Выбрать главу

O navio dos humanos era bem mais baixo. Farodin conseguia ver os cavaleiros no meio dele erguendo os escudos acima da cabeça. Engatados bem juntos uns dos outros, eles formavam o brasão de uma floresta de árvores mortas. Mas isso não os protegia contra as rochas. Elas batiam sobre os escudos quase na vertical, esmagavam os homens e destroçavam as tábuas do convés. Estalando e se estilhaçando, as rochas desapareciam para dentro do casco do navio.

Ao lado de Farodin, um tiro de besta atingiu a balaustrada. O elfo olhou para cima. Os cestos da gávea do navio coca estavam tomados de besteiros. Uma chuva de projéteis atingiu o castelo de popa. Um tiro acertou a perna do timoneiro, que desempenhava sua função junto ao timão. Ele praguejou. Mesmo assim, ninguém ali fez menção de procurar abrigo. Farodin sabia que para matar um troll com um único tiro era necessária muita sorte. Com ele, contudo, era diferente.

Seu escudo ainda descansava ao seu lado, encostado na balaustrada. O elfo olhou para o duque, calmamente apoiado em seu martelo de guerra. Não, pensou Farodin, não concederia esse triunfo a esses bastardos! Com certeza, todos esperavam que ele se escondesse covardemente atrás de seu escudo enquanto os trolls deixavam os tiros passarem por cima deles. Então apenas se posicionou um pouco de lado, para oferecer aos atiradores uma superfície menor de alvo.

— Nós aprimoramos por muito tempo a tática de ataque com as rochas — disse Orgrim, tão relaxado como se estivesse sentado no Pico da Noite diante de um banquete e não de pé em um convés sob ataque. — Eu gostaria de ver que resultado esse tipo de ataque teria contra elfos. Que eu saiba, os navios de vocês são de constituição leve e têm poucos conveses. Com certeza as pedras atravessariam até a quilha.

— Na verdade, eu acho que não os teríamos deixado se aproximarem de nós o suficiente para o alcance das pedras — retrucou Farodin friamente.

No fundo, contudo, estava contente por nunca ter participado de uma batalha marítima com os trolls.

— Você não quer se proteger? — perguntou o duque, apontando para o escudo na balaustrada. — Só de muito mau grado eu informaria sua morte ao rei Boldor. — O troll sangrava por uma esfolada profunda que se estendia sobre seu crânio calvo. — Ou você acha que é um cabeça-dura como eu?

— Eu acho que nenhum humano vai atirar num elfo cercado de trolls, que são muito mais fáceis de acertar.

Orgrim riu.

— Para um elfo, você até que tem a cabeça no lugar. Uma pena que meu antepassado tenha acabado com a sua mulher e que você tenha jurado vingança eterna contra ele. Só o matarei se, quando a batalha chegar ao fim, nosso pacto de paz terminar.

— E como você pode ter tanta certeza de sobreviver à batalha?

O duque deu um sorriso largo.

— Poucas coisas podem matar um troll. Temos essa vantagem sobre o seu povo.

Farodin preparava-se para uma resposta cínica, mas no mesmo momento uma nova salva dos quebra-conveses atingiu o coca. O estrondo e os gritos dos feridos foram indescritíveis. Riachos escuros de sangue desciam pelo casco do navio.

O mastro principal se inclinou. Fora atingido em cheio por um naco de rocha, bem acima do convés, e agora estava seguro apenas pelos cabos.

O navio dos sacerdotes já estava quase passando pela galeaça. Agora os trolls erguiam as rochas menores ao longo da balaustrada. Como crianças que jogam pedras em um lago, eles arremessaram as rochas para dentro da multidão de humanos. Farodin viu o timoneiro do coca ser atingido no peito e ser lançado contra a parede traseira do castelo de popa. Enojado, o elfo virou-se para não precisar ver mais daquele massacre.

Dez passos

Mandred conseguira subir a ponte de embarque com esforço. Ele e os mândridos tinham avançado até o castelo de proa do navio inimigo. Como uma torre, ele dominava a parte dianteira da embarcação. Somente duas escadas levavam até lá em cima a partir do convés principal. A posição era fácil de manter. Mas os inimigos haviam formado uma parede de escudos e repelido dois de seus ataques.

Furioso, Mandred avançou uma terceira vez. Seu machado chocou-se contra os escudos e cortou cotas de malha. Os mândridos mantinham uma distância respeitosa quando ele brandia sua arma. Mas tanto fazia com que ímpeto ele atacava: imediatamente, as fileiras voltavam a se fechar. Espadas se agitavam nos vãos ou sobre as bordas dos escudos. Rápidas como víboras, elas faziam suas investidas. Os cavaleiros da ordem eram experientes em lutar dessa maneira e não cediam de bandeja nem um centímetro de território. Uma pontada acertou Mandred sobre os quadris. Sangue morno escorreu por sua perna. Coberto pelos escudos dos mândridos, retirou-se de volta para o castelo de proa.

Abatido, olhou por cima do bastião. Entre o navio-chefe da rainha e o grande navio coca inimigo estava passando uma pequena galera. Pelo visto, sua intenção era de vir para acudi-los, para fortalecer as tropas de Emerelle. Mas não havia mais ninguém vivo a bordo. Guerreiros e remadores estavam juntos, jogados sobre o convés, todos vítimas do maldito sacerdote de Tjured!

Era desesperador. A batalha ao redor dos drácares acorrentados também não parecia ir bem. Fiordlandeses e elfos já haviam jogado quase todas as suas últimas reservas na luta. Mas os reforços dos cavaleiros da ordem, por sua vez, pareciam inesgotáveis. Tanto fazia quantos guerreiros eles perdiam; os vazios em suas fileiras logo eram preenchidos novamente.

Liodred achegou-se a Mandred:

— Você está ferido?

— Só um arranhão! — resmungou o jarl, mentindo para seu descendente. A ferida queimava como se não tivesse sido atingido por uma espada, mas um atiçador de lareira em brasa. — São oponentes demais! Nós precisamos nos limitar a manter o castelo de proa. — Olhou de volta para um mândrido jovem e esgotado, que estava encostado no bastião e acompanhava os acontecimentos nos navios drácares olhando por cima do navio da rainha.

— Você conseguirá trazer reforços para nós? — perguntou Mandred.

— Não! Eles estão metidos em lutas difíceis de defesa. Os cavaleiros da ordem estão atacando toda a linha de frente!

— Maldição!

Mandred observou o convés principal do coca. Os inimigos haviam assumido nova formação e agora atacavam novamente. Desafiando a morte, avançaram sobre as duas escadas para o castelo de proa. Um cavaleiro gigantesco os conduziu pelo lado esquerdo, lançando ao chão o mândrido que se pôs em seu caminho. Sua espada rasgou a garganta do jovem guerreiro. Com golpes de escudo, conseguiu encontrar lugar e pôs os pés no castelo de proa. Imediatamente, outros guerreiros o seguiram.

Mandred lançou-se para a frente. Detestava esse tipo de luta. Muito apertado no meio da multidão, não lhe restava lugar para levantar os braços com seu machado. Somente se conseguisse erguê-lo sobre a cabeça conseguiria tirar proveito de sua força total. Mas ele não se atreveria a fazer isso, pois assim seu peito e abdome ficariam desprotegidos e fariam-no descobrir de forma dolorosa qual era a habilidade dos cavaleiros com suas espadas curtas. Carrancudo, limitava-se a atacar com o espigão curto e pontiagudo da arma. Cravou-o no escudo do guerreiro à frente, que gritou. Mandred atingira seu alvo: o braço a que a madeira estava presa por tiras de couro. O cavaleiro da ordem deixou o escudo baixar por um instante. Foi só por um momento, mas o suficiente para atingi-lo mais uma vez com o machado. Com um rangido, o espigão penetrou na abertura dos olhos do elmo inteiriço.

Aproveitando-se da lacuna, o jarl atacou o homem à esquerda, que não estava mais oculto pelo escudo de seu companheiro. O guerreiro ergueu sua espada para defender o golpe, mas a violência do ataque tornou isso impossível. O machado de Mandred cravou-se em seu peito.

O jarl já conseguira avançar quase até o bastião. No convés principal, entre as fileiras de inimigos, viu o sacerdote. Estava a cerca de dez passos de distância. Seu hábito azul-marinho tremulava ao vento.