— Viu só? Ela já sabe o que fazer.
Farodin encarou-a, cético:
— Você consegue ficar invisível?
Yulivee fez um gesto de desdém.
— Isso é fácil.
Nuramon interferiu novamente:
— O dschinn ensinou algumas coisas a ela.
Farodin fitou a garota.
— Pois bem, então ela pode ficar conosco — disse por fim. E sorrindo apontou o dedo indicador desafiadoramente para Nuramon: — Você é responsável por ela!
— De acordo. Agora contem-me o que os guardiões do saber disseram a vocês.
Farodin concordou e começou o seu relato. Haviam se referido a dois livros importantes sobre a arte do feitiço de busca. Ele estava confiante em aperfeiçoar seu conhecimento nessa esfera da magia. Também tinham falado sobre as pedras albas e de como talvez houvesse alguém que tivesse usado uma nos últimos séculos para criar novas trilhas na rede dos albos. Uma nova trilha como essa fora sentida por eles quando visitaram a biblioteca pela primeira vez. Pelo visto, outros viajantes também repararam nelas. Elas tinham algo de estranho, que certamente se devia ao fato de terem sido traçadas de forma totalmente nova e então integradas a uma rede de caminhos de milênios de idade. De qualquer forma, sua existência era a prova de que existiam mais pedras albas além da de Emerelle.
Quando Farodin terminou, Nuramon contou sobre o encontro com Reilif. O perigo de que o guardião do conhecimento falara provocou caretas preocupadas em seus companheiros. Por fim, relatou as informações do dschinn a respeito da opala de fogo desaparecida.
— Mas como iremos nos apoderar da coroa? O que você está descrevendo mal nos ajuda a encontrar uma pista segura até ela — ponderou Farodin.
— Olhe isto! — Nuramon abriu o livro que o dschinn lhe dera e procurou a página que antes examinara. — Esta aqui é a coroa do marajá de Berseinischi.
Farodin observou a imagem e balançou a cabeça em sinal de aprovação, absorto em pensamentos.
— Essa é uma boa pista, Nuramon.
Perto da mesa, a pequena Yulivee ficou nas pontas dos pés para conseguir enxergar o livro.
— Mas que caminho vamos tomar? Vamos seguir a trilha alba mais nova e procurar quem criou esses caminhos ou vamos encontrar a opala de fogo? — perguntou ela.
— Você prestou bastante atenção. É justamente essa a pergunta — respondeu Nuramon.
— Acho que devemos procurar a opala de fogo — sugeriu Mandred. — É mais fácil encontrar uma coroa desaparecida e trazê-la conosco do que tentar tirar uma pedra alba de alguém.
Farodin fechou o livro.
— Mandred tem razão. Tenho certeza de que conseguirei encontrar essa coroa com o meu feitiço. Nós sabemos mais ou menos onde está e sabemos como é. Isso deve bastar! Podemos ficar com o livro?
— Sim — respondeu Nuramon.
— Então vamos partir em busca da pedra dos albos! — Era a primeira vez desde que deixaram a ilha de Noroelle que Farodin parecia estar novamente cheio de iniciativa.
Nuramon ficou aliviado. Lembrou-se da última vez que se despediram de Iskendria. Naquela ocasião, uma briga os separou. Agora, tudo era diferente. Eles partiriam como um grupo, unidos outra vez, e com uma pequena companheira ao seu lado.
Carta ao grande sacerdote
Estimado Pai Therdavan, rei da fé sobre a Terra, feito instrumento de Tjured tão sabiamente.
Atendendo ao vosso desejo, mando-vos notícias sobre os distúrbios em Angnos e no Mar Aegílico. Como em toda parte à qual chegastes com o propósito da missão, houve duas dificuldades.
A primeira é que as terras que são sagradas para nós foram profanadas por filhos de albos. Muitos deles lutam com unhas e dentes como aqueles que lutam por seu lar ou sua corte. Todavia, com nossa estratégia refletida e a abnegação de nossos cavaleiros, nunca perdemos uma luta. Só há poucos lugares que precisamos sitiar por mais tempo até irrompermos para o outro lado e libertarmos dos demoníacos filhos de albos o chão por nosso Deus a nós destinado. Que Tjured derrame maldições sobre os albos!
O segundo risco para os nossos propósitos são os pagãos — todos aqueles que louvam outros deuses. Graças a Tjured, o terrível culto a Balbar foi exterminado. Vossas visões correspondiam à realidade. Nas catacumbas de Iskendria encontramos o coração de pedra do culto. Balbar não era mais que um espírito de pedra despertado para a vida pelos filhos de albos.
O culto a Arkassa perdeu sua importância quando as pessoas tomaram conhecimento dos milagres de Tjured. Vossa decisão de fazer o alto escalão dos sacerdotes evacuar o sítio às estrelas dos albos, e em lugar disso mostrar ao povo de Angnos o poder de Tjured, varreu da posteridade o culto a Arkassa.
Só há um ponto que desperta a minha preocupação. Embora no momento não seja visto como um grande perigo, ele porventura pode tomar proporções até tornar-se um problema real. Recebi de muitos lugares ao redor do Mar Aegílico a notícia de que cavaleiros elfos estão desonrando as nossas casas de Deus. Somente ontem fui assolado pelo relato de que o templo em Zeilidos teria sido incendiado. Além disso, demos por falta de alguns dos navios que deveriam atravessar para Iskendria. Os sobreviventes narraram que elfos os teriam atacado. Por enquanto, são somente pequenas investidas, mas tal resistência, atualmente avaliada somente como diminuta, porventura pode resultar em uma grande rebelião.
Minha intenção com isso não é sustentar a afirmação de que as tropas da Terra dos Albos estão lentamente entrando em ação. Mas temo que os filhos de albos que vivem nas terras sagradas tenham descoberto que, cedo ou tarde, tencionamos avançar contra eles. Também não se pode excluir a possibilidade de que os grupos saqueadores de cavaleiros elfos sejam compostos de fugitivos de santuários libertos.
Por fim, gostaria de chamar vossa atenção para uma notícia de nossos espiões. Eles descobriram que os drusnenses estão de fato se preparando novamente para uma guerra, por presumirem que vós poderíeis fazer deles vosso próximo alvo. Vossa tentativa de engendrar uma nova rebelião em Angnos fracassou. Realmente há relatos sobre elfos que partiram de Angnos para Drusna, mas esses relatos não são confiáveis o bastante. Vós solicitáreis o meu aconselhamento, e eis o que proponho: deixemos os drusnenses prepararem sua guerra. Entrementes, fortaleceremos nossas posições nas montanhas de Angnos. Até agora, nós sempre atacamos e jamais perdemos. Foi uma resolução de grande sabedoria não nos aventurarmos nos bosques de Drusna, e em vez disso ordenar a retirada no tempo certo. Do contrário, teria ocorrido a nosso exército o mesmo que sucedeu um dia a São Romuald. Só poderemos derrotar os drusnenses destruindo o poder deles em nosso território. Então teremos todas as portas abertas. Deixemos que ataquem, e que nós sejamos os defensores. Eles caminharão pelas encostas rochosas até deitarem sangue. No que diz respeito aos nortistas da terra dos fiordes, não vejo nenhum perigo neles. São bárbaros sem juízo e não possuem aliados. Quando chegar a hora, a Terra dos Fiordes tombará diante de nós como frutos maduros caem de uma árvore…
O pântano de drusna
Partindo de Iskendria, Nuramon e seus companheiros seguiram uma trilha alba conhecida até o oeste de Angnos, para dali viajar a Drusna por via terrestre. Durante o percurso, evitaram os humanos passando longe de aldeias, cidades e estradas ao atravessarem a serra. Por fim, avançaram até penetrar nos bosques de Drusna.
A floresta parecia se estender até o infinito. Raramente deparavam-se com clareiras. A região lembrava Nuramon dos bosques de Galvelun, por onde certa vez viajou, e de que ali também precisavam temer os lobos. Do dragão marrom que havia em Galvelun felizmente ainda não tinham visto nada. Mandred até afirmava que havia dragões no mundo dos humanos, mas Nuramon duvidava disso, principalmente porque as histórias do jarl soavam duvidosas demais.