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— O que aconteceu no porão abobadado? — perguntou Farodin.

— Quando o bairro foi invadido, alguns monges vieram para cá. Acho que também estavam no porão. Dizem que estavam procurando demônios. Eles são loucos!

— Vamos indo, Mandred — disse Farodin em fiordlandês. — Precisamos saber se há risco de sermos perturbados ou se Nuramon conseguirá fazer seu feitiço em paz.

— Sinto muito pelos seus filhos — replicou Mandred com pesar. — Ele puxou uma de suas largas pulseiras de prata e deu-a de presente ao homem. — Eu me precipitei.

Farodin não sentia compaixão pelo saqueador. Hoje ele se preocupava com seus filhos de forma altruísta. Mas provavelmente se sentiria honrado quando amanhã os sacerdotes exigissem uma de suas filhas para queimá-la em praça pública.

O elfo subiu a escada apressado e adentrou o amplo pátio da mansão. Sobre ele se estendia um céu estrelado vermelho-sangue. O ar estava repleto de fumaça sufocante. Eles atravessaram o salão principal e se apressaram para o terraço na parte traseira da casa. A mansão ficava sobre uma colina baixa, de forma que tinham uma boa vista da cidade.

— Por Deus! — gritou Mandred. — Que incêndio é esse!

O porto estava inteiro em chamas. Até mesmo a água parecia queimar. Todos os grandes armazéns ao redor haviam desabado e as enormes gruas de madeira, desaparecido. Algo bem distante a oeste atirava bolas brancas de fogo sobre um dos subúrbios da cidade. Farodin observou guerreiros vestidos de branco avançando em grupos densos pelas ruas estreitas, tentando desesperadamente desviar dos tiros de fogo.

— É preciso queimar a carne que apodreceu. — A voz do saqueador soou atrás deles. O homem magro saiu para o terraço. Seus olhos brilhavam febris. — Os guardas do templo estão queimando os bairros que foram perdidos. — Acrescentou, rindo: — Iskendria não pode ser tomada! Os sacerdotes de branco morrerão todos. — Apontou para o porto lá embaixo: — A esquadra deles já está em chamas há dois dias. Os guardas do templo conduziram o fogo de Balbar pelos canais até chegar à água do porto, e então o acenderam. Todos esses sacerdotes queimarão, assim como o seu maldito... — Interrompeu a frase no meio e apontou para a rua que conduzia para cima, de onde vinham as esferas: — Eles estão voltando.

Um grupo de guerreiros trajando sobrevestes brancas de guerra escoltava vários monges de hábitos azul-marinho. Cantando solenemente, eles se dirigiam diretamente à mansão.

— Vocês foram bons comigo — disse o homem, apressado. — Por isso aconselho que sumam rápido. Vocês têm uma aparência estranha, e aqueles ali matam todos que parecem estranhos.

— O que o sujeito está dizendo?

— Que não devemos esperar muito da hospitalidade da cidade. Venha, vamos voltar até Nuramon.

O jarl alisou a lâmina do machado.

— Aqueles poucos homens ali embaixo não o estão deixando com medo, estão?

— Se dois exércitos claramente comandados por loucos vão se aniquilar, então eu vou fazer o que puder para não estar no caminho, Mandred. Nós não temos nada a ver com a guerra deles. Vamos tratar de ir embora daqui!

O guerreiro murmurou algo incompreensível por entre a barba e deixou o terraço. Nuramon já os esperava no porão abobadado. Um arco dourado de luz subia para o ar no meio do mosaico. O elfo sorriu.

— Não foi difícil quebrar a barreira. O feitiço de proteção tinha uma estrutura estranha. Como se não tivesse sido criado para manter filhos de albos longe dele.

Farodin agarrou as rédeas de seu garanhão sem prestar mais atenção nas explicações do companheiro.

O sorriso de Nuramon desapareceu.

— Há algo de errado?

— Nós só precisamos partir rápido.

Decidido, Farodin rumou para dentro da luz. Ficou ofuscado por um instante, piscou algumas vezes e, assim que recuperou a visão, deu de cara com uma besta engatilhada.

— Não atirem! — soou uma voz rouca. — São elfos!

— Liuvar! — gritou alguém diferente.

Farodin abaixou-se por reflexo e agarrou a espada. A estrela alba estava cercada de vultos estranhos: dois guardiões do saber com seus hábitos vermelhos, segurando espadas em riste; alguns gnomos com bestas e um centauro branco, que Farodin reconheceu ser Chiron. O gallabaal de pedra também estava entre os peculiares vigilantes.

Nuramon e Mandred vieram pelo portal com seus cavalos.

Com um rangido, o gallabaal deu um passo em direção ao filho de humanos. Um dos gnomos mirou o largo peito de Mandred com sua besta.

— Liuvar! Paz! — gritou o centauro. — Eu conheço os três. O humano é um inútil presunçoso, mas eles não são inimigos.

— O que está acontecendo aqui? — quis saber Nuramon.

— Suponho que vocês possam responder melhor a essa pergunta — retrucou Chiron com ar de desprezo. — O que está acontecendo no mundo dos humanos?

Farodin contou rapidamente sobre o encontro com o saqueador e a cidade em chamas. Quando terminou, os vigilantes entreolharam-se, desnorteados.

Chiron pigarreou baixo.

— Vocês devem ter dado um salto no tempo quando atravessaram o portal. Há mais de cem anos Iskendria não é nada além de ruínas. — Ele fez uma pausa para dar chance de os três compreenderem o que ouviram e então prosseguiu com sua explicação: — Os monges de Tjured ainda não desistiram da sua intenção de quebrar a barreira para a biblioteca. Eles continuam ocupando a estrela alba e lá ergueram uma das suas torres de templos. Assim eles impedem que os filhos de albos cheguem até nós por esse caminho. Vocês são os primeiros visitantes aqui em anos. — Curvou-se numa saudação formal e disse, por fim: — Eu lhes dou as boas-vindas em nome dos guardiões do saber.

— Mas eles realmente representam algum perigo? — perguntou Nuramon.

A cauda de Chiron encolheu-se, inquieta.

— Sim, representam. O ódio cego por todos os filhos de albos é o que os impele. A pergunta não é se eles chegarão até aqui, ao nosso refúgio no Mundo Partido, mas quando chegarão. Nenhum de nós está enganando a si próprio no que diz respeito a esse perigo. — Falava repleto de amargura, e então abriu os braços num gesto patético: — A biblioteca agonizante está à disposição de vocês. Até para você, filho de humanos. Sejam bem-vindos!

A opala de fogo

Nuramon entrou na sala em que o gnomo Builax o recebera havia mais de cinquenta anos — conforme sua noção de tempo. Mas, por causa de seus conhecimentos insuficientes, ao entrar na biblioteca eles saltaram ao menos cem anos, provavelmente até mais; então o encontro com o gnomo havia sido há ainda mais tempo. Todas as estantes e livros ainda estavam lá, e das pedras de barin emanava a mesma luz branda. Só Builax não era visto em lugar nenhum. No nicho entre as paredes de estantes onde o gnomo daquela vez guardara a sua espada Nuramon encontrou livros, materiais de escrita e até mesmo uma pequena faca. Mas a poeira sobre eles mostrava que ninguém estivera ali havia muito tempo.

Um pote virado de tinta atraiu em especial os olhos do elfo. A tinta havia se espalhado sobre a mesa e estava seca há muito tempo. Tudo ali dava a impressão de que Builax pegara somente o mais importante, simplesmente deixando o restante para trás. Teria o gnomo precisado fugir?

Nuramon foi até a 23ª estante e escalou as escadas. Ao alcançar a que procurava, retornou o sentimento que se apoderara dele da primeira vez que esteve ali. Na época, estava seguindo a pista de Yulivee, como se ela fosse sua confidente, assim como Noroelle era a confidente de Obilee.

Ele apanhou o livro e pôs-se novamente a descer. Enquanto percorria os degraus, refletia sobre os últimos acontecimentos. O ataque à estrela dos albos o inquietava. Conseguiriam os sacerdotes de Tjured avançar até mesmo para dentro da biblioteca? Até então parecia que não, mas os seus ataques contra a estrela dos albos estavam causando danos também ali, no Mundo Partido.