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— E o que os impediria de assistir com toda a calma aos seus inimigos se matarem uns aos outros para vocês então acabarem com os sobreviventes?

Orgrim ergueu-se abruptamente.

— Talvez seja assim que um elfo pense, mas não um troll! Seja cuidadoso, Farodin. Mesmo os maiores copos uma hora se enchem.

Diante da rainha

Mandred tirou o elmo e passou os dedos pelo cabelo úmido de suor. Nuramon conduzira Liodred e ele até a popa da galera. O jarl estava orgulhoso por ter amigos como Nuramon. O elfo salvara a sua pele. E uma guerreira que tinha a alma de uma antiga companheira o ajudara nisso. Nuramon a apresentara como Nomja... Nomja, a única! Pela primeira vez, ele vivenciou o que o renascimento significava. Tinha presenciado a morte da elfa e agora via sua alma em uma nova roupagem. Ela estava de pé na proa do navio, abrigada por um escudeiro, fazendo o que sabia de melhor também na sua vida anterior: atirando com um arco!

Os guerreiros elfos estavam tomando de assalto um grande navio, cuja proa acertara em cheio a balaustrada do Brilho Élfico. Parecia que os elfos tomariam o navio em breve.

Sem se atentar ao que acontecia na batalha, Nuramon continuou levando-os até o castelo de popa. A rainha os aguardava na frente dele.

— Mandred! — gritou Yulivee, correndo em sua direção.

O jarl ficou surpreso de ver a pequena feiticeira ali, mas certamente Emerelle sabia o que estava fazendo. Mandred pegou a menina nos braços e a pequena pregou-lhe um beijo na bochecha.

— Que bom que você está aqui! — disse ela, brincando com suas tranças.

Nuramon voltou-se para a rainha:

— Este é Liodred de Firnstayn, e de Mandred você com certeza ainda se lembra.

— Claro — disse Emerelle. — Mas primeiro me informem: como está a batalha?

— No momento estamos ganhando terreno — respondeu Nuramon.

— O inimigo está em maioria esmagadora — completou Mandred, entrando na conversa. — Não conseguimos proteger nossos flancos. Eles tentarão nos cercar. Quantos navios e guerreiros trouxe, soberana? — disse o jarl, pondo Yulivee no chão.

— Mandred Aikhjarto! Como sempre, você fala sem se importar com o fardo do protocolo cortesão! — disse a rainha, sorrindo. — Meu coração se alegra em vê-lo. E me alegro da mesma forma por conhecê-lo, Liodred, rei de Firnstayn. Nós viemos com todos os navios e guerreiros que os elfos da Terra dos Albos puderam convocar. Nós protegeremos as laterais de vocês, e os meus combatentes substituirão os guerreiros esgotados na linha de batalha da barreira de navios. Faça seus homens recuarem, Liodred, e deixe-os recuperar as forças. Nós, filhos de albos, estamos aqui para pagar com nosso sangue a nossa velha dívida.

Liodred curvou-se.

— Nosso descanso será o mais breve possível, logo retornaremos à batalha. O rei deve ficar perto de seus guerreiros, senão eles perdem sua... — foi interrompido por gritos altos de horror.

No meio do navio, um grupo de elfos veio abaixo como se tivesse sido atingido por flechas invisíveis. Alguns se retorciam em agonia, soltando gritos estridentes. Mas a maioria deles já estava deitada e inerte.

Mandred olhou para o navio inimigo do outro lado, e mal acreditou no que seus olhos viram. Havia pouco vislumbrara que os elfos estavam ganhando território, mas agora só havia inimigos de pé ao longo do bastião. Não havia mais lutas em lugar algum do grande navio!

De repente, três guardas caíram no chão bem ao lado da rainha, como se uma forte lufada de vento os tivesse atingido para arrancar a vida de seus corpos.

Apavorados, todos recuaram para estibordo.

— Pelos deuses, o que está acontecendo aqui? — gritou Liodred. Em seu rosto, estava estampado puro horror. — Mas que forma pérfida de matar é essa?

Nuramon arrastou Yulivee consigo. Só a rainha estava como se sob o efeito de um encanto. Continuou imóvel, olhou para o navio do outro lado e sussurrou:

— Então...

Mandred conseguiu ver o que o olhar dela mirou. No castelo de popa do grande navio coca havia um homem de pé, com vestes azul-marinho tremulantes e as mãos levantadas. Parecia um dos monges que tinham visto em Iskendria.

— Emerelle! — gritou Nuramon.

Mestre Alvias pulou na frente da rainha e empurrou-a para trás. Algo pareceu agarrá-lo. Ele cambaleou e pôs a mão sobre o coração. Então caiu aos pés de Emerelle.

— Alvias? — espantou-se a soberana, incrédula, ajoelhando-se ao lado do velho mestre da corte.

Agonizante, Alvias agarrou sua mão. Lutava desesperadamente para dizer algo.

— Perdoe-me a grosseria, minha rainha! — resfolegou ele, com a voz trêmula. — É meu destino fazer... — Seus olhos então ficaram vidrados, e sua respiração parou.

No rosto da rainha primeiro viu-se o choque, mas logo a seguir um sorriso brotou.

Mandred ficou abalado de vê-la sorrir num momento como esse. Será que Emerelle não conhecia mesmo a compaixão? Nem mesmo por seus confidentes mais próximos? O velho mestre dera sua vida por ela e ela agora sorria!

De repente, uma luz começou a brilhar ao redor da rainha. Saiu do corpo de Alvias, rodeou-o e envolveu-o como um pano de seda cintilante. Então a silhueta do mestre começou a desvanecer no brilho prateado. A rainha dos elfos continuava segurando sua mão, mas enquanto os dedos delgados dela continuavam visíveis, os dele foram ficando transparentes. A armadura e a espada do mestre também desbotavam. Por fim, Alvias e o brilho prateado que o cercava tornaram-se um só e a luz se perdeu como fumaça dissipada pelo vento. Nada restou além de um aroma de flores que parecia familiar a Mandred. Ele já o sentira uma vez em Firnstayn, no quarto onde a elfa Shalawyn morreu.

O brilho cintilante ao redor de Alvias devia ter sido o luar. Nuramon e Farodin já haviam falado muitas vezes sobre isso, mas todas as palavras deles não tinham conseguido descrever a Mandred como realmente era. O jarl tinha a sensação de ter sido testemunha de algo divino, de um milagre.

Os outros também estavam profundamente comovidos e até se esqueceram da batalha por um instante. Yulivee olhava de boca aberta para o lugar onde Alvias desaparecera.

A rainha aceitou a ajuda de Nuramon para se levantar.

— Ele me salvou — disse ela. — Então era esse o seu destino.

— O que o matou? — perguntou Yulivee a Nuramon.

Parecia estar com tanto medo que só murmurava.

— Eu não sei — respondeu o elfo.

Mandred olhou para o homem na túnica azul-marinho de monge. A morte de Alvias e sua partida para o luar, tudo isso durara somente poucos momentos. O sacerdote de Tjured agora parecia totalmente esgotado. Estava curvado junto à balaustrada, tendo de se segurar nela com ambas as mãos. Cavaleiros da ordem se apressaram para perto dele para protegê-lo com seus escudos.

“Padres malditos”, pensou Mandred. Esses bastardos já não tinham mais nada em comum com aquele que chamavam de santo, o curandeiro Guillaume. Não era possível se distanciarem mais dos ideais de Guillaume do que... O jarl lembrou-se do incidente em Aniscans. “Por Luth! Não pode ser verdade!”, pensou.

— Você se lembra de Aniscans, Nuramon? — perguntou com a voz meio sufocada. — Do que aconteceu quando chegamos à praça do mercado?

— Por todos os albos! — Com os olhos arregalados de horror, o elfo olhou para o navio coca de lateral alta. — Eles vão simplesmente nos matar, e nem precisarão de espadas para isso.

Com um ruído, uma ponte de abordagem caiu sobre o navio-chefe dos elfos. Já estava formada uma unidade de cavaleiros da ordem para descer por ela. Os sacerdotes e seus guardas deixaram o castelo de popa e juntaram-se a seus guerreiros.

Nuramon dirigiu-se a Emerelle: