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Farodin empurrou a porta do templo. Uma escada larga descia para uma praça pavimentada onde havia um mercado. Nuramon tinha tomado Yulivee nos braços e agora também chegava ao ar livre. Bem alto sobre eles soaram os sinos. Mandred segurava seu machado erguido de forma ameaçadora. Desceu a escada de costas ao lado de Farodin, que conduzia os cavalos, até chegar à praça. Ninguém ousava chegar perto do gigante de cabelos ruivos. Do templo, vinha uma gritaria de muitas vozes.

Os companheiros pularam sobre os cavalos. Nuramon apontou para a rua mais larga que partia da praça.

— Por ali!

Em um ritmo de quebrar o pescoço, os cavalos avançaram sobre o pavimento. Casas altas de madeira pintada ladeavam seu caminho. Havia poucos humanos nas ruas. Pelo visto, a cidade toda se reunira no templo.

Farodin olhou para trás. Os primeiros perseguidores já se arriscavam na praça. Com os punhos ameaçadoramente erguidos, rogavam pragas atrás deles. Na frente do gigantesco templo de Tjured, pareciam ridiculamente pequenos. Como uma torre redonda e cilíndrica, ele subia alto no céu atrás deles. Por fora também era caiado de branco. Seu telhado em cúpula brilhava claro na luz do sol, como se fosse guarnecido do mais puro ouro.

— Para lá! — gritou Mandred.

Havia refreado a égua e agora apontava para uma rua lateral, no fim da qual se via a entrada da cidade.

— Devagar — ordenou Nuramon. — Se corrermos até o portão, eles vão acabar fechando-o.

Farodin esforçava-se para manter seu cavalo agitado sob controle. Nuramon, que trazia Yulivee diante de si na sela, seguia cavalgando. De trás deles vinham os gritos dos furiosos visitantes do templo, aproximando-se lentamente. Nenhum dos cidadãos desarmados parecia querer mesmo alcançá-los.

À frente do portão, com as pernas afastadas, havia um homem de sobreveste branca.

— Quem são vocês? — gritou ainda a distância.

Farodin percebeu um movimento por trás dos balestreiros da torre do portão. deviam ser atiradores com suas bestas. Mais alguns passos e estariam a salvo, mas, assim que deixassem o portão para trás, poderiam ser alvejados pelas costas. Não podiam simplesmente atravessar, mesmo que fosse fácil desviar do único guarda. Eles teriam de enganar os sentinelas.

— Ali no templo, do outro lado, houve um tumulto — Farodin gritou para o guarda. — Estão precisando de todos os guerreiros!

— Um tumulto? — perguntou o homem, desconfiado. — Isso nunca aconteceu até hoje.

— Acredite em mim! Filhos de demônios infiltraram-se repentinamente no templo. Eu vi com meus próprios olhos. Não está ouvindo os gritos? Eles estão perseguindo os fiéis, empurrando-os para as ruas como se fossem gado!

O guerreiro encarou-o apertando os olhos e preparava-se para responder, quando uma tropa de fiéis surgiu no fim da viela. Estavam armados com clavas e garfos para feno.

— Lá vêm eles — disse Farodin. — Veja, estão possessos!

O guarda agarrou sua alabarda, que estava encostada ao lado do portão.

— Alarme! — gritou com toda a força, acenando para os homens escondidos atrás dos balestreiros. — Um tumulto!

— Salve a sua alma! — gritou Farodin.

Deu em seguida um sinal para seus companheiros, que avançaram e atravessaram o portão sem ninguém atirar nenhuma flecha por trás.

Fugiram por uma rua poeirenta que passava entre campos dourados de trigo. A oeste, a terra subia formando colinas suaves. Lá havia faixas largas de mata passando entre os campos verdes.

Depois de percorrer quase dois quilômetros, saíram da rua e cavalgaram cortando a mata. Um rebanho de ovelhas dispersou-se, balindo, para dar passagem aos cascos trovejantes dos cavalos. Por fim, chegaram a uma floresta. Só então pararam, sob a proteção da mata espessa.

Farodin olhou de volta para a cidade. Nas ruas via-se uma pequena tropa de cavaleiros. Eles cavalgaram juntos até o primeiro cruzamento e então se separaram, dissipando-se em todas as direções.

— Mensageiros — resmungou Mandred. — Logo todos os cavaleiros da ordem em um raio de cem milhas saberão que naquele maldito templo apareceram filhos de demônios. — E voltando-se para Nuramon: — Pelo machado de batalha de Norgrimm, o que foi que aconteceu? Por que de repente fomos parar naquele templo?

O elfo abriu os braços em um gesto de desamparo.

— Não sou capaz de explicar. Nós devíamos ter entrado em uma estrela alba para dali tomar outra trilha. Foi como se tivessem tirado o chão sob nossos pés. Eu pude sentir como se todas as trilhas da estrela dos albos tivessem morrido.

— Trilhas mortas? — perguntou Mandred. — Que loucura é essa?

— A magia é viva, filho de humanos — disse Farodin, entrando na conversa. — Você sente as trilhas pulsarem como se fossem as veias do mundo.

— Será que foi aquela casa estranha dos humanos? — perguntou Yulivee timidamente. — Ela era sinistra, mesmo sendo toda branca. Eu senti que tinha alguma coisa que me puxava, parecia querer roubar toda a minha magia. Talvez tenha sido aquela árvore morta, ou aquela pintura do homem de olhos grandes... Não sei direito.

— Sim, o homem da pintura. — Nuramon virou-se na sela e olhou para Farodin. — Algo na imagem chamou a sua atenção?

— Não. A não ser o fato de não ser uma obra de arte.

— Eu achei que o homem se parecia com Guillaume — disse Nuramon decididamente.

Farodin fez uma careta.

— Ridículo. Por que alguém manteria um quadro de Guillaume em um templo?

Mandred, no entanto, concordou com Nuramon.

— Você tem razão. Agora que você disse, pude ver que o sujeito se parecia mesmo com Guillaume.

— Quem é Guillaume? — perguntou Yulivee.

Nuramon contou-lhe sobre o devanthar enquanto cavalgavam lentamente mais para dentro da floresta.

— Então Guillaume era um humano que conseguia tirar a magia dos outros quando fazia feitiços? — perguntou Yulivee.

— Não era humano — corrigiu Farodin. — Ele era um ser híbrido de elfo e devanthar. Os humanos não dominam...

Ele se interrompeu. Isso já não era mais verdade! Os acontecimentos em Iskendria comprovavam que ao menos os monges do culto a Tjured já eram capazes de fazer feitiços.

— Sem mágica, os cavaleiros malignos não teriam chegado a Valemas — disse Yulivee. — No templo, senti como se alguém quisesse roubar a minha magia. Será que o espírito de Guillaume vive na pintura?

— Guillaume não era mau — Nuramon acalmou-a. — Lá com certeza não havia nenhum espírito.

— Mas alguma coisa queria roubar a minha magia — insistiu a pequena.

— Talvez tenha sido o lugar — retorquiu Mandred. — O próprio templo. Ele fica precisamente sobre a estrela dos albos, se é que eu entendi certo, Nuramon.

— Isso também pode ser por acaso. Os humanos gostam de construir seus templos onde as trilhas albas se cruzam.

Um arrepio gelado percorreu as costas de Farodin.

— E se eles destruírem as estrelas albas intencionalmente? Assim eles separariam este mundo da Terra dos Albos. Eles nos odeiam, e nos chamam de filhos de demônios. Não seria lógico que eles aspirassem fechar todos os portais para a Terra dos Albos? Pense bem... Eles avançaram para o Mundo Partido pelos portais, e estão aniquilando tudo por lá. E fecharam os portais para a Terra dos Albos. Vocês não perceberam ainda o plano que há por trás disso? Eles estão separando os mundos. E exterminando todos os que não seguem Tjured.

Nuramon ergueu as sobrancelhas e sorriu.

— Não consigo não me admirar com você, Farodin. Como é que justamente você de repente julga que os humanos são tão capazes assim? Você sempre desdenhou deles.

Mandred pigarreou.

— Nem todos, é verdade — retificou Nuramon. — Mas ainda há algo que se opõe a isso, Farodin. Alguém está tecendo novas trilhas albas e criando novas estrelas. Isso não condiz com o seu raciocínio.

As palavras soaram óbvias. Mas Farodin queria tanto que Nuramon tivesse razão! Contudo, também não queria ignorar aquela dúvida.