Quando iria começar finalmente? Em algum lugar à sua frente, Mandred estava em dificuldades, e aquela galera sequer se movia! Só restava-lhe esperar que os navios de Reilimee já tivessem chegado aos fiordlandeses.
Nuramon lembrou-se de Farodin. Ficava aflito só de imaginar que ele agora estava junto do duque dos trolls, mesmo que o amigo tivesse dito que não precisava se preocupar.
Uma guerreira espremeu-se no meio da multidão.
— Você é Nuramon? — perguntou ela.
Ele a encarou admirado.
— Sim.
— Meu nome é Nomja.
Aquele era o nome da jovem companheira que estivera com ele na viagem de busca por Guillaume.
— Nomja! É você...?
Ela balançou a cabeça num gesto afirmativo.
— Sim, a sua companheira de Aniscans. Eu renasci.
Ela não tinha qualquer semelhança com a guerreira daquela época. Era baixa, tinha os cabelos negros e curtos e parecia muito mais madura que a jovem combatente que o acompanhara na procura por Guillaume. Mas em seus olhos havia a mesma alegria que na época via nos da companheira. A morte de Nomja durante a fuga de Aniscans afetara muito todos eles, principalmente Mandred.
Nuramon abraçou-a como uma amiga que há muito tempo não via.
— Estou feliz por você estar aqui.
Ao soltar-se dela, percebeu o quanto seu abraço surpreendera a guerreira.
Nuramon olhou para o arco em suas mãos.
— Você é atiradora?
— Sim.
— Na época você já era muito boa nisso.
Ela sorriu, mas ficou em silêncio. Com certeza Nuramon era estranho para ela. Era óbvio que não conseguia se lembrar da vida anterior, e ele a tratava como um anão faria com alguém renascido.
De repente, Nuramon ouviu gritos. Vinham de mais adiante.
— Preparem-se! — gritou Obilee.
Nuramon esticou o pescoço, mas sua visão ainda estava bloqueada. A seguir, escutou o tinir de aço e os gritos dos feridos.
À bombordo ouviam-se os brados dos guerreiros:
— Mais rápido!
Nuramon empurrou dois guerreiros de lado e avançou com esforço para a balaustrada a bombordo. O que viu dali atingiu-o como um raio fulminante. Um imenso navio de três mastros, ostentando a árvore negra de Tjured na grande vela, vinha na direção deles. Os inimigos tinham conseguido passar pelo recife daquele lado e agora se aproximavam rapidamente, tentando interceptar o caminho do navio da rainha. Quando gritos soaram no meio do navio e flechas passaram voando sobre suas cabeças, ficou claro que a batalha já tinha começado para eles.
De repente, um solavanco sacudiu o navio. Uma segunda pancada foi sentida no navio da rainha, e quase derrubou Nuramon. O navio inimigo os acertara bem no meio! Então começou o caos. Gritos de guerra atingiam as orelhas de Nuramon vindos por todos os lados.
Os guerreiros ao seu redor começaram a ficar inquietos. Nomja também parecia nervosa. Só Obilee parecia não saber o que era medo.
— Arqueiros, à direita! — ordenou ela.
Nuramon obedeceu sem hesitar. Avançou para o outro lado do castelo de proa, onde a unidade assumia formação ao longo da balaustrada.
Um trecho mais adiante, ele viu uma fila inteira de navios fiordlandeses. Vários navios inimigos haviam parado ali, assim como as galeras de Reilimee, e já estavam na luta. Os navios inimigos de Fargon formavam uma aglomeração densa; estavam bem amarrados uns aos outros e os reforços dos cavaleiros da ordem que chegavam precisavam passar por vários navios, saltando de um para o outro, para chegar à linha de combate. O campo de batalha crescia e crescia, e o Brilho Élfico, onde Nuramon estava, tornou-se igualmente parte dele. Ele tentou descobrir Mandred no meio dos firnstaynenses, mas seu companheiro estava oculto no meio da multidão em combate.
Obilee os conduziu até uma abertura na balaustrada. Ali havia sido enganchada uma escada de madeira, que terminava bem em cima do primeiro navio dos firnstaynenses.
— Guerreiros, venham até mim aqui na frente! — gritou Obilee. — Vocês, atiradores, continuem na balaustrada! E disparem somente tiros seguros!
Outros atiradores vieram de trás e preencheram as aberturas até o fim da balaustrada. Os demais tomaram posição na segunda fila e assumiriam caso algum dos atiradores caísse.
Assim como os atiradores à esquerda e à direita, Nuramon puxou uma flecha do coldre, posicionou-a sobre a corda e procurou um alvo certo. Ali! Bem na frente deles encontrou um cavaleiro que estava descendo para o navio por uma escada de portaló. Nuramon estava prestes a soltar a corda quando percebeu Nomja atirar uma flecha ao seu lado e acertar o alvo.
Os guerreiros moviam-se de forma imprevisível e rápida demais para Nuramon. Finalmente descobriu um grupo de guerreiros inimigos reunidos a uma certa distância, claramente preparando um ataque coletivo. Estavam distantes ao menos cem passos, mas por serem tão numerosos e naquele momento não estarem sendo acossados por oponentes, Nuramon atirou neles. Sequer esperou a flecha chegar e imediatamente puxou uma nova do coldre.
Um dos guerreiros caiu de joelhos com um ferimento na barriga, o que fez seus companheiros buscarem abrigo atrás da balaustrada mais baixa. Outras flechas os obrigaram a recuar até ficarem fora do alcance dos elfos.
Buscando um novo alvo, Nuramon viu um estandarte com uma estrela azul em fundo prateado. Aquela era a bandeira do Estrela dos Albos, que o rei Njauldred um dia lhe dera de presente! Não era o mesmo navio em que, na ocasião, velejara com Farodin e Mandred para o leste. Era muito maior, mas a bandeira havia sido mantida, talvez em memória às glórias passadas.
Finalmente Nuramon avistou Mandred. O jarl mantinha-se na beirada do Estrela dos Albos, onde encontrara espaço para golpear com seu machado. Seus homens e ele tinham se metido em dificuldades. Os oponentes estavam em número muito maior. Além disso, um navio da ordem acabara de avançar por entre as galeras dos elfos e atacava o drácar à esquerda do Estrela dos Albos. Os cavaleiros lançaram-se de sua embarcação e ameaçavam romper a linha de batalha dos fiordlandeses, acossando-os por todos os lados. Estavam criando uma barreira entre Mandred e os elfos.
Nuramon apontou para o navio da ordem, mirando na prancha curta que o ligava ao navio vizinho. Um guerreiro de Tjured tentava chegar ao Estrela dos Albos. Nuramon atirou uma flecha; o tiro fez um grande arco no ar antes de acertar o ventre do homem.
O elfo ficou insatisfeito. Tinha mirado na cabeça! Simplesmente demorou demais para que sua flecha acertasse o alvo. No fim, ainda poderia ter acertado um amigo em vez de um inimigo.
Colocou uma nova flecha na corda. Então aconteceu o que Nuramon temia: um guerreiro aproximou-se furtivamente por trás de Mandred enquanto o humano estava ocupado com dois oponentes à sua frente! Nuramon apontou rápido a arma. Precisava ter certeza de realmente acertar o homem. Um erro e Mandred poderia estar morto. No momento em que o guerreiro inimigo ergueu a espada, Nuramon esqueceu todo o cuidado e soltou a corda. Prendeu a respiração enquanto o tiro voava num grande arco em direção ao alvo.
A flecha atingiu o homem no peito.
Mandred, que percebera o guerreiro em queda, deu meia-volta e aplicou-lhe um golpe de machado que o lançou ao mar. Então olhou admirado ao redor e chamou alguns guerreiros para perto com um sinal. Entre eles, Nuramon reconheceu Liodred, vestindo a armadura de Alfadas. Mandred apontou para cima na direção de Nuramon, mas não pareceu reconhecê-lo. Então indicou os cavaleiros da ordem que os separavam dos guerreiros elfos. Os fiordlandeses no Estrela dos Albos reuniram-se ao redor de Mandred e Liodred. Queriam avançar, mas isso significava ter de lutar entre duas fileiras de inimigos.