma vida feliz. Mas...
— Mas o quê? Vamos, bota isso para fora!
— Eu escutei as mulheres na corte. Elas contam histórias sobre você. Não sobre Mandred, o herói, mas sobre Mandred, o amante, que retornou depois de anos para seduzir as mulheres.
Mandred sorriu.
— Você gostou da sua casa? — perguntou Farodin ao jarl, deixando claro que queria mudar de assunto.
Ele olhou em volta.
— Por Norgrimm! Esta... Esta é a sala de um guerreiro! — E aproximando-se do grande machado de pedra: — Gostei disso... — Então pareceu parar para pensar. — Mandred, o amante! — sussurrou. — Agora preciso ir. Nuramon, meu amigo, vamos nos sentar juntos mais tarde para eu ouvir como você passou...
Mandred saiu tão rápido quanto chegou. Na pressa, nem chegou a reparar no retrato do filho.
Farodin olhou para a porta que se fechava atrás do filho de humanos.
— Ele estava falando sério.
Nuramon suspirou.
— Sim. Mas você pode ter certeza de que amanhã, quando vir o carvalho de sua Freya, será um despertar ruim para ele. Vê-lo fará todas as velhas feridas se abrirem de novo. Eu o conheço.
— Os humanos não são tão fiéis quanto nós, Nuramon. Talvez ele já tenha terminado sua história com Freya.
— O carvalho é um símbolo poderoso demais. Sempre que o vir, ele se lembrará de Freya.
— Você aprendeu muito sobre os humanos.
— Sim. Foram 47 anos! Fiz muita coisa. Este mundo obriga um elfo a aproveitar o tempo de forma diferente de como está acostumado. Eu vi jovens se tornarem anciões e meninas virarem mães e avós. Por mais que tenha apreciado esse tempo, agora quero finalmente procurar Noroelle.
— Você mudou, meu amigo.
Nuramon ficou tocado. Sim, ele havia mudado, mas Farodin também já não era mais o mesmo. Ouvir a palavra amigo de sua boca era um presente que Nuramon jamais esperara, sobretudo depois da briga em Iskendria.
— Eu estou feliz que esteja aqui com Mandred, amigo!
A força da areia
O jovem rei de Firnstayn mostrara-se generoso. Mandara equipar o navio de Nuramon, o Estrela dos Albos, pois desde o começo ficou claro para os companheiros que o barco de Farodin era pequeno e frágil demais para a viagem que tinham diante deles. O rei Neltor também estava consciente disso, então insistiu que sua guarda pessoal, os mândridos, os acompanhassem. E deu a eles, para que levassem consigo em seu caminho, uma pesada arca com prata para que nos portos distantes pudessem completar suas provisões.
Farodin saiu para a viagem com muitas dúvidas. Nuramon depositara grandes esperanças no quadro que pintou e não queria ouvir nada a respeito do quanto talvez fosse necessário procurar para encontrar a ilha. Como viajar a um lugar que não se sabe onde fica? Da tripulação eles esconderam suas incertezas. O que os humanos diriam sobre isso? Até Mandred, que já os conhecia havia tantos anos, estava inquieto. Ele se preocupava com seus mândridos e temia que pudessem ficar velhos antes que a busca terminasse.
Farodin memorizara com exatidão o quadro da ilha de Nuramon. Todos os dias tentava encontrar a pista para o lugar com a ajuda de seu feitiço. Mas isso era diferente do que ocorria com os grãos de areia: ele os encontrava ou não. Quando procurava pela paisagem do quadro, era acometido por uma vaga sensação de que tinham de virar para o leste. Mas será que uma sensação bastava, ainda mais uma assim tão vaga?
Eles evitaram as águas dos trolls e seguiram por semanas a costa acidentada de Skoltan.
Era uma manhã de verão e acampavam em uma praia sob pedras de calcário cinzentas. Farodin se afastara dos outros. Como sempre, usou o feitiço de busca uma primeira vez para encontrar indicações sobre a paisagem da imagem. Procurava mais que uma vaga sensação.