Выбрать главу

— Dê-me os seus olhos! — grasnou a xamã, rouca. — Ninguém consegue ver melhor a distância do que os elfos.

Dedos ressecados fecharam-se ao redor da nuca de Farodin. O elfo se empinou, mas suas forças diluíram-se. Sentia os membros pesados e sem força. Seus olhos... Tudo desapareceu da sua frente! Agora conseguia ver somente uma sombra sobre a água ao longe.

Ele quis se debater, se soltar, mas suas forças não bastavam para fazer as ações obedecerem seus pensamentos. Desesperado, olhou para baixo, para si mesmo. Podia ver seus dedos de forma totalmente nítida, as linhas finas em sua pele. Mas, quando levantava os olhos, o timoneiro já se transformara numa sombra difusa, embora estivesse só a poucos passos de distância.

— O destruidor está aqui — sussurrou a xamã. Suas mãos em garra revolveram os amuletos que pendiam de seu pescoço. — O devanthar. Ele abriu um portal para o nada, para o vazio escuro entre os estilhaços do Mundo Partido. Emerelle está tentando detê-lo. Mas o poder dela não é suficiente. Ele... Mas que força! Ele possui uma pedra alba!

Skanga apanhou um pedaço alongado de jade e afastou para o lado as penas de corvo que mantinham a pedra escondida. Farodin reconheceu na pedra cinco linhas que se encontravam formando uma estrela. Será que essa velha bruaca tinha mesmo uma pedra alba? Seria ela a guardiã do maior tesouro de seu povo?

De dentro da pedra vinha um brilho. Skanga começou um canto oscilante, que ficava mais forte e mais fraco, e era formado só por sílabas isoladas.

Gritos amedrontados vieram do convés principal. Farodin piscou, desamparado. Não conseguia mais ver o que acontecia no mar diante dele!

— O que está acontecendo lá fora? — gritou, desesperado. — Diga-me, eu não consigo ver nada!

— O navio de Boldor foi puxado para dentro da escuridão — respondeu o duque em voz baixa. — Agora, um pequeno coca que caiu na correnteza está desaparecendo. É como se a água estivesse caindo em um abismo.

Farodin lembrou-se de como caminhou com seus companheiros pelo vazio, nas trilhas albas luminosas. Também lembrou-se do medo que sentiu ao fazer isso, e da pergunta inquietante: se alguém morresse ali, sua alma estaria perdida para sempre?

A cantoria da xamã transformou-se em guinchos estridentes. Ela afrouxou um pouco a mão no pescoço do elfo, mas Farodin não tinha mais energia para lutar contra ela.

— Mais uma galeaça troll desapareceu — disse Orgrim. — Até mesmo aqui a bordo já consigo sentir a correnteza puxando-nos para o abismo. Agora, a névoa negra está começando a se dissipar. Um círculo de luz está circundando a escuridão. O claro e o escuro estão lutando um contra o outro. Raios estão cortando as trevas. Estão arrancando pedaços da escuridão. Ela está se desfazendo...

A xamã respirou com dificuldade e então soltou o elfo totalmente. De repente, Farodin voltou a ver com clareza. A nuvem negra sobre a água havia desaparecido.

— O portal foi fechado.

As rugas no rosto de Skanga tinham se tornado mais profundas. Apoiava-se pesadamente na balaustrada.

Nos drácares, soaram gritos altos de alegria. Os trolls haviam avançado até os defensores e agora se juntavam aos humanos e elfos.

— Vitória! — gritou Orgrim entusiasmado, erguendo seu martelo de guerra para o céu. — Vitória!

Alguns cocas desvencilharam-se da aglomeração de navios acorrentados uns aos outros. Os cavaleiros da ordem tentavam escapar desesperadamente dos trolls, que agora eram maioria.

Na frente dos rochedos a oeste, uma esquadra inteira de navios inimigos mudou de curso e começou a rumar para a saída do fiorde. Entre os fugitivos, Farodin viu o navio-chefe. Mas os trolls da unidade da frota do rei já estavam próximos. Com uma chuva de pedras mortal, eles aniquilavam todos os navios que chegavam perto deles.

— Estou sentindo o medo dele — soou a voz rouca de Skanga. — A rainha iniciou um feitiço que pode matá-lo. É a mesma magia com que os albos prevaleceram sobre os devanthares na guerra. Ele está tentando criar uma nova estrela.

Flechas de fogo foram atiradas da esquadra de cocas em fuga. Uma parede de chamas cresceu na água e incendiou vários navios. Farodin ficou chocado. Para os humanos, agora parecia não fazer diferença se estavam entregando seus próprios companheiros às chamas. As galeaças dos trolls recuaram. Duas delas, contudo, tornaram-se vítimas do fogo. Uma brisa espalhou uma fumaça mordaz sobre o mar. Fedia a óleo, carne queimada e alguma outra coisa que, ao menos para os elfos, era estranha e familiar ao mesmo tempo.

— Está sentindo esse cheiro? — perguntou Skanga. — Enxofre! Esse é o cheiro do enganador.

Farodin lembrou-se de já ter sentido aquele cheiro uma vez, na ocasião na caverna de gelo. Mas lá tinha sido mais fraco.

O duque dos trolls praguejou efusivamente contra a fuga covarde dos inimigos e referiu-se ao devanthar com expressões que mesmo Farodin ainda nunca tinha ouvido.

— Fique feliz se nunca tiver de o encarar olho no olho, Orgrim. Não há inimigo mais assustador. Ele é o mestre da enganação. Estou sentindo que agora está abrindo o portal para se retirar. Nós vencemos esta batalha. Mas quem sabe? Talvez ele tenha estado aqui só para nos induzir a persegui-lo, atraindo-nos, assim, para a ruína.

Farodin apontou para a enorme armada ao seu redor.

— Ele está sacrificando tudo isso para nos atrair para uma perseguição? Não, isso é absurdo! Ele veio para destruir Firnstayn e conquistar o norte. Ele não contava com a nossa aliança. E... — O elfo hesitou por um instante. — Foram os trolls que por fim nos trouxeram a vitória. Perdoem-me se eu duvidei de vocês.

A velha ignorou suas desculpas.

— Se você acha que é capaz de entender os planos e artimanhas de um devanthar, então já caiu na sua trama. Navios e alguns milhares de vidas humanas não significam nada para ele! Agora nós vencemos, mas a luta apenas acaba de começar.

A crônica de Firnstayn

... E assim nossa cidade e o reino foram salvos. Humanos, elfos e trolls venceram a frota dos sacerdotes de Tjured e forçaram a fuga de seu líder demoníaco. Jamais a noite da vitória será esquecida. Firnstayn estava claramente iluminada; por todos os lados queimavam fogueiras, homens e elfos dançaram juntos. Os trolls festejaram a vitória em seus navios e trovões ecoaram até Firnstayn. Entre eles, porém, houve muitos que naquela noite choraram os mortos em combate. Eles rezaram pelos que perderam a vida e orgulharam-se por terem contribuído com sua parte para a grande vitória.

Até mesmo a rainha dos elfos Emerelle veio à nossa cidade. Nunca se vira tanta graça em uma elfa. Ela caminhou formosamente pelas ruas de Firnstayn e dirigiu a palavra a muitos dos humanos. O modesto escriba destas linhas pôde, ele mesmo, desfrutar as palavras dela: “É você a memória deste reino? Então guarde isto: o destino das terras do fiorde estará para sempre ligado ao da Terra dos Albos”. E, assim, isso agora é assentado nestas linhas.

Quando a manhã chegou, Mandred e o rei Liodred já não estavam mais lá. Os elfos disseram que haviam partido para matar o líder dos inimigos. Então todos tememos por nosso rei, pois seu filho ainda estava longe da idade correta para a sucessão do trono, caso o pior acontecesse. Mas também estávamos orgulhosos dele. Agora outro firnstaynense terá participado de jornadas ao lado dos elfos. Que Luth teça para todos eles uma boa trama!

Registrado por Tjelrik Aswidson, volume 67 da biblioteca do templo de Firnstayn, p. 45

Longe das celebrações

Era noite e Nuramon caminhava ao lado de Obilee ao longo da praia. Firnstayn, os navios e até mesmo os bosques do fiorde estavam iluminados pela fogueira dos acampamentos, lampiões e as pedras de barin dos elfos. Os homens celebravam com os elfos; somente os trolls permaneciam entre si, sem deixar seus navios. Seus timbales, contudo, podiam ser ouvidos a grande distância, e o cheiro de carne assada arrastava-se por toda a costa.