— Mas? — repetiu a menina.
— Nunca mais me deixe com medo daquele jeito.
— Você se importa um pouquinho comigo, não é?
— Sim. Você já é como uma irmã para mim.
A admiração tomou conta do rosto da pequena elfa.
— Mesmo? — perguntou ela.
Nuramon sentou-se. Yulivee virou a cabeça e olhou para ele. Pelo visto, esperava uma confirmação.
— Sim, Yulivee.
— Então você me escolheu para a sua família, como a rainha disse?
Nuramon concordou.
— Exatamente assim. E, aconteça o que acontecer, eu cavalgaria contra mil cavaleiros para pôr você em segurança.
Os olhos de Yulivee encheram-se de lágrimas. Nuramon conseguia compreender o que devia estar se passando dentro dela. Dissera a verdade: a pequena elfa era para ele como uma irmã menor, não como uma filha. Ela era poderosa demais para isso. Nuramon não sabia dizer o que o destino reservava para ele e seus companheiros. Era certo, porém, que queria poupar a pequena de batalhas de qualquer maneira. Essa era a hora de levá-la para a Terra dos Albos, para que ficasse em segurança. Talvez Obilee cuidasse dela, se é que ainda não havia partido para o luar.
Tempo de heróis
— Cem navios virão! — gritou o rei. Um silêncio mortal tomou conta do salão de cerimônias. — E uma segunda frota virá para se unir aos cem navios, de tanto que eles temem os homens das terras do fiorde.
Mandred viu quantos guerreiros e nobres sorriram furiosos no salão. Seu descendente Liodred sabia usar o tom certo para inflamar corações de combatentes. Estava orgulhoso dele. Alto e musculoso, cada pedaço seu era o de um grande guerreiro. Seus cabelos longos, vermelhos e cacheados desciam pelos ombros e seus olhos azuis brilhavam como o céu em uma tarde de verão. Só não agradava Mandred o fato de usar a barba aparada, bem curta.
Após a chegada dos companheiros, Liodred reagira rápido. Tinham alcançado Firnstayn no fim da tarde e, ainda na mesma noite, ele reuniu na grande sala real os mândridos e os nobres das redondezas próximas. Mais de trezentos guerreiros estavam sentados junto às longas mesas, muitos com os olhos erguidos de forma respeitosa para a mesa de banquetes à qual, ao lado do rei, estavam acomodados dois guerreiros elfos, uma menina e o lendário antepassado Mandred Torgridson.
— Vocês todos já os conhecem há muito tempo, os sacerdotes de Tjured com suas línguas de serpente. Vocês sabem como eles insultam os nossos deuses e espalham mentiras sobre o nosso povo. E eu pergunto a vocês: temos medo deles por isso?
— Nããão! — ressoaram as vozes de centenas de gargantas.
— Então eles convocaram mais de cem navios e milhares de guerreiros para atacar Firnstayn de surpresa, já que guerra até hoje ninguém nos declarou!
Liodred curvou-se para a frente e apontou para um combatente de cabelos brancos, com uma pele de lobo sobre os ombros.
— Vejo medo nos seus olhos, Skarbern?
O velho ficou vermelho e quis levantar-se, mas acalmara-se. Liodred prosseguiu:
— Eu compartilho sua preocupação, Skarbern. Temo que nossos mândridos, com suas cabeças quentes, os mandarão para o fundo do fiorde antes de nós, velhos, termos chance de puxar nossos machados do cinto.
Gargalhadas ensurdecedoras soaram. O coração de Mandred se alegrou. Seu descendente era realmente um rei guerreiro. Cada um dos homens ali embaixo caminharia até sobre as chamas por Liodred. As palavras do rei despertavam até nele a sede de luta.
— Homens de Firnstayn, meus amigos. A maioria de vocês eu conheço de quando ainda éramos crianças. Conheço os seus corações valentes, o seu orgulho e obstinação. Em nenhum lugar fora das terras do fiorde há homens como vocês! Os melhores beberrões e mulherengos, e quando chega a hora do vamos ver, os melhores camaradas que se pode imaginar. Homens como vocês só podem existir em uma terra livre. Vocês acham que os cavaleiros da ordem estão vindo porque querem o nosso ouro? Eles já têm tanto que enfeitam os telhados das torres de seus templos com ele! Vocês acham que eles vêm para saquear, pilhar e para violar suas mulheres?
Liodred fez uma pausa curta e deixou o olhar vaguear pela grande sala.
— Não, meus amigos. Os cavaleiros da ordem estão cingidos de grandes espadas, mas entre as pernas eles não têm nada. De que outra forma é possível explicar que cada um desses guerreiros tenha abnegado as mulheres?
Mandred tentou segurar, mas esguichou o hidromel que tinha na boca de volta para o chifre, espirrando em Farodin, que estava sentado a seu lado. O elfo permanecia totalmente calmo. Talvez devesse explicar a piada de novo para ele, pensou Mandred.
— Saibam, meus amigos, que esses não são os motivos para que os cavaleiros da ordem estejam vindo. Eles estão nos atacando porque possuímos algo infinitamente mais precioso. Liberdade! Eles representam um povo que se resume a nada mais que sacerdotes e servos, e que não consegue tolerar liberdade por perto. Então, se eu os chamo às armas, saibam o que os espera. É mais que uma batalha marítima. Se os cavaleiros da ordem vencerem, vai nos acontecer o mesmo que ocorreu aos homens de Angnos ou Gornamdur. Eles matarão todos que não queiram ser padres ou servos. Eles queimarão os homens de ferro, as matas sagradas e o nosso templo. Nada que nos lembre dos nossos soberbos antepassados, da nossa forma de viver e da nossa tradição será poupado do fogo.
Liodred fez uma pausa para deixar as palavras fazerem efeito. Ergueu o chifre de hidromel e verteu um pouco para dedicar aos deuses. Então pousou-o sobre os lábios e bebeu em longos goles. Alguns dos homens na parte de baixo da sala levantaram-se e fizeram o mesmo.
Mandred também se levantou e passou o braço ao redor dos ombros de seu bravo descendente.
— É fácil esculpir belas palavras aqui na nossa sala, entre amigos — Liodred finalmente continuou. — Eu sei que os sacerdotes de Tjured só fazem guerra quando estão seguros de ganhar. No peito deles não há o coração de leão de um guerreiro, mas uma alma mesquinha de mercador. Eles contam, calculam e só atacam quando sabem que contra cada guerreiro de seu inimigo podem convocar cinco cavaleiros da ordem. O fiorde ficará vermelho de sangue quando os enfrentarmos. E muito do nosso sangue será derramado.
Voltou-se para Mandred:
— Aqui ao meu lado está Mandred Torgridson. O antepassado vivo! Fundador do clã real de Firnstayn. Todos vocês conhecem as histórias a seu respeito. Dizem que ele retorna quando seu povo corre os mais extremos perigos. Foi ele que hoje me trouxe as notícias sobre o ataque que virá.
Murmúrios percorreram a sala real. Mandred sentiu-se desconfortável sob os olhares que agora o atingiam. Muitos viam nele não só o herói, mas também o mensageiro de desgraças vindouras.
— O meu antepassado renunciou à mulher e ao filho para salvar Firnstayn. Sua coragem está viva há séculos nas histórias dos nossos escaldos. Agora cabe a vocês provarem que não são menos corajosos que ele. Estão prontos para lutar?
Agora os últimos homens que ainda estavam sentados também erguiam-se aos saltos.
— Nós lutaremos! — gritaram centenas de vozes. — Nós lutaremos!
Liodred abriu os braços. Lentamente o silêncio foi retornando.
— Os sacerdotes de Tjured obrigam homens de todos os povos subjugados a lutar em seus exércitos. Conosco lutam somente homens livres. Mas nós também temos amigos poderosos. Existe um pacto de tempos antigos. Uma aliança que agora, na hora da urgência, deve se reafirmar. Séculos se passaram desde que a rainha dos elfos pediu a ajuda dos guerreiros de Firnstayn. Agora nós pediremos aos elfos que nos prestem auxílio. Aqui vocês veem dois homens do mito. Guerreiros elfos valentes e nobres, com espadas mortais como as de nenhum humano. Eles me prometeram ainda esta noite atravessar o círculo de pedras sobre o penhasco e cavalgar até a Terra dos Albos. Ao amanhecer, ecoará em toda a Terra dos Albos o chamado das cornetas que reunirá os guerreiros na corte da rainha.