O capuz de Reilif escorregou sobre os olhos. Com um movimento rápido de mão, ele o jogou totalmente para trás, e Nuramon ficou surpreso ao ver orelhas de elfo despontando no meio do cabelo grisalho. Achara inesperado o velho elfo mostrar sua cabeça. Reilif pareceu não perceber sua admiração e buscou a página desejada.
A imagem da pedra ocupava uma folha inteira. Parecia lisa e de coloração cinza-escura. Cinco sulcos brancos atravessavam sua superfície. O desenho era simples, certamente nenhuma obra de mestre. Mas era suficiente para transmitir uma impressão da pedra.
Nuramon apontou para as cavidades na imagem.
— Que linhas são essas? — perguntou ele.
Reilif passou os dedos sobre o sulco da esquerda.
— Este é o mundo dos humanos. Ao seu lado há o mundo que agora está quebrado, que é onde estamos. A seguir vem a Terra dos Albos e, depois, o lar deles. — E tateando sobre a linha bem à direita: — E, por fim, isto é o que os elfos chamam de luar.
Nuramon admirou-se.
— Eu não posso acreditar.
— No que você não pode acreditar?
— Que os mundos que eu conheço simplesmente ficam assim, ao lado do lar dos albos e do luar.
— Não se deixe confundir por isso, Nuramon. Dizem que cada pedra alba é única. Cada uma delas deve contribuir para uma nova compreensão do mundo. Quanto à pedra de Emerelle, dizem que nela os sulcos ficam um sobre o outro.
— A quem esta pedra pertence? — perguntou Nuramon.
— A um dragão chamado Cheliach. Não sabemos muito sobre ele, somente que veio bem depois dos albos, quando os dragões perderam sua importância.
Nuramon ficou satisfeito. Era o começo com que estava contando.
— Agradeço por ter me mostrado essa imagem.
Reilif fechou o livro.
— Você poderá encontrar este volume aqui, caso queira mostrá-lo a seus companheiros. Vou deixá-lo sobre a mesa. Mas, para começar, você deve ver uma pessoa que o conhece e certamente vai gostar de revê-lo.
— E quem seria ela? — perguntou Nuramon, surpreso.
Mestre Reilif sorriu com vontade.
— O nome eu não posso dizer. Eu prometi. — E, apontando para a escada: — Siga os degraus até bem lá em cima! Em uma das salas nuas você encontrará esse alguém. — Os olhos cinzentos do velho elfo brilharam à luz das pedras de barin.
Hesitante, Nuramon deixou a sala. Subiu a escada respirando fundo. Parecia que o guardião do conhecimento havia lançado um feitiço sobre ele, tamanho o encanto que seus olhos exerceram. Qual poderia ser a história daquele elfo? Ele não se atreveria a perguntar. Além disso, no momento havia outra coisa ocupando seus pensamentos. Quem estaria esperando por ele lá em cima?
Quando chegou ao fim da escada, seguiu por um corredor amplo do qual saíam salas menores. Estavam vazias; lá não havia nem livros, nem estantes. Estava claro que o conhecimento da biblioteca ainda não havia crescido até aquele patamar e, pelas palavras de Reilif, isso nunca chegaria a acontecer. Surpreendeu-se ainda mais ao ver, em um corredor lateral, livros empilhados junto à parede, à esquerda e à direita.
Uma voz fraca ressoou pelo corredor. Nuramon a seguiu, espreitou pela abertura da porta e mal pôde acreditar em quem viu: em uma sala circular e de paredes nuas, sobre um trono de livros, estava sentado o dschinn. Estava tirando naquele instante um volume de uma pilha minuciosamente organizada à sua esquerda; lançou um olhar sobre suas páginas e jogou-o de forma desatenta sobre um monte à direita. O dschinn tinha cabelos brancos e vestia uma túnica da mesma cor, que o fazia parecer muito mais respeitável do que quando o encontrara em Valemas.
Mal adentrou a sala, o dschinn ergueu a cabeça:
— Ah, é você, Nuramon — disse ele, como se tivessem se visto havia pouco. Montou rapidamente uma pequena pilha com os livros espalhados ao redor, e apontou para ela. — Sente-se!
Assim que Nuramon se instalou, o dschinn lhe perguntou:
— Você seguiu o meu conselho daquela vez?
— Sim, e quero agradecer muito por ele. Foi de um valor inestimável.
Nuramon contou que, na época, seguiu a pista de Yulivee na biblioteca. E narrou sobre os anões e sobre Dareen.
— Estou vendo que você tem certa fixação por Yulivee. — O dschinn apontou para o livro que descansava sobre os joelhos de Nuramon.
— Reilif me deu. Talvez deva levá-lo a Valemas, para os libertos. Seu ódio por Emerelle certamente seria um pouco suavizado por estes escritos.
O dschinn fez uma cara aflita.
— Seria inútil levar o livro a Valemas. O oásis foi destruído.
— O quê? — perguntou Nuramon, comovido. — Como isso pôde acontecer?
— Os cavaleiros brancos do norte, que cavalgam sob o estandarte de Tjured, aniquilaram os libertos.
— Como isso é possível? Como guerreiros humanos podem se mover tão fundo deserto adentro e derrotar guerreiros como os libertos de Valemas?
— Com magia. Alguns dos humanos aprenderam a arte do feitiço. Eles se uniram sob o estandarte de Tjured. São eles os comandantes, e sentem o poder das trilhas albas. Eles encontraram o anel de pedras no deserto e, como lá não havia nenhuma barreira protetora, conseguiram abrir o portal e a luta começou. Fugi, e quando retornei não encontrei nada além de ruínas e mortos. Não pouparam nem as crianças.
— Isso é inconcebível! Esses loucos destruirão tudo. — Nuramon hesitou: — Eles chegaram a atacar também a Terra dos Albos?
— Não se preocupe. Eu saí em nome dos libertos de Valemas para observar os humanos. Eu os vi se reunindo ao redor de uma estrela que levava à Terra dos Albos. Ali os sacerdotes rezaram e perguntaram ao seu deus se naquele lugar encontrariam a prosperidade. Então disseram palavras que não compreendi. Certamente era um feitiço. Percebi algo bater contra a estrela dos albos; ao mesmo tempo, os guerreiros sacaram suas espadas. Como nada aconteceu, foram embora. Eu vi as pegadas que eles deixaram. Com aquele feitiço, jamais chegariam à Terra dos Albos. Encontrei as mesmas pegadas após a destruição de Valemas, junto ao anel de pedras. Pelo visto, pelo menos por enquanto, os sacerdotes só conseguem abrir portais para o Mundo Partido.
— E por que eles pouparam a biblioteca até agora?
— Não pouparam. Já faz um tempo que eles estão tentando entrar aqui. Os guardiões do saber dizem que os humanos estão desnorteados porque por Iskendria passam muitas trilhas albas. Além disso, eles teriam dificuldades para quebrar os feitiços de proteção dos portais. Mas Reilif acha que, lentamente, os humanos estão derrubando as barreiras. A cada dia eles avançam consideravelmente. Então não resta muito mais tempo para absorver o conhecimento deste lugar e desaparecer daqui.
— É você que consegue adquirir o conhecimento tão rápido?
— Certamente.
— O que eles fizeram para persuadi-lo?
O dschinn fez uma careta aborrecida.
— Esses sujeitos me enrolaram. Eles conseguiram fazer com que eu pronunciasse o meu nome. Agora devo servi-los. Esses malandros são simplesmente espertos demais para mim. Fazer o quê! O que está acontecendo aqui me lembra a biblioteca dos dschinns. Pelo visto, o destino do grande saber é simplesmente perecer. — O olhar do dschinn perdeu-se no vazio. — Eu me pergunto onde tudo isso vai terminar.
Nuramon sacudiu a cabeça.
— Se o destino for generoso conosco, filhos de albos, os guerreiros queimarão tudo o que há nestas salas. Mas, se jogar duro com a gente, aprenderão todas as línguas e desbravarão o conhecimento.
— Nós pensamos nisso. No instante em que os humanos se infiltrarem aqui, lançaremos um feitiço para destruir tudo que é guardado neste lugar. Nós também vamos desaparecer. O feitiço já foi feito. Só temos de pronunciar as últimas palavras e então tudo aqui será transformado em um enorme... — o dschinn interrompeu-se e olhou para a porta.
Nuramon seguiu o olhar do espírito e teve uma surpresa profunda com o que viu. Uma pequena menina elfa entrou na sala com uma pilha de livros nos braços. Devia ter cerca de oito anos, não mais que isso. A criança arregalou os olhos ao vê-lo e, com o susto, deixou os livros caírem.