O elfo virou-se. Agora todas as peças se encaixavam e começavam a formar uma imagem clara. Os humanos queriam acender o fogo o mais longe possível da sua própria frota. Fazia parte do plano que os cocas fizessem suas manobras quase fora do raio de alcance dos tiros. Mas por que um dos fanáticos do navio não acendeu ele mesmo a chama com uma tocha? Será que tinham medo de pegarem fogo cedo demais?
— Precisamos nos afastar do barco! — gritou Farodin, correndo em direção ao timoneiro e apontando para os veios furta-cor que boiavam por todos os lados na água. — Não podemos ir parar lá dentro! Faça os remos baixarem de novo. Precisamos seguir viagem imediatamente.
— O que há de errado com você, elfo? — perguntou o duque, surpreso. — Ainda não estamos indo para a batalha rápido o suficiente para você?
— Nunca vamos chegar à batalha se não agirmos rápido!
Orgrim franziu a testa. O corte na pele de sua cabeça abriu novamente. Uma gota de sangue escorreu ao lado de seu nariz largo.
— Vamos baixá-los assim que tivermos passado pelo inimigo. Não podemos nos dar ao luxo de perder mais remos — decidiu o duque, dando meia-volta.
— Pelos albos, Orgrim! Eles roubaram o fogo de Balbar! A arma milagrosa que garantiu às frotas de Iskendria o domínio sobre o Mar Aegílico por séculos! Estaremos mortos se não fugirmos dessa mancha de óleo flutuando na água. Nada consegue apagar essas chamas uma vez que sejam acendidas!
— Eu não vou... — começou o duque, quando uma língua de fogo veio do mar a estibordo.
No mesmo instante, um daqueles dois cocas que haviam atacado mais a oeste abriu fogo. As chamas lamberam de baixo para cima o alto costado do Quebra-ossos. Ao redor do navio, o mar ficou em chamas. Embora o incêndio estivesse a uma distância maior que trinta mastros, Farodin sentiu seu hálito de brasa nas faces. Silhuetas envoltas em chamas lançaram-se do Quebra-ossos para o mar. Gritos estridentes ressoaram sobre a água, que não era capaz de salvá-los do fogo.
A estibordo soou uma batida surda. O mastro do coca que os abalroara enroscou-se na estrutura saliente do castelo de popa do Triturador. Fazendo estalos, os cascos dos navios começaram a se atritar, e a pesada galeaça, que ainda estava em movimento, começou a puxar o navio menor consigo.
— Carpinteiro! — gritou Orgrim. — No convés traseiro. Cortar as vergas! Remos para fora! — Sob o convés ecoou o som ameaçador dos timbales. — Recuar! Remem para recuar!
Orgrim agarrou seu martelo de guerra e caminhou até o bastião para golpear as vergas e cordames que haviam enroscado.
Farodin superou o primeiro susto e correu para acompanhar o duque. Desesperado, começou a bater no cordame. Orgrim tinha amarrado um cabo grosso ao redor do corpo e deixou-se descer junto ao costado para alcançar melhor as vergas do navio coca. A vela abaixada ainda estava mantendo juntos os pedaços da madeira despedaçada. O pano e as cordas haviam enroscado em uma escora de sustentação do Triturador, sob a estrutura do castelo de popa.
Orgrim jogou o pesado martelo de guerra de volta para o convés e agora tentava romper as cordas com as mãos nuas. Seu rosto estava banhado em suor. Ergueu os olhos para Farodin:
— E, então, é a primeira vez que você não quer que eu morra?
O elfo empurrou a espada de volta na bainha e subiu no bastião.
— Eu quero que você pare com esse papo idiota e faça o seu trabalho.
Ele deu um grande salto e começou a bater nas vergas. Suas mãos agarravam-se com força às cordas. Jogou uma das pernas para cima e encontrou uma posição segura. Então puxou um punhal e começou a cortar o tecido da vela com uma determinação incomum.
De repente, Orgrim escorregou para o lado, balançou no ar em sua amarra e bateu com força contra o costado do Triturador. Gritos de alegria soaram na popa. A galeaça tinha conseguido se soltar. Mas Farodin continuava sentado na metade intacta da verga do coca e, a cada batida de coração, aumentava a distância entre ele e o navio dos trolls.
Orgrim jogou-se do costado e balançou-se na direção do coca. Mas a corda era curta demais.
— Pule, elfo maldito! — gritou-lhe o troll, estendendo a enorme mão em sua direção.
Sobre a aglomeração de navios acorrentados, fios escuros de fumaça subiram novamente para o céu. Dessa vez todos os arqueiros pareciam ter mirado ao Triturador.
A revelação
Nuramon havia conseguido prestar apenas os cuidados mais urgentes aos ferimentos de Mandred e Liodred, quando Emerelle retornou à sua galera com Obilee e cerca de cinquenta guerreiros. A nova guarda cuidava da segurança do navio, enquanto os combatentes cercavam a rainha na parte traseira. Yulivee e uma outra jovem elfa foram buscar uma tigela de água na cabine da soberana.
Obilee sussurrou para Nuramon que a rainha havia retornado contrariando os conselhos deles, ainda antes que a notícia da morte do sacerdote tivesse se alastrado. Nuramon não se surpreendeu que Emerelle houvesse descoberto as novidades antes de todos os outros. O olhar dela alcançava longe, mesmo sem o espelho-d’água.
Mandred e Liodred olharam curiosos para dentro do espelho-d’água. Uma imagem vaga surgiu, que parecia nadar sob a superfície. Yulivee teve de ficar na ponta dos pés para conseguir ver alguma coisa. Obilee parecia já conhecer o poder do espelho. Ficou calmamente ali em pé e parecia ter mais olhos para os que estavam presentes do que para o que tomava contornos na água. Nomja, por sua vez, tinha os olhos arregalados. Com certeza era a primeira vez que lhe concediam a honra de olhar no espelho da rainha. O mesmo ocorria a Nuramon.
Através da água, Emerelle conseguia ver todos os lugares do campo de batalha. Do lado de cá da barreira de navios drácares, os combates haviam se acalmado. O espelho mostrou rapidamente a imagem de Pelveric, ajoelhado junto ao cadáver de Dijelon. Nuramon não tinha boas lembranças do morto. Havia sido ele quem a rainha mandara para arrancar Guillaume dos braços de Noroelle e executá-lo. A morte do guerreiro pouco o comoveu.
Emerelle passou as pontas dos dedos na água. A imagem desapareceu, e deu lugar a uma nova. Era Ollowain! No meio da barreira de navios, ele lutava com obstinação para conseguir acesso a um coca inimigo. Muitos fiordlandeses haviam se lançado novamente à batalha e estavam ao seu lado. Era bom que os humanos estivessem participando da luta, pois nos rostos de muitos elfos via-se o medo. O relato do que acontecera no Brilho Élfico estava se espalhando. De fato, a rainha deixara que se alastrasse a notícia de que ainda estava viva e de que o sacerdote tinha morrido, mas era necessário temer a possibilidade de haver entre os inimigos outros sacerdotes com o mesmo poder.
Sob os dedos tateantes da rainha a imagem do espelho se desfez e uma nova cena surgiu. Era um grande navio tomado por chamas claras. Trolls pulavam por cima da balaustrada tentando se salvar, mas até na água havia fogo. A imagem era tão cruel que Emerelle afastou Yulivee de lado, para que não precisasse ver aquele horror.
Nuramon olhou para cima e viu duas colunas de fogo no horizonte. Sentiu-se enjoado. Que tipo de arma era aquela? Estariam os sacerdotes de Tjured queimando a armada troll inteira? Uma terceira coluna de fogo lançou-se para o céu. “Tomara que Farodin não esteja em nenhum desses navios!”, pensou Nuramon. Naquele inferno, a coragem e a habilidade não faziam diferença para escapar da morte.
O quadro no espelho desvaneceu e um novo se formou. Agora o que se via era o navio-chefe do rei dos trolls. Era reconhecível pela bandeira, com dois machados de guerra brancos cruzados em fundo negro. O navio dirigia-se diretamente a um navio de três mastros da frota inimiga.
— Eles não resistirão ao ataque dos trolls — disse Emerelle, com a voz firme.
Nuramon olhou para as chamas no horizonte. A vitória lhe parecera tão próxima!