— Desculpe-me! Eu estava no fim das minhas forças! — disse ele por fim. — Essa dor! Foi isso o que você sentiu ontem?
— Sim — respondeu Nuramon. — A cada tentativa eu era tomado por essa dor.
— Eu não fazia ideia... Onde você aprendeu a suportá-la?
— Na Gruta de Luth.
Farodin fez uma cara admirada.
— Nosso feitiço não falhou por causa da dor — esclareceu Nuramon. — Nosso poder não basta para medirmos forças com a rainha. Sinto-me como uma fada das campinas querendo passar uma rasteira em um centauro. Estou oco e consumido. Você está quase do mesmo jeito, não é?
Farodin fez que sim com a cabeça e inspirou fundo.
Nuramon olhou para Mandred. O jarl e os firnstaynenses tinham caras preocupadas, mas, como prometido, não se mexeram do lugar.
— Tudo em ordem? — gritou Mandred para eles.
— Já passou! — respondeu Nuramon, rabugento.
A decepção no rosto de Mandred doeu em Nuramon. O filho de humanos sempre acreditou em suas habilidades mágicas e o via como um grande feiticeiro.
Mandred e os firnstaynenses retiraram-se para a floresta que cobria quase a ilha toda. Quando todos já tinham desaparecido, Nuramon dirigiu-se a Farodin.
— Precisamos conversar sobre como devemos continuar com isso.
Lado a lado, eles caminharam de volta para a margem e entraram na floresta, passando pela pedra. Ficaram muito tempo em silêncio. Nuramon lembrou-se das palavras do dschinn de Valemas. Combater a grande força com força maior ainda! Ainda não estavam nem perto de quebrar a barreira.
— Nós precisamos desistir por enquanto e fazer outro caminho — disse Nuramon.
— Vamos tentar de novo amanhã — respondeu Farodin.
— Eu estou dizendo: por enquanto, é impossível!
— Nós estamos tão perto da meta! Não podemos agora...
Nuramon interrompeu o companheiro.
— É impossível! — repetiu ele. — Quantas vezes você já me ouviu dizer isso?
Farodin ficou perplexo.
— Nenhuma...
— Então acredite em mim. Nós ainda não estamos à altura dessa força. Só há uma esperança: uma pedra dos albos!
Farodin ergueu sua garrafinha.
— Aqui estão os muitos grãos de areia que encontramos. Agora vai ser fácil para mim encontrar mais. Então poderemos tentar mais uma vez.
— Eu não consigo acreditar que você ainda não tenha desistido disso, Farodin. A força dos grãos de areia é pequena demais, ela não está conectada. Se nós pelo menos tivéssemos a ampulheta!
— Eu estive verificando isso, mas aqui não há nenhum rastro. Não há simplesmente nada.
— Os grãos de areia fizeram o seu papel. Eles nos trouxeram até aqui e no fim talvez nos sirvam mais uma vez... Imagine que, no Mundo Partido, Noroelle deve estar caminhando entre as árvores exatamente como nós, pensando em nós e talvez em Obilee. Eu queria que só esse pensamento já pudesse me dar as forças de que precisamos. É claro que podemos nos superar, mas tudo tem limites; e eu sinto que ainda nos falta muito poder para conseguir.
— Mas como vamos obter uma pedra dos albos? Além da rainha, não conheço nenhum filho de albos que tenha uma pedra como essa. E Emerelle jamais nos daria a dela. — Ele hesitou. — Mas talvez alguém pudesse roubá-la?
Nuramon apoiou as costas em uma árvore.
— Não vamos nos rebaixar! Deve haver outras.
— Mesmo que haja, não conseguiríamos encontrá-las, pois ninguém vai indicar o caminho para nós. Quem tiver uma a manterá escondida. Mesmo supondo que encontremos uma: você saberia usá-la?
— Não. Mas há um lugar onde podemos aprender isso. E talvez lá também encontremos a pista para uma pedra dos albos.
— Iskendria! — respondeu Farodin.
Nuramon concordou com a cabeça:
— Sim, Iskendria.
Eles chegaram ao outro lado da ilha, onde haviam assentado o acampamento.
Mandred aproximou-se ansioso de Nuramon e Farodin.
— E agora, como vai continuar? — perguntou ele.
— Nós falhamos e vamos continuar falhando, não importa quantas vezes tentemos — respondeu Farodin. — Vamos retornar quando estivermos mais fortes.
— Nós vamos procurar uma pedra dos albos e juntar todos os grãos de areia que pudermos encontrar. Só então teremos chance de êxito aqui.
Mandred concordou com um gesto de cabeça. O seu desapontamento pareceu ceder.
— É tolo lutar uma batalha que não se pode ganhar. A guerra é ganha por quem vence a última batalha. E a nossa última batalha ainda está longe. — Voltando-se para a tripulação, comandou: — Levantar acampamento!
Enquanto os homens se punham ao trabalho, os três companheiros dirigiram-se ao navio. Mandred quebrou o silêncio:
— Aqui há trilhas de albos. Nós poderíamos chegar a Firnstayn por uma delas?
— Para corrermos o risco de dar mais um salto no tempo? — retrucou Farodin. — Nós já nos conformamos com isso, mas e quanto aos homens? Vamos amaldiçoar a nós mesmos se eles voltarem para casa e seus filhos já forem anciãos... Você não quer isso, não é?
— Claro que não. Eu só perguntei se era possível.
— O Carvalho dos Faunos nos disse que um dia poderíamos viajar através das estrelas albas de um mesmo mundo. Mas acho que ainda não chegamos tão longe.
Nuramon se intrometeu.
— Sim, nós chegamos, Farodin. Eu tentei o feitiço durante minha busca pelo oráculo quando viajei por Angnos. Em algum momento, simplesmente me atrevi a tentar e deu certo. No fundo, é bem simples. Só é preciso conhecer exatamente a trilha. Eu usei o feitiço que o Carvalho dos Faunos nos ensinou. Em vez de escolher uma trilha para dentro de outro mundo, você toma uma que não deixe o mundo em que está.
— Como você não me disse isso? — perguntou Farodin.
Nuramon não conteve um sorriso. Tinha na ponta da língua as palavras para lembrar seu companheiro quantas vezes ele ocultara deles o que sabia.
— Perto de tudo o que aconteceu, isso me pareceu secundário. Mas Mandred mais uma vez fez a pergunta certa. — Nuramon viu o orgulho no rosto do jarl. — A viagem que deixamos para trás foi uma viagem de caminhos largos. A que temos diante de nós é de outro tipo. — Ele apontou para a trilha dos albos. — Nós esbarramos muito cedo nessa trilha. Se não estou enganado, ela atravessa o sul das terras do fiorde. Agora ela não vai nos ajudar, porque não sabemos a qual estrela dos albos ela leva. Mas pode ser que nos sirva para voltarmos para cá, já que a barreira bloqueia somente a trilha de Noroelle.
— Você quer dizer que, de agora em diante, devemos pular de uma estrela alba para a outra?
— Assim podemos chegar rápido a Iskendria e evitar humanos e viagens longas por regiões desagradáveis — disse, lembrando-se do deserto.
Farodin sorriu.
— Então você quer viajar como os albos.
— Foi isso o que o Carvalho dos Faunos sugeriu — respondeu Nuramon.
— O que você diz a respeito, Mandred? — perguntou Farodin.
O jarl deu um sorriso largo.
— Você está me perguntando se quero viajar só alguns instantes em vez de meses? E o que mais eu poderia responder além de sim, droga?
Farodin concordou.
— Então vamos voltar para Firnstayn e, a partir dali, caminhar firmemente sobre as pegadas dos albos.
A crônica de Firnstayn
No quinto dia do quarto mês do terceiro ano do reinado de Neltor, o Estrela dos Albos retornou a Firnstayn. Mandred, Nuramon, Farodin e os mândridos chegaram sãos e salvos. Foi um dia de alegria, celebrado com uma grande festa. Tharhild pôs seu filho diante de Mandred, que reconheceu a criança como sua. O rei Neltor até ofereceu transmitir sua coroa ao jarl se ele assim desejasse. Mas o jarl recusou, dizendo que o reino precisava de um soberano constante, que cuidasse de tudo no próprio local, uma vez que o seu destino seria vaguear sem descanso e, por isso mesmo, raramente demorar-se em Firnstayn. Quando ele segurou a criança nos braços, em seus olhos refletiu-se a tristeza, como se soubesse que jamais a veria novamente. E a partir de então ele a evitou.