Mais uma vez, Nuramon deixou o olhar vaguear pela sala. Era lamentável que nem Builax nem Reilif estivessem ali. E, agora, quem mostraria o caminho aos ávidos pelo saber? Talvez Reilif pudesse ser encontrado em algum outro lugar da biblioteca. Se não havia mais ninguém ali que pudesse dar informações sobre os livros, a enorme biblioteca era quase inútil para os visitantes.
Nuramon deixou o salão e meditou sobre onde deveria iniciar sua pesquisa sobre as pedras dos albos. Farodin louvara a sua intuição e lhe propusera que buscasse as anotações por conta própria, enquanto ele próprio falava com os guardiões do saber.
Nuramon entrou em uma das salas e deixou o livro de Yulivee sobre uma mesa. Nas paredes, nas divisões em formato de losango das estantes, havia pergaminhos empilhados. Pegou um deles e o abriu. Mal lera as primeiras linhas, suspirou. Era uma árvore genealógica de centauros.
Ele foi até outra estante e apanhou outro rolo. O texto tratava dos feitos heroicos de um humano que defendera um portal para a Terra dos Albos com todas as forças. Não mencionava detalhes sobre os portais. Presumiu estar na pista certa. Cada cultura tinha os seus mitos e a sua própria concepção sobre o início dos mundos. Essas eram as histórias nas quais ele deveria descobrir indicações ocultas.
Após horas de busca, encontrara uma única pista. Em uma crônica, constava que Emerelle teria usado a sua pedra alba para criar um importante portal marítimo entre o mundo dos homens e Dailos, na Terra dos Albos. Dizia: Oh, se os antigos não tivessem partido, nós teríamos podido criar nossos próprios portais! Tudo que lia indicava que a rainha possuía a única pedra de albos que existia.
— Assim você nunca a encontrará — disse uma voz familiar. — O tempo é curto...
Nuramon deu meia-volta. Em pé, junto à porta, estava um vulto vestindo um casaco negro; seu capuz cobria a testa somente até a metade.
— Mestre Reilif! — gritou Nuramon.
— Sim, sou eu. E estou desapontado por você estar buscando conhecimento à maneira dos elfos.
Nuramon pôs o pergaminho que acabara de ler de volta na estante.
— É tão estranho assim um elfo agir dessa maneira? Mas você tem razão. Eu deveria pensar no meu companheiro humano e encurtar a busca.
— Não é o que quero dizer. Mas você deve saber que o fim deste lugar está próximo.
Incrédulo, Nuramon encarou o guardião do saber. Até então, o perigo não lhe parecera tão grande.
— Os humanos destruirão os portais sem saber o que estão fazendo?
— O que os humanos sabem e com qual intenção eles estão agindo não cabe a mim prever. Só posso dizer que falta pouco para que esta biblioteca esteja perdida. Mas também qual sentido teria abrigar conhecimento, quando se está preso junto a ele e ninguém mais consegue chegar aqui?
— Nenhum — disse Nuramon em voz baixa.
— Então, para que ao menos você tenha algo de toda a sabedoria que este lugar abriga, eu o ajudarei. — Reilif sorriu solícito.
— Você já falou com Farodin?
— Não, Gengalos e os outros guardiões estão com ele. Eu só queria falar com você. — Reilif olhou para a mesa. — Estou vendo que você pegou o livro de Yulivee.
— Eu gostaria de lê-lo mais uma vez — disse Nuramon, e suas palavras soaram como um pedido de desculpas.
— Faz bem. Pode ficar com o livro.
— Como? Pensei...
— O conhecimento desta biblioteca desaparecerá, mesmo que os outros não vejam isso com tanta clareza quanto eu. Se este lugar perecerá, então ao menos um pouco do conhecimento destas salas deve ser salvo. Além disso, os livros não têm valor para mim e para os outros. Eu já os li. Agora são uma parte de mim.
— Por que vocês não abandonam este local e erguem uma nova biblioteca em algum outro lugar? — perguntou Nuramon, pensando na Terra dos Albos, onde os guardiões do saber certamente seriam recebidos de braços abertos.
— Nós fizemos o juramento de não deixar estas salas antes de todo o conhecimento reunido aqui ter sido por nós absorvido. Até agora, pensávamos que isso jamais aconteceria e que este lugar permaneceria para sempre como uma fonte borbulhante de sabedoria. Mas a fonte secou, pois nada de novo chega até nós. E como é assim, chegará o dia em que teremos em nós todos os tesouros destas salas. Então poderemos ir embora. Infelizmente somos muito lentos. Somente um de nós, que admitimos por necessidade, consegue ler mais rápido que todos. Caso consigamos adquirir o conhecimento desta biblioteca antes de o fim chegar, nós a deixaremos e retornaremos para a Terra dos Albos.
— Quanto tempo isso vai demorar?
— Pelo menos cem anos. Por todos os albos! Cem anos! Houve o tempo em que ambos de nós zombaríamos de um período curto assim. O que são cem anos? Temo, porém, que os humanos consigam chegar antes e arruinar tudo.
Nuramon conseguia entender o guardião. Se um juramento os atava, então precisavam correr o risco de, uma vez quebradas as conexões com o mundo dos humanos, viver ali enclausurados. Mas talvez fosse mais esperto quebrar o juramento para salvar ao menos uma parte daquele conhecimento incalculável. Emerelle certamente não os desprezaria se fossem até ela.
— Vamos andar um pouco — disse Reilif, saindo para o corredor.
Nuramon apanhou o livro de Yulivee da mesa e seguiu o guardião do saber.
— Você pode me ajudar a descobrir algo sobre as pedras dos albos?
Reilif riu baixinho.
— Na sua pergunta já se esconde uma hipótese forte: pode haver ainda mais pedras dos albos além da que Emerelle possui.
— E pode?
Reilif concordou dentro de seu capuz.
— Mas ninguém sabe onde elas estão, e eu tampouco sei onde é possível encontrar uma.
Nuramon ficou desapontado. Esperara mais de Reilif. Será que em todos os livros que ele lera realmente não havia nada sobre onde encontrar uma pedra alba?
— Não fique assim cabisbaixo ainda! De fato, eu não sei dizer onde encontrar uma delas, mas posso esclarecer sobre a sua utilidade. Ouça bem! Se você tiver uma pedra como essa, ela vai permitir passar de uma ponta de um mundo até outra. Com isso, você cria trilhas albas onde não havia nenhuma. Portanto, pode criar ou destruir estrelas albas e, por conseguinte, abrir e fechar portais. Em mãos erradas, pode ser um grande mal.
— Com elas também é possível quebrar barreiras mágicas?
— Claro.
Essa era a resposta que Nuramon esperava ouvir. Queria apenas usar uma pedra como essa para libertar sua amada.
Eles deixaram o corredor e começaram a subir uma escada. O guardião do conhecimento continuou:
— Aquele que quiser usar uma pedra alba precisa conhecer magia. Quanto mais quiser alcançar, mais difícil será dominar a força da pedra.
— Mas tem de ser possível encontrar a pista para uma pedra poderosa como essa! Sua força deve ofuscar tudo à sua volta — objetou Nuramon.
Pensou no castelo da rainha. Lá não se sentia nenhum rastro da pedra alba. Talvez Emerelle a tivesse envolvido com um feitiço para esconder a aura do seu poder.
— Você está enganado. Mal se percebe a força da pedra. Com certeza você a sentiria se eu a segurasse nas mãos aqui ao seu lado, mas, apesar da sua grandeza, você a perceberia somente como algo insignificante.
— Qual é a aparência dela?
Reilif calou-se e conduziu-o para dentro de um pequeno cômodo que começava na escada. Ali as pedras de barin brilhavam em um tom frio de verde. Havia armários até o teto. O guardião do conhecimento abriu um deles, tirou um grande volume e fez força para erguê-lo e colocá-lo no púlpito que havia no meio da sala. O livro estava fechado por duas fivelas, que Reilif abriu.
— Neste livro há a ilustração de uma pedra alba. Não é a de Emerelle e o seu portador já sucedeu os albos há muito tempo.