O dschinn se levantou.
— Não precisa ter medo, pequena. Este é Nuramon, um amigo da Terra dos Albos.
A menina baixou os olhos para os livros. Com um solavanco, eles flutuaram e voltaram a se empilhar nas mãos dela. Nuramon ficou perplexo. Para a criança o feitiço pareceu ser somente um estalar de dedos. Ela aproximou-se e depositou a pilha ao lado do grande trono de livros.
— Venha cá! Cumprimente o nosso convidado! — disse o dschinn.
Com um sorriso tímido, a garota pôs-se ao lado do dschinn e deixou o espírito afagar seu cabelo castanho-escuro.
— Qual é o seu nome? — perguntou Nuramon.
— O que você quer dizer? — disse a pequena quase no mesmo tom de voz que o dschinn.
— Você não tem nome? — continuou Nuramon.
— Ah, entendi! Eles me chamam de elfinha ou criança.
Nuramon emudeceu. O dschinn sequer dera um nome a ela!
— Então, criança, leve estes livros de volta lá para baixo — recomendou o dschinn.
Ela fez uma careta insatisfeita e pôs-se a apanhar alguns volumes da pilha de livros já lidos. Sorriu para Nuramon mais uma vez e deixou o salão. Nuramon dirigiu-se ao dschinn:
— Como você foi capaz de não dar um nome a ela?
— Nomes só trazem problemas, eu já lhe disse. Eles só permitem que os outros tenham poder sobre você.
Nuramon apontou para a porta.
— Mas você fica mandando essa criança para lá e para cá como uma criada!
— Ei! Você não conhece a pequena. Ela é uma peste malvada. Agora mesmo ela só me ouviu porque você está aqui. Ela tem a cabeça tão dura que, perto dela, até a de um troll é delicada! Além disso, só a mandei embora por um motivo.
— Que seria?
— Ela não sabe nada sobre sua própria origem. Eu contei uma história a ela para protegê-la da verdade.
— E qual é a verdade? — perguntou Nuramon, mas logo prosseguindo com um gesto: — Eu já tenho ideia. A pequena vem de Valemas, não é?
— Sim. Talvez seja a última dos libertos.
Nuramon encarou o dschinn admirado.
— Como isso é possível? Eu pensei que ao menos cem anos tivessem se passado. Como ela ainda pode ser criança?
O dschinn riu.
— Depende justamente da força que as barreiras de proteção das estrelas dos albos têm, e de até onde a força da arte do feitiço vai. Vocês com certeza quiseram fazer milagres sem buscar o equilíbrio com a magia.
Nuramon compreendeu o que o dschinn queria dizer.
— Então vocês vieram para cá no tempo que nós perdemos ao atravessar o portal? Quer dizer, os veneradores de Tjured primeiro tomaram Iskendria e então...
— Valemas! E, com certeza, também destruíram outros lugares. É isso. A menina foi confiada a mim quando a batalha era iminente para Valemas. Hildachi, a mãe dela, era uma poderosa feiticeira e vidente. Ela disse que devíamos pôr as crianças em segurança. Mas como lá só havia poucas crianças e os guerreiros subestimavam o perigo, levei só a pequena embora. Hildachi me disse que deveria levá-la a um lugar seguro e trazê-la de volta mais tarde. Depois de encontrar Valemas destruída, vim com ela para cá. Isso foi há seis anos. Na época, a pequena mal sabia falar. Ensinei algumas línguas a ela, inclusive leitura e escrita. Além disso, ensinei um pouco de magia. Não a subestime! Como estou preso a este lugar enquanto os guardiões do conhecimento não quiserem deixá-lo, não posso colocá-la em segurança. Mas eu não queria que ela vivesse o risco que esta biblioteca corre. É possível que não consigamos cumprir nosso objetivo antes que os humanos consigam chegar.
Nuramon refletiu um pouco. Uma criança era a coisa que menos ajudaria na busca deles. Mas o dschinn tinha razão. Aquele não era lugar para uma criança elfa.
— Eu vou levá-la comigo. Mesmo que primeiro precise explicar aos meus companheiros e que isso certamente dificulte a nossa busca.
— Ouvi que estão procurando uma pedra alba.
— Você por acaso sabe alguma coisa a respeito?
— É claro. Mas tudo o que posso lhe dizer em minha grande sabedoria eu já transmiti.
— O que quer dizer com isso?
— O que estou dizendo — respondeu sorrindo. — De mim você não vai saber nada de novo.
O que o dschinn queria dizer ao afirmar que já tinha dito tudo sobre as pedras dos albos? Não havia dito nada! Nem hoje, nem daquela vez em Valemas. A conversa nunca havia sido sobre pedras dos albos.
— Continue pensando nisso com calma. Enquanto isso, eu vou ler.
O dschinn apanhou o livro que havia iniciado e começou a folheá-lo, devagar. Nuramon percebeu que os olhos do espírito moviam-se rápido. Ele não estava só folheando — estava lendo.
Nuramon refletiu sobre o que o dschinn dissera aquela vez em Valemas. Ele contara sobre o Mundo Partido e que era impossível viajar pela escuridão sem fim. Mas a conversa nunca havia sido sobre uma pedra. Ou havia?
— A opala de fogo! — soltou Nuramon.
O dschinn pôs o livro de lado.
— Você tem boa memória, Nuramon.
— Você se refere à opala de fogo que ficava na coroa perdida do marajá de Berseinischi? Ela é uma pedra alba?
Nuramon ainda se lembrava das palavras do dschinn. Ele perguntara se Nuramon acreditaria se ele dissesse que a opala era uma estrela alba que se movia... Depois de tudo que Reilif lhe contou sobre o poder das pedras albas, agora ele entendia o sentido oculto por trás das palavras do dschinn. Nuramon sacudiu a cabeça:
— A pedra alba dos dschinns! Isso combina com vocês. Esconder a pedra em um lugar tão visível, de que ninguém jamais suspeitaria!
— É que nós, espíritos, somos mesmo espertos. Mas veja, nem tanto assim. Pois nem suspeitamos que aquele imbecil do Elebal levaria a coroa consigo na sua tropa de conquista.
— Ainda mal consigo acreditar. Você está dizendo mesmo a verdade, não é?
O dschinn deu um sorriso zombeteiro.
— Eu menti para você daquela vez?
— Não, isso você não fez. Você até me disse onde devo começar a busca pela coroa. Em Drusna, o marajá Elebal perdeu a batalha decisiva, e foi lá que a coroa com a opala de fogo desapareceu. Só não entendi uma coisa: por que não procurou a coroa você mesmo? Você também estava preso a Valemas com seu nome?
— Não, não estava. Eu procurei a coroa, mas não consegui encontrá-la. Ou foi destruída, ou há um feitiço de proteção a cercando. Antes eu conseguia senti-la em qualquer lugar.
— Eu pensei que as pedras albas não podiam ser sentidas à distância.
— Está certo, mas nós pusemos um feitiço especial na pedra, que só nós, os dschinns, conhecemos; ele nos diz onde está a opala de fogo. Mas, como eu disse, o grito dela foi calado. E, de qualquer forma, não seria possível ouvi-lo além das fronteiras de um mundo.
Talvez Farodin pudesse ajudar. Seu feitiço de busca porventura poderia ajudar a descobrir a pista da coroa.
— Há um retrato da coroa?
— Sim, aqui nesta biblioteca. Quando estive aqui pela primeira vez, mandei pintá-la. Na época, ainda a procurava. Esperava descobrir alguma coisa aqui sobre o seu paradeiro. Venha, vou mostrar a pintura! — disse, levantando-se.
— Meu companheiro Farodin domina um feitiço de busca. Se mostrarmos a ele uma imagem da coroa e você contar a ele o que sabe sobre ela, pode ser que ele consiga rastreá-la. Caso a encontremos, temos permissão para usar a pedra também para os nossos propósitos?
— Se você encontrar a opala de fogo, os dschinns formarão fila para beijar os seus pés! Todos vão dizer os seus nomes e adivinhar qualquer desejo seu! Para dizer com todas as letras: sim, Nuramon!
A pequena elfa
Em seu quarto, Nuramon debruçou-se sobre o livro que o dschinn lhe dera e observou a coroa do marajá, pintada em cores brilhantes sobre pergaminho. Que obra-prima! Mal era possível acreditar que um humano podia usar aquela enorme criação na cabeça. A coroa parecia quase uma fortaleza dourada, coberta de pedras preciosas. A grande opala de fogo ocupava o centro e, ao redor dela, concentravam-se todas as demais pedras.