— Avante! — gritou ele na língua de Fargon. — Precisamos continuar, senão a rainha dos demônios fugirá!
Os cavaleiros da ordem arremessaram-se decididos sobre as duas escadas para o castelo de proa. O guerreiro gigante ainda mantinha-se ao lado do acesso para a escada. Dois mândridos mortos jaziam a seus pés.
Mandred olhou mais uma vez para baixo, para o convés principal. Era impossível se aproximar do maldito sacerdote. Dez passos! Dez passos e tudo estaria acabado! Mas, para dar esses dez passos, precisaria subir no bastião e pular lá para baixo, no meio dos inimigos.
O jarl abaixou-se para desviar de um golpe de espada e acertou o machado no joelho do oponente, atravessando o escudo. O homem caiu no chão aos gritos, tentando cravar a espada na virilha de Mandred. O humano esquivou-se e avançou com o escudo, de forma que sua borda reforçada de ferro bateu contra o elmo do cavaleiro. Sua cabeça foi empurrada para trás, abrindo caminho para o espigão do machado cravar-se na garganta.
Imediatamente, o jarl tornou a olhar para cima. Pular sobre o bastião seria a morte. Talvez conseguisse pagar com sua vida pela fuga da rainha, salvar a Terra dos Albos e as terras do fiorde.
O sacerdote erguera as mãos. Começara novamente a fazer seu feitiço! Mandred olhou às suas costas. Da última vez, o padre estivera pelo menos dez passos para trás. Agora Emerelle estava dentro de seu raio mortal!
De canto de olho percebeu um movimento. O gigantesco cavaleiro da ordem conseguira avançar até ele. Mandred recuou. A espada do cavaleiro tocou seu traje de malha de ferro. A pancada penetrou fundo e atingiu sua canela. Um golpe de escudo arremessou-o para trás. Mãos o agarraram e o arrastaram para a proteção da muralha de escudos dos mândridos. Agora o bastião estava fora de alcance. Devia ter pulado antes!
O hálito da morte
Nuramon caminhava com Nomja sob o convés da galera, em direção à popa. A visão de todos os remadores mortos a estibordo o horrorizou. Os homens e mulheres estavam simplesmente deitados ali, alguns caídos para a frente sobre os remos, outros estavam para trás nos bancos. Não se viam ferimentos; em seus rostos não havia o menor sinal de susto. Não deviam ter sentido nenhuma dor, sequer viram o fim chegar.
Uma pergunta inquietava Nuramon: será que os mortos renasceriam? Por causa de Nomja, sabia que os elfos que morrem no mundo dos humanos são capazes de renascer na Terra dos Albos. E os anões também eram um exemplo de que uma nova vida era iminente para os filhos de albos até mesmo no mundo dos humanos. Mas o feitiço do sacerdote poderia impedir o renascimento? Não tinha pensado nisso quando apresentou seu plano a Emerelle e Obilee. Se não haveria renascimento, sua busca poderia estar terminada com um simples sopro do feiticeiro da morte. Então lembrou-se de mestre Alvias. Ele não havia partido para o luar bem diante de seus olhos? Essa não era a prova de que os sacerdotes não conseguiam exterminar as almas? Só restava ainda a pergunta: quem conceberia ou daria à luz as crianças se tudo estivesse perdido...
Chegaram à escotilha da popa e subiram cuidadosamente a larga escada. Nuramon ergueu a cabeça um pouco para fora do vão para ver como estava tudo no castelo de proa da galera. Para sua surpresa, não havia mais ninguém ali. Os elfos deviam ter vencido os cavaleiros da ordem! Obilee e a rainha certamente já estavam em segurança nos navios drácares. Ele saiu pela escotilha e manteve-se abaixado. Por cima da balaustrada, viu que os fiordlandeses ainda mantinham o castelo de proa do coca ocupado, evitando dessa forma que os cavaleiros da ordem perseguissem a rainha em fuga.
Logo que Nomja saiu pelo vão, ambos caminharam furtivamente até a balaustrada. Mantinham-se abaixados, erguendo suas cabeças só um pouco para observar a luta entre os cavaleiros da ordem e os mândridos.
A coisa não ia bem para os fiordlandeses. De fato, tinham conseguido avançar até o navio inimigo, mas seu caminho terminara ali.
Lá estava Mandred! Lutava na primeira fila do combate. Sempre precisava se arriscar tanto assim! Sua tropa estava enfrentando ao menos cinquenta cavaleiros da ordem. Era só uma questão de tempo até que os mândridos fossem vencidos.
— Ali está o sacerdote! — sussurrou Nomja. — Cercado de guardas com elmos de viseiras.
Nuramon viu o homem. Estava somente a poucos passos de distância de Mandred, próximo à balaustrada do convés principal, e ainda assim fora do alcance do jarl. Nenhum de todos aqueles escudeiros permitiria a sua passagem. E os espadachins deles, que lutavam com espadas curtas, em um espaço menor como aquele tinham vantagem em relação aos grandes machados e às longas lâminas dos mândridos.
Nuramon tomou fôlego e seguiu a balaustrada com os olhos até a proa. Ali estavam deitados inúmeros elfos que o feitiço do sacerdote matara. Nomja e ele agora encontravam-se no círculo que poderia significar a morte. Nuramon estendeu a Nomja quatro flechas dos anões:
— Aqui! Pegue-as!
A guerreira observou as pontas cintilantes das flechas com olhos arregalados.
— Obrigada, Nuramon — disse baixinho, pegando somente duas delas.
Ela estava certa. Não precisariam de mais do que duas flechas. Se o sacerdote continuasse vivo depois de dois tiros, isso certamente seria a morte.
Nuramon colocou uma flecha sobre a corda e esperou que Nomja fizesse o mesmo. Respirou profundamente.
— Agora! — murmurou ele, e os dois se levantaram.
Nuramon mirou no sacerdote do hábito azul-marinho, soltou a corda e pôs a flecha a caminho. O tiro de Nomja seguiu um átimo depois.
Nuramon atingiu o ombro de um dos guardas, que se pusera no caminho por acaso, e Nomja errou o sacerdote por um fio de cabelo. Rapidamente puseram novas flechas nas cordas. Nuramon viu que os guerreiros agora erguiam seus escudos ao redor do sacerdote e que queriam arrastá-lo para um abrigo. Precisava ser rápido, pois caso contrário o sacerdote de Tjured faria o seu feitiço.
Nomja atirou primeiro, mas sua flecha foi desviada pela curva de um escudo. O tiro de Nuramon acertou um escudo em cheio, atravessando-o. O guerreiro por trás dele gritou, caiu para a frente e deixou a visão livre para o sacerdote, que se mantinha um pouco curvado para a frente, mas com as mãos erguidas. Estava fazendo sua mágica. Só mais um tiro! Um tiro! Assim que a abertura deixada pelo guerreiro tombado fosse fechada, tudo seria em vão.
Com muita pressa, Nuramon pôs mais uma flecha na corda. Nomja também puxou outra de seu coldre. O elfo mirou e atirou. A flecha passou grudada na cabeça do sacerdote. Os cavaleiros da ordem e os sacerdotes de Tjured juntaram-se mais e estavam prestes a fechar o vão. Um deles apontou com o braço estendido na direção dos elfos e gritou alguma coisa.
A flecha de Nomja! Chegaria em um instante. Só restava uma fenda estreita na parede de escudos. Nuramon já contava que a flecha se cravaria em um deles, mas aí o inconcebível aconteceu: o tiro desapareceu entre os dois escudos. Nuramon pôde ver o sacerdote lançar os braços ao ar e, em seguida, despencar entre os cavaleiros.
A travessia
De repente, o pânico se alastrou entre os cavaleiros da ordem. Sem que Mandred entendesse o porquê, eles recuaram do castelo de popa de volta para o convés principal. Mesmo o enorme cavaleiro que o importunara terrivelmente havia pouco agora cobria a retirada de seus companheiros em vez de atacar.
— Mândridos! Avante! — bramiu o jarl, avançando contra o escudo do gigante.
Este último perdeu o equilíbrio na escada íngreme e suja de sangue, e então caiu, arrastando vários guerreiros consigo. Mandred os seguiu com um pulo, e pousou sobre o escudo de seu oponente. A travessia estava completa!
O humano enfiou o espigão do machado na garganta do cavaleiro da ordem e ainda conseguiu ver o horror nos olhos dele.