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Queria saber em qual direção deviam seguir em vez de apenas suspeitar dela.

Então fez o feitiço de busca uma segunda vez. Agora segurava firmemente nas mãos a garrafa de prata com a areia e procurava os demais grãos da ampulheta quebrada. Um pouco adiante, na terra, sentiu um único grão. Concentrou-se e então deixou o poder da areia fluir. Como um imã atrai uma lasca de ferro, a areia na garrafa puxou para perto o grão solitário.

Farodin estendeu a mão e logo sentiu um toque muito suave. Satisfeito, o elfo acrescentou o grão à areia de dentro da garrafa. Era somente um passo minúsculo, mas cada um desses passos o levava um pouco mais para perto de Noroelle.

Fechou a garrafa de prata cuidadosamente. Então Farodin fez o feitiço de busca pela terceira vez. Fechou os olhos e pensou no mar. De fato, também conseguia rastrear os grãos de areia que jaziam no fundo dele, mas atraí-los era difícil. O movimento constante da água os detinha. Um curto instante de desatenção e ele perdia a ligação com eles. O melhor seria se aproximar dos grãos o quanto fosse possível. Sair com um barco e agarrá-los assim que chegassem à superfície.

O mar o preocupava. Quantos grãos de areia ele poderia ter engolido? Grãos de areia que ele talvez jamais encontraria! E quantos grãos da ampulheta poderiam estar faltando quando tentassem quebrar o feitiço da rainha?

Farodin reprimiu seus pensamentos e voltou a concentrar-se totalmente no feitiço. Sentiu alguns grãos no lodo do oceano e... Um arrepio o percorreu. Havia algo de estranho ali. A garrafa de prata tinha se mexido em sua mão. Havia algo que a puxava. Farodin ficou tão surpreso que perdeu o fio da meada e precisou desistir do feitiço. O que acontecera?

Ficou sentado por um bom tempo na praia, olhando para o mar. Qual poderia ter sido a causa daquele fenômeno esquisito? Talvez houvesse um lugar com mais grãos de areia reunidos que todos os que conseguira juntar ao longo dos anos? Será que não poderia se tratar da pedra onde Emerelle destruíra a ampulheta? Ou então será que havia mais alguém juntando os grãos de areia — alguém que estivesse se saindo melhor que ele? Haveria uma possibilidade de excluir essa suspeita? Talvez devesse tentar ligar a pintura de Nuramon ao feitiço de busca dos grãos de areia. Fechou os olhos mais uma vez e concentrou-se. Novamente sentiu uma puxada para o nordeste, até mais nítida que a anterior. Uma imagem formou-se em seus pensamentos. Ele viu a pedra onde Emerelle quebrara a ampulheta. E o que isso provava? Não podia ser que, apesar disso, ainda houvesse mais alguém juntando os grãos? Talvez estivesse nesse lugar esperando por eles.

Farodin afastou esses pensamentos. Podia estar ficando maluco aos poucos com aquela busca. Também havia uma explicação muito mais simples. Em que lugar poderia haver mais grãos de areia do que naquele em que Emerelle destruíra a ampulheta? Ele devia ter sentido o lugar onde ficava a passagem para a prisão de Noroelle no Mundo Partido. Decidiu não contar tudo a seus companheiros. Por que deveria atormentá-los com seus medos, que talvez fossem infundados? Ele desceu até o acampamento e relatou que, a partir de então, deviam velejar a nordeste, para o mar aberto.

Por mais valentes que fossem os mândridos, a inquietação tomou conta deles depois de três semanas sem ver a costa. Certa manhã, até Mandred, cuja coragem estava longe de ser questionada, revelou sua preocupação com o fato de poderem chegar à borda do mundo e despencar no nada se não mudassem de rota.

Foi Nuramon, com sua língua de seda, quem novamente dissipou a perturbação dos humanos. Eles confiavam nele. Era capaz de escolher as palavras tão habilmente que logo estavam até rindo com ele. Mas não conseguiu fazê-los esquecer de que a água em seus barris logo estaria tão viciada que seria um sacrifício beber dela. As demais provisões também já estavam no fim. Mas logo eles estariam no destino.

Farodin agora precisava segurar a garrafa de prata com força quando fazia o feitiço de busca, para que não fosse arrancada de sua mão. No 37º dia da viagem, avistaram terra firme. Tiveram de se aproximar da margem e perderam dois dias, pois já não era mais possível manter os mândridos a bordo do Estrela dos Albos. Procuraram água e saíram para caçar. Farodin também gostou de finalmente poder saborear de novo a água fresca da nascente. Porém, para ele era difícil manter a calma sabendo quão perto estavam de seu destino.

Quando os estoques estavam renovados e os mândridos, recuperados, Farodin os conduziu para o norte ao longo da costa. Os dias de aflição em alto-mar já estavam esquecidos. Quase reinava de novo entre os humanos a mesma atmosfera eufórica do começo da viagem com seu ilustre antepassado. Até os filhos de humanos pareciam sentir como estavam perto do alvo.

No 39º dia, a margem recuou bastante a leste. Chegaram a uma ampla baía. Vento fresco preenchia a vela e estavam em boa velocidade quando, de repente, Nuramon deu um grito agudo.

— As montanhas! Veja as montanhas!

Farodin também reconheceu uma das montanhas do quadro de Nuramon. Tudo parecia bater. As árvores que cresciam junto à margem, as cores das montanhas ao longe. Embora o navio estivesse rápido, os mândridos pularam sobre os bancos e remaram o quanto puderam para impulsioná-lo ainda mais.

Farodin e Mandred, nervosos, estavam de pé na proa. O vento fresco brincava com os cabelos longos de Farodin. Ele tinha lágrimas nos olhos e não se envergonhava delas.

— Está sentindo isso? — perguntou Nuramon, apontando para um pontal que avançava bastante da baía. — Aqui há muitas trilhas albas. Todas seguem para um único ponto, que deve ficar do outro lado da floresta.

Quando finalmente contornaram o pontal, Nuramon deu outro grito de alegria. Como se estivesse possuído, começou a dançar no convés do navio. Os mândridos riram e fizeram algumas piadas grosseiras. Eles não conseguiam imaginar o que aquele momento representava para os dois elfos, pensou Farodin. Ele não era capaz de extravasar sua alegria tão livremente quanto o seu camarada; sua alegria era muda, mas não por isso ele estava menos comovido. Diante deles havia uma pequena ilha coberta de floresta, com a margem rochosa. Era a ilha do quadro de Nuramon.

Os mândridos novamente assumiram os remos com toda a força. Como um grande pássaro aquático, o navio disparou sobre a água com sua grande vela azul. Mas então precisaram mudar de curso. Recifes cinzentos revolviam a água na frente deles. Já estavam a menos de cem passos de distância da margem, mas não havia um lugar seguro para atracar. Teriam de contornar a ponta norte da ilhota e procurar do outro lado por águas navegáveis.

Farodin olhou para Nuramon. O companheiro o compreendeu sem que precisassem trocar uma palavra e sorriu com ar maroto. Então lançaram-se ao mar. A água batia-lhes no peito. Meio nadando e meio patinhando, aproximaram-se da margem enquanto o navio seguiu para o norte para contornar a ilha.

Agora Farodin também sentia as linhas de força das trilhas albas que se encontravam em uma estrela. Deslocaram-se para o sul ao longo da ilha, para dentro da baixada inundada. Logo estavam no entroncamento das trilhas. Com a maré, ele ficava oculto sob a água, mas não era necessário vê-lo para sentir a sua força. Tudo ao redor estava de acordo com o quadro de Nuramon. Não havia dúvidas. Tinham encontrado o lugar de onde Emerelle banira sua amada para dentro do Mundo Partido.

Comovido por um estranho sentimento de felicidade, Farodin enlaçou seus companheiros com os braços. Sua busca tinha finalmente terminado! Agora tudo ficaria bem!

Um feitiço para a maré baixa

Era de manhã e Nuramon estava sentado na pedra em que a rainha um dia quebrara a ampulheta. Ali tinham encontrado muitos grãos de areia. Farodin contou então que tivera uma visão daquela pedra no quarto de vestir da rainha.