Com aquela ilustração, ele encontrara uma pista importante. Estava ansioso para saber o que seus dois companheiros diriam a respeito. De repente, ouviu um ruído que soava como um soluço. Fechou o livro e aproximou-se da porta. Alguém estava chorando ali! Abriu-a com cuidado e saiu para o corredor. A elfinha estava sentada, recostada na parede, e chorava. Ao lado dela havia uma bolsa e três livros.
— O que aconteceu? — perguntou Nuramon, agachando-se diante da pequena.
— Você sabe muito bem! — retrucou a pequena elfa, com os lábios trêmulos. Ela desviou o olhar para o chão, e então disse, entre soluços: — O dschinn já me contou tudo.
Nuramon sentou-se ao seu lado.
— Olhe para mim! — disse ele, em voz baixa.
Ela olhou-o no rosto. Seus olhos castanhos brilhavam.
— Agora você sabe de onde vem.
— Sim... O dschinn me disse onde eu nasci, quem foram meus pais e o que aconteceu com Valemas.
— Ele nunca havia contado nada antes? Nada mesmo?
— Ele sempre disse que eu era descendente de uma família ilustre e que um dia meus irmãos me pegariam e levariam para casa. Eu acreditei!
— Ele não mentiu para você. De certa forma, até disse a verdade.
A pequena elfa enxugou as lágrimas do rosto.
— Pensei que tinha uma família; uma mãe e um pai. Pensei que eles estariam esperando por mim em algum lugar. Pensei que tinha irmãos.
— É claro que dói descobrir que as coisas não são da forma como se imagina. Mas não é por isso que vai desistir dos seus sonhos. Se quer ter uma família, um dia pode acontecer que você encontre uma. — Nuramon lembrou-se da noite anterior à partida da Caçada dos Elfos e das palavras do oráculo que Emerelle lhe dera como conselho. — Você sabe o que a rainha me disse uma vez?
A pequena elfa fez que não com a cabeça.
— Ela me disse: “Escolha a sua própria família!”.
A garota ficou admirada.
— Quem disse isso foi a poderosa Emerelle?
— Exatamente. E essas palavras também podem ajudá-la. Mas primeiro você precisa escolher um nome.
Finalmente um sorriso estampou-se no rosto da elfa. Parecia até ter esquecido que estava chorando havia pouco.
— Um nome!
— Escolha bem!
— Mas por que você não faz isso? Olhe no meu rosto e diga que tipo de nome sou eu!
Sorrindo, Nuramon balançou a cabeça. Que tipo de nome sou eu! A pequena elfa via as coisas de forma muito particular. Ele se deixou levar e disse:
— Bem, talvez você seja uma Obilee…
— Gosto desse nome — opinou a garota.
— Espere! Ainda é um pouco brando. Além disso, eu já conheço uma elfa que se chama assim. Há um nome que soa parecido. — Nessa hora ficou claro para Nuramon o que estava procurando. Para aquela criança elfa só poderia haver um nome: — O que você acha de Yulivee?
A menina soltou os cabelos, e as mechas onduladas caíram sobre seus ombros.
— É um nome lindo — disse com voz aguda.
— Você com certeza já o ouviu antes, não é?
— Ainda não.
— Bem, foi uma elfa de nome Yulivee que liderou seu povo quando ele deixou a Terra dos Albos e fundou Valemas.
Nuramon contou à menina sobre a velha cidade de Valemas, na Terra dos Albos, e a cidade-oásis de mesmo nome na qual encontrou o dschinn.
— Mas o dschinn disse que o meu clã era o de Diliskar.
— Esse era o avô de Yulivee, fundador do clã. Se é assim, você é até parente dela.
— Então eu posso usar o nome dela?
— Mas é claro! É comum dar nomes aos recém-nascidos cujos antigos donos partiram para o luar.
— Então eu vou adotar esse.
— Boa escolha! Talvez você seja a última dos libertos de Valemas. Não poderia haver um nome melhor para você. Yulivee!
— Yu-li-vee! — repetiu a pequena elfa algumas vezes, marcando as sílabas de formas diferentes.
Num salto travesso, pôs-se de pé e gritou seu próprio nome. Então aproximou-se de Nuramon e olhou-o no rosto.
— De agora em diante quero viver aventuras ao seu lado.
— Mas assim você certamente não estará tão segura quanto na Terra dos Albos. Nós poderíamos levá-la até o portal de lá e, dali, alguém a levaria até a rainha.
Yulivee balançou a cabeça em negativa.
— Não, eu não quero. Prefiro ficar com você.
Nuramon apontou para a bolsa e os livros junto à parede.
— Aquele é o seu equipamento?
— Sim. Roupas e conhecimento. Não preciso de mais nada.
— Então pegue as suas coisas e traga-as para dentro do quarto!
Nuramon foi na frente; Yulivee cumpriu a ordem, e pôs os livros sobre a mesa. Nuramon sentou-se.
— Que livros são esses?
— Eles são meus!
— É claro — respondeu Nuramon. — Mas se você me disser que livros são, eu dou este livro aqui de presente para você — disse ele, pousando a mão sobre o desenho de Yulivee.
— São contos de fadas. Com eles eu aprendi muito sobre a Terra dos Albos. Meus preferidos são as lendas de Emerelle. Ela é muito sábia. Gostaria de conhecê-la.
Nuramon pensou no comportamento de Emerelle em relação a eles. Não combinava muito com a rainha dos elfos das lendas que ele tanto gostava de ouvir quando era criança.
— Então você pode me contar uma das lendas de Emerelle?
Yulivee sorriu para ele.
— Claro. Sabe que eu nunca contei nada assim para ninguém? Todos estavam simplesmente ocupados demais.
— Bem, eu tenho tempo — disse Nuramon.
A pequena Yulivee começou a narrar o conto de Emerelle e o dragão, no qual tantos guerreiros fracassaram. Estava chegando na parte da traição vergonhosa do dragão, quando Farodin e Mandred entraram. Mandred fez uma cara satisfeita, mas os traços de Farodin, em contrapartida, refletiam desconfiança e desaprovação.
A garota olhou rapidamente para os dois e continuou a sua narração.
— Então Emerelle voltou e deu o tesouro do dragão de presente para o clã de Terevoi, que mandara tantos guerreiros para enfrentá-lo. Mestre Alvias alegrou-se com o fato de a rainha estar em segurança. E assim termina a história.
Nuramon percebeu que Yulivee contou o final muito rápido. Fez carinho nos cabelos dela.
— Foi uma história muito bonita. Obrigado.
Levantou-se e disse:
— Agora eu gostaria de apresentar meus amigos. Este é Farodin. Ele é o melhor guerreiro da corte de Emerelle. — Farodin ergueu de leve os cantos da boca, esboçando um pálido sorriso. Mandred, por sua vez, sorriu satisfeito. — E este é Mandred Torgridson, jarl de Firnstayn. Um humano.
A garota, boquiaberta, levantou os olhos na direção de Mandred, como se ele fosse uma estátua magnífica a que só resta admirar.
— Gostaria de apresentar a vocês dois a última elfa de Valemas!
Farodin fez uma cara de espanto:
— Isso quer dizer que...
— Sim. Valemas não existe mais. — E, depois de contar rapiramente o que acontecera, acrescentou: — O dschinn salvou esta elfa, trazendo-a até aqui. Seu nome é Yulivee e, a partir de agora, ela é nossa companheira.
— Saudações — disse Farodin, sendo mais cortês do que amável.
— Ela nos acompanhará por um tempo — prosseguiu Nuramon. — Então a levarei para a Terra dos Albos.
— Mas eu não quero de modo algum ir para a Terra dos Albos — retrucou Yulivee. — Eu prefiro ficar com vocês. E vocês não podem fazer nada para me impedir — disse, cheia de si.
Mandred sorriu.
— A pequena parece já ter um plano. Gostei dela! Vamos deixá-la ficar conosco!
Farodin abanou a cabeça, reprovando a ideia.
— Mandred, ficar conosco é perigoso demais para uma criança. Imagine se nos depararmos com uma batalha.
— Aí eu fico invisível — disse Yulivee.
Mandred jogou a cabeça para trás e riu alto.