De tempos em tempos, Emerelle deslizava a mão dentro d’água. Cada vez que fazia isso, um novo local de luta era mostrado dentro do espelho. A batalha ainda não estaria ganha por muito tempo. Os trolls de fato haviam mudado o cenário e o caminho de volta dos inimigos fora interrompido. Mas um único daqueles poderosos feiticeiros de Tjured bastaria para dar uma nova reviravolta nos combates.
— Vamos ver quem é o líder dos inimigos — disse a rainha, olhando para o oeste. — Qual será o navio?
Uma verdadeira floresta de mastros avançava rápido pelo fiorde. Na maioria dos navios dos sacerdotes, as velas haviam sido recolhidas, pois elas só atrapalhavam nas batalhas em que não era possível fazer manobras para desviar do oponente.
Mandred apontou para um dos poucos navios cuja vela não fora retraída.
— Ali, o navio de três mastros!
A rainha tocou a água e uma nova imagem se formou. Mostrava a ponte de um navio, sobre a qual havia um padre.
Assustada, a rainha puxou a mão de volta.
— Ele tem o mesmo poder que o outro? — perguntou Obilee.
— Não! É muito maior... — sua voz baixou até se tornar um sussurro. — Por todos os albos! Então você voltou.
— Quem é esse? — perguntou Yulivee.
Antes que Emerelle pudesse responder, Mandred disse:
— Eu conheço esses olhos azuis!
Também para Nuramon os olhos pareciam conhecidos. O homem era alto e forte, tinha longos cabelos louros e vestia um hábito azul-marinho, como os que os sacerdotes de Tjured já vestiam no tempo de Guillaume.
— É o devanthar — murmurou a rainha.
— Por Luth! — rosnou Mandred, agarrando o machado.
No rosto de Obilee estava estampado o ódio; no de Nomja, o medo. Parecia que a única a não saber o que as palavras da rainha significavam era Yulivee. Ela olhou ao seu redor.
Nesse instante, Nuramon compreendeu por que a fé de Tjured mudou tanto ao longo dos séculos. Como uma religião como a de antes, que pregava o amor e cujos sacerdotes eram curandeiros, tinha podido se tornar uma fé cujos cavaleiros da ordem subjugavam reino após reino e perseguiam tudo o que era desconhecido com um ódio indomável. Agora essa igreja havia mostrado a sua verdadeira face!
De repente, um homem aproximou-se do devanthar: parecia um sacerdote e usava uma máscara dourada, trazendo esculpido um rosto conhecido.
— Ali! — gritou Mandred.
Obilee se encolheu.
— Não é possível! Aquele é o rosto de Noroelle!
— Guillaume! — gritou Nuramon.
— Então é esse o adversário! — disse Emerelle. — Agora tudo começa a se encaixar! Os guerreiros em Aniscans, as mentiras a respeito da morte de Guillaume, o poder dos sacerdotes. Tudo isso está escrito nesses olhos azuis do devanthar, como se fossem uma runa dos albos.
De repente, Emerelle inclinou-se à frente, como se quisesse ver algo mais de perto. Nuramon viu que suas mãos tremiam.
— Vejam! Na mão dele! Uma pedra alba! Pelo esplendor dos albos! Ele está preparando algo grande.
Nuramon observou a pedra fixamente. Não era a opala de fogo da coroa dos dschinns, mas uma pedra preciosa dourada e transparente, com cinco sulcos: um crisoberilo do tamanho de um punho fechado.
Agora tudo fazia sentido. O devanthar era o líder dos sacerdotes de Tjured. Nuramon lembrou-se de todas as novas trilhas que atravessavam Fargon e de seu centro, que ficava na capital do reino, em Algaunis. O demônio estava abusando dos humanos para obter vingança contra os filhos de albos que, certa vez, exterminaram os devanthares. Ou quase. E os humanos em Fargon e em todos os outros reinos subjugados com certeza acreditavam que ele servia ao seu deus Tjured.
A rainha afastou o casaco para trás e soltou uma bolsa que levava presa aos quadris. De dentro dela apanhou uma pedra cinzenta.
O respeito que sentiu por ela sacudiu Nuramon. Pela primeira vez estava vendo a pedra dos albos da rainha, o artefato cujo poder era capaz de realizar o seu desejo mais profundo. Reilif tinha razão. Os sulcos da pedra de Emerelle passavam uns sobre os outros. Era rústica e havia um brilho vermelho como brasa dentro dela. Nuramon não conseguia sentir o seu poder. A magia da rainha o eclipsava e os sentidos dele não iam tão longe para conseguir diferenciar a força de Emerelle daquela que a pedra possuía.
A rainha voltou-se para Yulivee:
— Você precisa prestar muita atenção no que vou fazer, minha elfa! Veja e aprenda!
O velho inimigo
Uma mão forte agarrou Farodin e quase esmagou seu braço. O duque bateu contra o costado quando a corda balançou de volta. O ar saiu de seus pulmões com um assobio. Agora, segurava Farodin com força, quase como uma mãe segura o filho.
— Puxem-me logo para cima, seus imbecis! — gritou Orgrim, colérico.
Farodin viu que os remos sob ele revolviam a água. A galeaça deslocava-se para trás e, a cada batida de remos, distanciava-se mais da mancha de óleo que flutuava.
De repente, ouviu-se uma lufada como a de um dragão enfurecido. Uma forte claridade ofuscou a visão do elfo, que ergueu o braço na frente do rosto para se proteger do calor que o tocava. Orgrim soltou um gemido.
Mãos ásperas agarraram o elfo. Ainda ofuscado, ele sentiu ser colocado sobre o convés.
— Mais rápido! — resmungou Orgrim. — Eles precisam se lançar aos remos! E derramem água sobre o convés!
Piscando, Farodin abriu os olhos. Seu rosto queimava de dor. Tonto, levantou-se e olhou para a água. Flechas de fogo haviam atingido o terceiro navio coca e inflamado o fogo de Balbar. As chamas eram tão claras que não se podia olhar diretamente para elas. O calor atingia Farodin como a respiração de um dragão e, por isso, ele virou-se de costas.
Orgrim estava sentado apoiado na balaustrada, com a velha xamã curvada sobre ele, tateando o seu rosto. Seus lábios estavam arrebentados, e bolhas de queimaduras tinham surgido em sua testa. O duque sorriu, mostrando seus dentes enormes.
— Eu queria que elfos pudessem renascer na forma de trolls. Um guerreiro com a sua alma seria o orgulho do meu povo.
Farodin não respondeu. Orgrim podia pensar o que quisesse. O fato de o duque ter salvo a sua vida não mudava nada no passado. Sob a carne de Orgrim escondia-se a alma do assassino de Aileen. Tanto fazia o que pudesse acontecer: ele jamais veria no troll nada além do guerreiro que lhe arrancara sua amada.
Sob as mãos curadoras de Skanga, as queimaduras desapareceram. O duque se esticou e levantou para examinar o campo de batalha. Cinco navios trolls já haviam avançado até o grande aglomerado de cocas. Centenas de guerreiros atacavam sobre os conveses dos navios da ordem, e abririam caminho até os drácares dos fiordlandeses.
Skanga aproximou-se de Farodin e esticou os dedos ressecados na direção de seu rosto. O elfo recuou um pouco.
— Não parece bom — grasnou ela. — Não tem mais rosto bonito. — A xamã piscou. Pela primeira vez não havia ódio em seu olhar. — Eu sempre ofereço minha ajuda só uma vez.
Farodin então fez que sim com a cabeça e os dedos dela tatearam seu rosto. Deles emanava uma aura fria. A dor desapareceu. O elfo sentiu sua pele se esticar.
De repente, a velha apertou o peito com a mão. Seu corpo todo tremia.
— Ele está aqui — disse sem fôlego. — Ele está usando... — Ela cobriu o rosto com as mãos e soltou um grito estridente.
Farodin também sentia uma dor aguda por trás da testa. Uma ardência percorreu sua pele. Assustado, o elfo levantou os olhos. A cerca de meia milha de distância, o navio-chefe do rei dos trolls dirigia-se a um grande coca de três mastros. Entre os navios, porém, uma nuvem negra abriu-se sobre a água e começou a crescer rapidamente. A estranha aparição parecia engolir toda a luz ao seu redor. A nuvem continuou crescendo. Logo já estava do tamanho de metade do navio do rei.
— O que você está vendo? — perguntou Skanga.
O elfo descreveu a ela o que estava acontecendo. A água na frente da nuvem se remexia como se ali houvesse uma forte correnteza. O navio de Boldor tentava desviar do estranho fenômeno. Posicionou-se de lado, mas a correnteza o puxou para a escuridão. Uma coroa de luz surgiu ao redor de um dos braços de névoa. A escuridão não se espalhava mais, mas também não recuava.