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— Rainha, precisamos sair daqui, senão tudo estará perdido.

Liodred apontou a estibordo.

— A parede de escudos na barreira de navios continua de pé, soberana. Nós podemos atravessar por cima dos drácares para chegar a outra galera élfica.

Os poucos elfos sobreviventes a bordo avançaram contra a ponte de embarque para deter os cavaleiros antes que muitos deles conseguissem pôr os pés no navio.

— Mândridos comigo! — gritou Liodred, indicando aos guerreiros o drácar próximo. — O rei exige o seu sangue!

— Rainha? — perguntou Nuramon.

Emerelle somente sacudiu a cabeça. Pegou a mão de Yulivee e observou a pequena elfa, perdida em seus pensamentos. Mandred viu uma única lágrima descer por sua face, como se já chorasse pelo fim de tudo.

Jogo de ossos

Os ossos saltaram sobre a grande mesa com cartas, montada no meio do Marreta dos albos, o navio-chefe do rei dos trolls. Farodin enganchara os polegares no seu cinto de espada e esforçava-se para manter a calma. A maneira como os trolls faziam guerra era estranha para ele, para não dizer pior. Olhou de soslaio para as nuvens de fumaça que subiam do outro lado dos rochedos. Como será que estaria a batalha?

A velha xamã olhou para os ossinhos sobre a mesa.

— A sombra da morte recai sobre Emerelle — disse com voz inexpressiva. — É um humano que a está agarrando com seu poder. Um único homem já matou mais de cem elfos.

Todos os olhos voltaram-se para Farodin.

— Isso... isso é impossível — disse ele. — Nenhum humano jamais superou um elfo na luta. Você deve estar enganada.

— Você diz isso porque é pimenta nos seus próprios olhos, não é? — perguntou Boldor.

O rei dos trolls tinha quase três metros de altura. Grandes cicatrizes cobriam seu torso nu. Suas longas orelhas pontudas haviam sido rasgadas e remendadas. Olhos claros espiavam por baixo de sua testa grossa, encarando Farodin com ar de crítica.

— Jogue os ossos mais uma vez, Skanga!

A xamã obedeceu, com um olhar aborrecido de relance para Farodin. Os ossinhos amarelados e gastos pularam e rolaram sobre a mesa. Skanga entrelaçou os braços na frente do peito.

— É como eu disse: a sombra da morte recai sobre Emerelle. Estou sentindo nitidamente o poder maligno do humano. É o seu tipo de magia que o faz tão mortal. Ele age de forma totalmente diferente dos nossos feitiços. Tira a força do mundo e dos corações dos elfos. É isso o que os mata. Tanto faz que feitiço seja: não se deve ficar perto desse humano.

— Essa magia também mataria trolls? — perguntou duque Orgrim.

— Ela mata qualquer filho de albos!

— E é possível se proteger contra ela com outro feitiço? — acrescentou o duque.

— Não. Essa magia é diferente. Nada oferece proteção contra ela. Contudo, esse feitiço não é capaz de ferir humanos.

Farodin lembrou-se então dos acontecimentos em Aniscans. Haveria um segundo homem como Guillaume? Será que um humano conseguiria se tornar tão poderoso quanto um bastardo meio elfo, meio devanthar?

— E o que você nos aconselha a fazer então, Skanga? — perguntou seriamente o rei dos trolls.

— Quem quer que se atreva a chegar perto do feiticeiro estará cuspindo na cara da morte. No momento, ele está enfraquecido. Mas seu poder cresce novamente a cada batida de coração.

O rei esfregou o punho na testa.

— Deem-me um barco — disse Farodin, decidido. — Eu vou lutar ao lado do meu povo.

Boldor o ignorou.

— O que vai acontecer se intervirmos na batalha?

A xamã lançou os ossos novamente. Dessa vez olhou por um bom tempo para o padrão intrincado.

— Se nós lutarmos, sangue real será derramado — disse.

O rei passou o dedo indicador sobre seu grosso lábio de cima, desconfiado.

— Emerelle e o rei da terra dos fiordes também estão lutando, não é?

— Ambos estão face a face com o feiticeiro terrível.

Boldor golpeou a mesa de cartas com o punho.

— Mas que merda duêndica! — berrou impulsivamente. — Não vamos ficar aqui esperando, assistindo Emerelle e esse rei humano colherem todos os louros sozinhos. Recolham a vela e tripulem os remos! Nós vamos para a batalha. — E apontando para as colunas de fumaça atrás dos rochedos: — Derramem água sobre os conveses. Não quero ver nenhum dos meus navios queimar.

— De que maneira devemos atacar? — perguntou Orgrim.

— À maneira dos trolls! Vamos mandar para o fundo do mar todos os navios que se puserem no nosso caminho.

Mais uma vez os ossos pularam.

— A ala oeste corre perigo. Há algo... — A xamã afastou alguns ossos uns dos outros. — Há algo escondido ali.

O rei ergueu os olhos e apontou para as colunas de fumaça:

— Não preciso da sua ajuda para reconhecer esse perigo, Skanga. Lá, a maioria dos navios está em chamas. Nós vamos ter cuidado e prestar atenção em faíscas que venham pelo ar.

Emerelle em perigo

Estavam em uma luta desesperada. Somente Mandred, o rei Liodred e os mândridos protegiam os elfos de serem cercados pelos inimigos. Os firnstaynenses tentavam abrir caminho no convés para que a rainha pudesse escapar pelo castelo de proa e chegar aos drácares. Uma pequena tropa de cavaleiros da ordem havia atravessado e agora ocupava a plataforma de luta na proa, mas os mândridos tinham conseguido isolá-la do restante de suas tropas. Obilee tentava reconquistar o bastião sobre a proa junto com um punhado de guerreiros elfos. Enquanto isso, os mândridos lutavam para evitar uma segunda invasão dos inimigos e empurrar os cavaleiros da ordem de volta para o seu navio coca.

Emerelle estava cercada por sua guarda. Segurava-se forte na balaustrada, apertando Yulivee contra si. Continuava parecendo distante, absorta em pensamentos.

A contagem de feridos subia, e agora só parecia uma questão de tempo até que a superioridade dos oponentes destruísse as suas fileiras de combatentes.

Nuramon mantinha os olhos no navio coca, mas não conseguia ver o sacerdote. Temia que ele, escondido pelo seu séquito, avançasse lentamente. Assim tão perto quanto a rainha estava, ele poderia extinguir suas tropas e ela com um único feitiço.

Um guerreiro tinha dado a volta em Mandred e agora se aproximava. Nuramon preparou-se e atirou rápido. O inimigo caiu no chão, mas dois outros assumiram o seu lugar. Nuramon reconheceu que os mândridos não seriam capazes por muito mais tempo de empurrar os oponentes de volta até o navio coca; agora faziam tudo o que era possível para deixar passar a menor quantidade deles. A luta pelo castelo de proa da galera também não queria progredir. Cavaleiros da ordem ainda se mantinham lá, bloqueando o caminho para os drácares.

Nuramon atirou, atirou e atirou. Quando um guerreiro desviou de uma de suas flechas e já levantava a espada, o elfo soube que jamais conseguiria pôr outra flecha na corda a tempo. Ergueu o arco para acertar o homem com ele, mas um guarda da rainha veio em seu socorro e brandiu sua lança. A marcha do inimigo terminou na ponta dela. O devoto de Tjured arrancou o cabo da mão do guarda, recuou vacilante e caiu sem vida no chão.

De repente, os arqueiros de Alvemer estavam lá, oferecendo-lhes apoio. Nomja aproximou-se de Nuramon.

— O que foi aquilo há pouco? — perguntou ela.

Nuramon teria preferido se calar. Ele próprio não entendia todo o contexto. Lembrava-se o tempo todo das palavras de Mandred. O jarl lhe perguntara se recordava de Aniscans. É claro que Nuramon não tinha se esquecido de como Gelvuun encontrou a morte nos poderes mágicos de Guillaume.

— Lá há um sacerdote de Tjured! — foi tudo que respondeu a Nomja.

Nuramon olhou ao redor em busca de Yulivee. Estava grudada no braço de Emerelle. O som das armas e os gritos dos feridos faziam a pequena elfa se sobressaltar o tempo todo. Seu rosto estava enterrado no traje da rainha. Obilee estava próxima, e dava apoio à luta dos mândridos com seus homens.