Havia dias que estavam atravessando uma área do bosque que, pelo visto, um dia fora cenário de uma grande batalha. Encontraram elmos enferrujados e guarnições de escudos, assim como espadas e lanças. Junto a algumas rochas havia armaduras destroçadas e ossos humanos empilhados para formar horripilantes altares sacrificiais.
Farodin os guiava como de hábito, Yulivee era a única que seguia montada. Ela gostava de Felbion e parecia também ter caído nas graças do cavalo. Para ela, a viagem era uma aventura única. Fitava cada animal e cada planta com uma curiosidade que espantava até mesmo Nuramon.
— Quando vamos chegar? — repetiu a pergunta que com certeza já havia feito mais de cinquenta vezes naquele mesmo dia.
Mandred sorriu. Provavelmente se fazia a mesma pergunta. Afinal, Farodin dissera na tarde anterior que antes mesmo do pôr do sol chegariam ao lugar para onde seu feitiço o atraía. No entanto, quando o novo dia raiou, eles alcançaram uma área úmida da floresta que ficava entre dois grandes trechos de pântano.
Farodin ignorou a pergunta da criança. Foi Nuramon quem se dirigiu a ela, amável, porém firme:
— Vamos precisar de um dia a mais para cada vez que você perguntar.
A pequena calou-se.
— Pouco a pouco, esse lugar está ficando sinistro — resmungou Mandred. — Lobos, até aí tudo bem! Deles nós arrancamos o couro. Mas esse pântano desgraçado! Aqui vamos desaparecer todos em um buraco lamacento sem fim!
Farodin deu um suspiro. Deixava evidente que aos poucos estava perdendo a paciência. Apertou o passo para aumentar um pouco a distância entre ele e os demais.
— Se está preocupado, você deveria montar sua égua — disse Nuramon a Mandred em voz baixa. — Ela com certeza vai guiá-lo.
O jarl não o esperou repetir e subiu no animal.
Nuramon, por sua vez, correu até Farodin; queria perguntar-lhe o que havia de errado, pois até então o elfo jamais os conduzira por um caminho equivocado. Mas havia dias que algo parecia perturbá-lo. Talvez estivesse sentindo mais algum grão de areia nos arredores. Ou algo estivesse atrapalhando o feitiço de busca que usava para rastrear a coroa.
— O que está acontecendo, Farodin? — perguntou Nuramon.
— Eu não estava contando com o pântano. Além disso... — Olhou para trás de repente.
— O que foi?
O elfo acalmou-se. Então massageou a testa.
— Alguma coisa brilhou ali e atrapalhou o meu feitiço — disse, apontando para o pântano à direita. — Estou vendo o rastro ali atrás; ele segue adiante como a pista de um animal. Mas há algo de errado com ele. Não é claro o suficiente. E a todo momento tenho a sensação de que há um grão de areia em algum lugar daqui.
— Talvez ele esteja em algum buraco no pântano.
— Não, é quase como se o vento o estivesse carregando há dias pela floresta. Se eu não conhecesse bem isso tudo, diria que estamos sendo seguidos.
— Vou cuidar disso — respondeu Nuramon, retornando até Mandred e Yulivee.
Mandred fez um sinal com a cabeça, mas Yulivee mal reparou nele. Estava ocupada mantendo o punho perto dos olhos.
Nuramon foi tomado por uma suspeita. Caminhou até chegar ao lado de Felbion.
— O que você tem aí? — perguntou a Yulivee.
A menina baixou a mão, mas a manteve fechada.
— Nada — respondeu ela.
— Você tem sim alguma coisa na mão — disse Nuramon.
— É só um vaga-lume.
Nuramon não conseguiu fazer nada além de sorrir.
— Já tenho ideia de que vaga-lume é esse... — Voltou-se para o outro lado e chamou: — Farodin!
A pequena elfa fez um bico, como se estivesse pensando no que fazer quando Farodin se aproximasse deles.
— Abra a mão! — disse Nuramon a Yulivee.
A garota abriu a mão.
— Nada! — disse Mandred, sem pensar.
Nuramon, contudo, viu que lá havia um único grão de areia.
— Um vaga-lume bem pequeno — opinou ele.
Farodin pareceu ficar mais atônito que aborrecido.
— Você? Aquilo era você? — perguntou, quase sem acreditar no que via. — Você pegou algum grão de areia da minha garrafinha?
— Não, não — disse Yulivee rapidamente. — Eu não roubei nada.
— E de que outro jeito você o teria conseguido? — inquiriu Farodin seriamente.
— Você se lembra da noite em que se afastou porque sentiu um grão de areia? Eu também saí, e fui mais rápida que você.
— Ela é muito esperta — observou Farodin. — Ela nos conta uma história da qual só precisa se desculpar para esconder que fez algo pior.
— Eu não roubei nada — repetiu Yulivee. — Se você quiser pode contar de novo os seus grãos de areia.
— E como eu posso acreditar que você encontrou o grão de areia? Como você teria feito isso?
Yulivee deu um sorriso atrevido.
— Eu sei fazer mágica, você já se esqueceu?
Nuramon se intrometeu:
— Mas quem ensinou o feitiço de busca a você?
— Farodin! — respondeu Yulivee.
— Eu não fiz isso! — retrucou Farodin, agora enfurecido.
Nuramon repreendeu a pequena elfa com o olhar.
— Diga a verdade, Yulivee!
Mandred deu um tapinha carinhoso no ombro da menina.
— Eu acredito na pequena feiticeira.
Os olhos de Yulivee encheram-se de lágrimas.
— Desculpe. Aqui... — estendeu o grão de areia para Farodin, deixando-o rolar para a mão do elfo. Ele então apanhou a garrafinha e o deixou cair para dentro dela.
Lágrimas corriam pelas bochechas de Yulivee.
— Eu também queria encontrar alguma coisa. Foi só por isso que eu imitei o seu feitiço.
— Você consegue imitar feitiços? — perguntou Nuramon.
— Sim, e aí eu protegi o grão de areia do olhar de Farodin. Sinto muito mesmo!
— Pare de chorar, Yulivee — disse Farodin com voz mansa. — Sou eu quem precisa se desculpar. Foi uma injustiça ter te chamado de ladra.
— A pequena os faz parecer dois bobalhões! — Mandred caçoou dos amigos e virou-se novamente para Yulivee: — Só por isso vou deixá-la ir caçar comigo depois.
Logo a pequena elfa estava sorrindo de novo.
— Mesmo?
— Claro que só se Nuramon deixar.
— Posso? — perguntou ela. — Por favor, deixa!
— Tudo bem, mas você vai ficar sempre perto de Mandred — consentiu Nuramon.
Yulivee explodiu numa alegria efusiva.
Farodin e Nuramon seguiram caminhando, abanando a cabeça. Quando já não podiam mais ser ouvidos pelos outros dois, Farodin disse:
— A pequena leva jeito. Por todos os albos! Como é que ela consegue copiar um feitiço assim tão facilmente?
— Yulivee é filha de uma feiticeira. Seu nome era Hildachi, e ela descendia da linhagem de Diliskar; por isso ela é descendente direta da primeira Yulivee. A magia é forte no seu clã. Além disso, o dschinn a ensinou. Ele me alertou para não a subestimar.
— Ela seria uma boa aluna para Noroelle — disse Farodin, um pouco melancólico. — Se conseguirmos a coroa e pularmos para o portal que nos levará até ela, as pequenas mãos de Yulivee poderão ser de grande ajuda para nós.
— Você se esqueceu das dores? Eu não gostaria que uma criança passasse por um sofrimento como aquele. Quando tivermos a pedra alba, aí com prazer estarei pronto para esperar e deixar Yulivee decidir por ela mesma se vai ficar ao nosso lado nesse feitiço.
Farodin não respondeu; em vez disso, olhou adiante:
— Chegamos! Lá na frente! Deve ser do lado daquela faia.
Enquanto se aproximavam da árvore, Nuramon pensou como tudo poderia terminar rápido se encontrassem a coroa e se a opala de fogo ainda existisse. Eles aprenderiam a dominar a pedra e, finalmente, poderiam libertar Noroelle.
Eles chegaram à árvore, que ficava cercada de grama pálida, à margem de uma abertura no pântano.
— É aqui! — explicou Farodin, olhando para a água lamacenta. — Mas há algo de errado.
— Ela está aí dentro? — perguntou Mandred, apontando para o pântano. — Vamos pegar a minha corda! Só vamos precisar sortear quem é que vai se sujar.