Mandred e seus companheiros permaneceram dez dias na cidade, enquanto preparavam-se para mais uma grande viagem. Os mândridos, que haviam acompanhado os três companheiros, contaram sobre uma terra no leste distante, sobre a feitiçaria dos dois elfos e a sabedoria de Mandred. Não havia sido uma viagem de lutas, mas de magia.
Quando Mandred, Nuramon e Farodin então partiram, presumimos que o jarl não voltaria durante o nosso tempo de vida. Nos dias que se seguiram, a melancolia reinou em Firnstayn. Mas o rei assegurou que sempre poderiam recorrer a Mandred se grandes perigos os ameaçassem. E, desde aquele dia, esperamos pelo retorno do poderoso jarl de Firnstayn. Alguns de nós também o temem, pois, se ele retornar, é certo que terá despontado no horizonte um tempo de urgências.
Tomo III
As Pedras dos Albos
Novos caminhos
Farodin alisou a nuca de seu cavalo para acalmá-lo. O animal estava tão inquieto quanto ele. Desconfiado, o elfo olhou para dentro da escuridão. Nuramon descrevera precisamente a ele e a Mandred o que os esperaria. Mas Farodin não estava contando que isso teria tanto efeito sobre os seus nervos.
Tudo estava sinistramente calmo. O tempo todo ele tinha a sensação de que algo lá fora estava à espreita. Mas o que seria capaz de sobreviver no nada?
Com cautela, ele prestava atenção para não sair da trilha estreita de luz pulsante que cortava a escuridão sem fim. Era impossível dizer o que o aguardava além da trilha. Seria o caminho algo como uma ponte estreita sobre um abismo?
Depois de poucos passos, eles chegaram a um ponto onde quatro trilhas de luz se entrecortavam. Uma estrela alba. Nuramon, que ia à frente, deteve-se por um momento. Então desviou para um caminho de luz avermelhado e fez um sinal para o seguirem.
Farodin e Mandred entreolharam-se, aflitos. Não havia possibilidade de se orientar ali. Era necessário conhecer a trama de trilhas iluminadas, ou então estariam perdidos, sem qualquer esperança de voltar.
Novamente deram poucos passos, mas que no mundo dos humanos poderiam ser centenas de milhas. Na estrela alba seguinte, cruzavam-se seis trilhas. Uma sétima cortava verticalmente a estrela de caminhos. Nuramon pareceu inquieto.
Farodin olhou ao seu redor. Ali flutuavam finos véus de névoa na escuridão. Teria ouvido um barulho? Um som raspante como o de garras? Bobagem!
De repente, um arco de luz formou-se à sua frente. Nuramon conduziu seu cavalo através dele. Farodin sinalizou a Mandred que fosse antes dele. Depois que o jarl desapareceu, o guerreiro elfo também deixou as estranhas trilhas entre os mundos.
Estavam novamente sob uma ampla abóboda. O chão era guarnecido de um mosaico colorido, que mostrava um sol se levantando e sete grous que voavam para longe do sol em diferentes direções do céu. Nas paredes ao redor viam-se imagens de um banquete de centauros, faunos, elfos, anões e outros filhos de albos. Mas os rostos das figuras estavam arranhados ou borrados de ferrugem. Velas queimadas tinham deixado poças rasas de cera.
A mão de Farodin tateou em busca da espada. Ele conhecia aquele lugar. Ficava embaixo da mansão de Sem-la, a elfa que, disfarçada de viúva de um comerciante, vigiava a única grande estrela que levava de Iskendria à biblioteca dos filhos de albos.
— O que está acontecendo? — perguntou Farodin. — Por que você não nos levou diretamente à biblioteca? Lá também poderíamos ter abrigado os cavalos no alojamento dos centauros.
Nuramon parecia perturbado.
— O portal. Ele está diferente. Nele há uma… — E hesitando um pouco: — Uma barreira.
Farodin expirou devagar.
— Uma barreira? Está de brincadeira?
— Não. Mas esse feitiço de proteção não é como o da ilha de Noroelle. Ele é... — Encolhendo os ombros desamparado: — Diferente.
Mandred grunhiu.
— Aqui tem algo de diferente. Apontou para os símbolos no chão. — Parecem bruxarias ruins. O que pode ter acontecido neste lugar?
— Não temos de nos preocupar com isso — retrucou Farodin, áspero. — Você consegue abrir o portal, Nuramon?
— Acho que sim.
Uma batida soou.
Antes que Farodin pudesse detê-lo, Mandred puxou seu machado e subiu com três grandes passos a rampa que levava para fora da cobertura abobadada.
— Maldito cabeça-quente! — praguejou Farodin. E, voltando-se para Nuramon: — Veja se consegue abrir o portal! Vou buscá-lo de volta.
Farodin subiu a rampa caminhando. Seguiu por várias pequenas salas subterrâneas, até de repente ouvir um grito ressoar.
Foi junto aos porões de estoque que encontrou Mandred. Ele agarrara um homem franzino de barba por fazer que vinha pela esquina. No chão havia um lampião a óleo de chama trêmula. Cacos de ânforas de vidro grosso jaziam por toda parte. Ao lado do lampião havia uma pequena tigela com lentilhas. O homem gemia, tentando se soltar de Mandred, mas era indefeso diante da força do guerreiro do norte.
— Um saqueador — esclareceu Mandred com desprezo. — Ele estava prestes a roubar Sem-la. Eu o apanhei bem na hora em que quebrava uma das ânforas.
— Por favor, não me matem — suplicou o prisioneiro de Mandred em valético, a língua falada na costa de Iskendria a Terakis. — Meus filhos estão morrendo de fome. Não quero nada disso para mim.
— Ora, ele está implorando misericórdia? — perguntou Mandred, que claramente não entendera sequer uma palavra.
— Olhe você mesmo para ele! — retrucou Farodin, colérico. — As faces encovadas. As pernas magricelas. Ele me disse que seus filhos estão passando fome.
Mandred pigarreou baixo e soltou seu prisioneiro.
— O que está acontecendo na cidade? — perguntou Farodin.
O homem olhou-os surpreso, mas não ousou perguntar por que estavam tão desinformados.
— Os sacerdotes brancos querem acabar com Balbar. Estão sitiando a cidade há mais de três anos. Eles vieram pelo mar para matar o nosso Deus. Desde que o portão a oeste caiu, há três luas, eles avançam de bairro em bairro. Mas os guardas do templo sempre os fazem recuar com o fogo sagrado de Balbar.
— Tjured? — perguntou Farodin, admirado.
— Um bastardo miserável! Seus sacerdotes dizem que só existe um deus. Segundo eles, também teríamos feito negócios com filhos de demônios. Eles são totalmente loucos! Tão loucos que simplesmente não entendem que não conseguirão vencer.
— Mas você está dizendo que eles já tomaram algumas partes da cidade — retrucou Farodin, direto ao ponto.
— Partes. — Foi a ressalva do homem esguio. — Ninguém consegue tomar Iskendria totalmente. O fogo de Balbar já incendiou a esquadra deles duas vezes. Estão morrendo aos milhares. — De súbito, começou a soluçar. — Desde que eles tomaram o porto, não recebemos mais provisões. Já nem há mais ratos para comer. Se ao menos esses malditos cavaleiros-sacerdotes reconhecessem que não se pode conquistar Iskendria... Balbar é forte demais. Agora estamos fazendo sacrifícios para ele dez vezes por dia. Ele afogará os inimigos em seu próprio sangue!
Farodin lembrou-se da menina que daquela vez foi queimada na palma da mão do deus. Dez crianças por dia! Que tipo de cidade é essa? Ele não lamentaria se Iskendria perecesse.
— Vocês são amigos da senhora Al-beles? — O humano olhou na direção do estoque de ânforas. — Eu fiz isso pelos meus filhos. Sempre sobram algumas ervilhas ou feijões no fundo das ânforas grandes. Elas nunca ficam totalmente vazias. — E baixando o olhar: — A não ser que sejam quebradas.
Farodin ouviu dizer que Sem-la já mudara de papel várias vezes, e também se passara por sua própria sobrinha para poder continuar à frente da casa. Como uma elfa que jamais envelhecia, mais ou menos de vinte em vinte anos ela era obrigada a assumir disfarces como esses. Farodin não tinha dúvidas de que essa tal Al-beles era a mesma elfa que ele conhecera como Sem-la.