— Venha ao lado do meu trono. Você precisa se acostumar a este lugar.
Yulivee fez o que a rainha mandou. No rosto da pequena feiticeira, via-se o quanto a visão de todos aqueles filhos de albos a impressionava. Quando a rainha tomou sua mão, a pequena ficou admirada. Devia estar se sentindo como em um dos contos que lera sobre Emerelle.
A rainha voltou-se para Nuramon:
— Você fez bem de cuidar dessa criança. Ela é mais poderosa do que você imagina. Já que vocês se escolheram como irmãos, pergunto se tenho permissão para instruí-la na arte da magia.
— E quem negaria essa oferta? Mas não cabe a mim aceitá-la ou recusá-la. É a própria Yulivee quem deve decidir. Eu ficaria feliz se você a instruísse, pois tenho muito pouco a ensinar a ela.
— E então, Yulivee? Você gostaria de ser minha aluna?
— Sim, Emerelle. Eu gostaria. Mas também gostaria de continuar com Nuramon.
— Vou dar tempo para você pensar. Não é uma escolha fácil. Mas, qualquer que seja a sua decisão, saiba que não vai me desapontar. — Emerelle então se levantou: — E agora, filhos de albos, preparem-se para a guerra! Alvias!
O mestre aproximou-se dela. A rainha sussurrou-lhe algo ao ouvido; então pegou Yulivee pela mão e deixou a sala por uma porta lateral. Os guerreiros ao redor do trono a seguiram. Só Obilee permaneceu, olhando para Farodin e Nuramon como se fossem uma pintura que a lembrava de bons tempos.
Farodin iniciou uma conversa com seus parentes. Logo a linhagem de Nuramon se aproximou e o cobriu de perguntas. A maior parte de sua família era desconhecida para ele. Só o rosto de Elemon, que depois de todos esses anos ainda estampava desconfiança, era familiar para ele. A prima que falara com ele chamava-se Diama. Ela perguntou-lhe o que sucedera quando esteve com os filhos de albos das trevas. Nuramon deu uma resposta esquiva. A cada oportunidade, tentava fazer contato visual com Obilee. A elfa, por sua vez, não se moveu; parecia contente por vê-lo cercado por seu clã.
Quando Elemon aproximou-se de Nuramon, o guerreiro pensou que agora toda a alegria estaria terminada. Seu tio nunca encontrara sequer uma palavra amigável para ele. Os elfos restantes esperavam em silêncio pelo que o velho elfo diria.
— Nuramon, nós todos descendemos da linhagem de Weldaron — começou ele. — E você sabe que eu e os outros da minha idade sempre o desprezamos. No tempo em que você esteve aqui e não tinha permissão para deixar a Terra dos Albos, nós concebemos filhos. E eles nasceram depois que você foi embora, na certeza de que não carregariam a sua alma. Mas esses filhos e seus descendentes o viram com outros olhos. Eles ouviram as histórias de Nuramon, o guerreiro trovador, e de Nuramon, o eterno peregrino. Durante a Guerra dos Trolls, eles descobriram que você um dia foi companheiro de Alfadas. — O elfo parou e encarou Nuramon como se esperasse alguma emoção sua. Então continuou: — Nós, os velhos, você não precisa perdoar. Muitos de nós não mudaram de opinião, mas estes elfos o veneram como o maior do nosso clã. Não os deixe perceber o seu desprezo por nós.
Nuramon jamais gostara de Elemon, mas essas palavras foram de uma amabilidade que ele nunca, nunca mesmo, esperara. Ao observar as expressões dos jovens elfos que o cercavam, reconheceu que seu tio tinha razão.
— Se a rainha não me quiser ao seu lado, eu partirei para essa batalha ao lado da minha linhagem. Agradeço a você, Elemon.
— E espero que você possa me desculpar — disse Elemon, com os olhos brilhantes.
— Sim, eu posso. Em nome de Weldaron!
Nuramon lembrou-se de todos os anos em que fora obrigado a tolerar o escárnio de seu clã. Se não tivesse Elemon à sua frente e visse que o velho estava à beira das lágrimas, pensaria que seus parentes gostariam de tê-lo de volta em seu meio por motivos egoístas. Mas as palavras de Elemon demonstravam seriedade e disso Nuramon duvidava tão pouco quanto das intenções daqueles jovens homens e mulheres, dos quais alguns carregavam espadas curtas como ele, como se estivessem atentos à possibilidade de imitar seus atos. Sua prima Diama era um deles. Vestia até uma armadura semelhante à de Gaomee, embora fosse feita de placas de metal em vez de couro de dragão.
Nesse momento, Nuramon compreendeu quanto tempo esteve longe. Tornara-se vítima do tempo por duas vezes. Em cada uma delas, mais de duzentos anos haviam se passado. Durante esse período, o escárnio do clã se transformara em reconhecimento, talvez até admiração.
Alvias aproximou-se junto com Farodin. O mestre fez um movimento cordial com a cabeça.
— Nuramon, a rainha gostaria de vê-los na câmara lateral. Sigam-me, por favor!
— Obrigado por terem vindo — Nuramon cumprimentou a família, inseguro. Precisaria de tempo para se acostumar à mudança.
Mal deixaram a roda de parentes, Farodin sussurrou:
— Parece que a sua linhagem cresceu a valer... Pelo visto, agora eles veem em você mais que um renascido. — Soava como se Farodin, à sua maneira, compartilhasse a sua alegria.
Nuramon quis responder, mas nesse momento aproximaram-se de Obilee e pararam.
Alvias parecia impaciente.
— Eu vou na frente avisar a rainha que estão a caminho.
Nenhum deles falou. Nuramon lembrou-se da última vez que viu a confidente de Noroelle. Tinha sido no primeiro portal que abriu com sua magia. Ela lhe acenara de uma colina. Na época, parecia mais uma feiticeira que uma guerreira, mas agora ela vestia uma roupagem de combatente de couro macio de Gelgerok, com placas de madeira dura fixadas no torso, nas mangas e nas pernas. As runas pintadas sobre a madeira certamente auxiliavam Obilee na luta. No pescoço, trazia uma corrente em que pendurara a pedra preciosa de Noroelle, como Nuramon também havia feito. Era um diamante.
Finalmente Nuramon quebrou o silêncio.
— Xern me contou que você se tornou uma heroína na Guerra dos Trolls.
— Sim — Obilee respondeu como se lamentasse por isso.
— Noroelle ficará orgulhosa de você quando descobrir — disse Farodin.
— Eu nunca esqueci Noroelle. Nenhum dia se passa sem que eu pense nela ou em vocês. — Olhou Nuramon bem nos olhos: — Eu queria poder acompanhá-los.
Sua voz soava tão melancólica quanto suas palavras. Deu um sorriso sofrido.
— Não se deixem enganar pelo meu humor. Estou feliz em vê-los. — Com essas palavras abraçou Farodin e beijou-o na bochecha. — Queria poder fazer qualquer coisa por vocês.
Também abraçou Nuramon, mas não o beijou.
— Estou muito feliz por você! Noroelle tinha razão. O seu clã reconheceu a sua essência.
Antes que Nuramon pudesse dizer qualquer coisa, Obilee acrescentou:
— Venham! Não vamos fazer a rainha esperar mais! Ela com certeza quer saber o que vocês vivenciaram. Eu também estou curiosa.
Eles seguiram Obilee até a câmara lateral. Nuramon mal conseguia se desvencilhar do olhar da guerreira. Nele havia tanta dor e saudade...
Quando adentraram a câmara, Nuramon mal acreditou no que ouviu. A pequena Yulivee estava de pé ao lado da rainha, cercada de guerreiros, e contava a história da sua viagem por Fargon.
— E quando eu já achava que minha vida estava acabada, Nuramon me alcançou e me puxou para junto dele sobre a sela. Mas ouçam o que aconteceu depois! E, então, o que você teria feito nessa situação? — perguntou a Ollowain.
— Eu teria dado meia-volta para colocá-la em segurança — respondeu o guerreiro. — Então cavalgaria de volta e me encarregaria dos humanos.
Yulivee deu um sorriso atrevido.
— Sábia resposta. Mas Nuramon não fez nada disso, pois teria significado a nossa morte. Ele não fez o cavalo dar a volta, pois os adversários estavam perto demais.
Yulivee deu esta última informação a Ollowain bastante tarde, mas o guerreiro da Shalyn Falah riu de suas palavras.
— Em vez disso, ele avançou para o meio deles, desviou de golpes e pontadas e... — a pequena feiticeira viu Nuramon e interrompeu a narrativa por instante, para depois rapidamente continuar: — ... e salvou a pequena Yulivee dos humanos malvados. E se a pequena Yulivee tiver cuidado, amanhã ela ainda estará viva.