Haviam conseguido uma grande vitória. Alguns festejavam animadamente; outros tinham perdido parentes e amigos e choravam por eles. Os corpos dos humanos haviam sido amortalhados no templo de Luth e nos salões contíguos. Os elfos mortos já tinham sido cremados. Afastadas da cidade, as piras funerárias ainda ardiam.
— Você realmente quer arriscar fazer isso? — perguntou Obilee.
— Sim — disse Nuramon. — O devanthar causou a ruína de Noroelle. Tornou-se um perigo para os humanos e também para a Terra dos Albos. Além disso, ele tem uma pedra alba.
— Mas pense em como é arriscado!
— Você se arriscaria menos por Noroelle?
— Não. Mas um devanthar...! Como querem vencê-lo?
— Encontraremos um caminho. De toda maneira, ele certamente está contando com tudo, menos conosco.
— Talvez eu devesse acompanhá-los. O rei Liodred também se juntou a vocês.
— Quanto a Liodred, trata-se de gosto por aventura e admiração por Mandred. Um rei que parte com seu antecessor em suas viagens lendárias! Não, Obilee. Esse não é o seu destino. O seu lugar é junto da rainha. Não parta para seguir nosso triste caminho. Talvez você consiga com a fidelidade aquilo que estamos tentando alcançar com a desobediência. Talvez um dia a rainha liberte Noroelle por amor a você.
— Está bem, Nuramon. Eu vou ficar. — Ela sorriu. — E direi a Yulivee que teremos de esperar por você juntas. Ela sentirá muito a sua falta.
— Temo que ela possa fazer uma besteira.
— A rainha não permitirá isso. Ela ama a pequena tanto quanto você.
Nuramon sabia que as habilidades de Obilee poderiam ser de proveito inestimável para eles durante a busca pelo devanthar, mas o simples fato de pensar que todos que se mantinham leais a Noroelle poderiam morrer de uma só vez era insuportável para ele. Talvez fosse egoísta manter Obilee afastada do seu caminho, mas a certeza de que ela permaneceria ao lado da rainha como a grande guerreira que era poderia dar-lhe forças.
Agora aproximavam-se da fogueira onde antes haviam estado sentados com Farodin e Mandred. Nomja, Yulivee e Emerelle tinham vindo com seus guardas. Para a surpresa de Nuramon, Ollowain também se juntara a elas. Hoje ele tinha visto os guerreiros elfos somente a distância. Havia cumprido sua convocação com toda a honra e lutado como um dragão.
Yulivee veio andando na direção de Nuramon. Ele agachou-se e enlaçou a elfa com os braços.
— Eu também quero ir — disse ela.
— Isso não é possível. A rainha precisa de você aqui — respondeu ele.
— Ela vai dar conta sem mim.
— Não, Yulivee. Ela com certeza ficaria muito desapontada.
— Eu pensei que fôssemos irmãos.
— A minha casa já está vazia há muito tempo e Felbion com certeza vai se sentir solitário. Alguém precisa cuidar dele e também dos cavalos de Mandred e Farodin. E eu gostaria de saber que a casa e os cavalos estão nas melhores mãos. Eu contei-lhe sobre Alaen Aikhwitan, lembra-se? Ele se sente sozinho.
— Mas assim eu também vou ficar sozinha.
Obilee acariciou a cabeça de Yulivee.
— Não, eu vou estar lá para fazer-lhe companhia. E não se esqueça de Emerelle.
A pequena feiticeira parecia preocupada. Encarou Nuramon com grandes olhos.
— E se você não voltar? O que vai acontecer comigo se você morrer?
— Então, em algum momento vai nascer um irmãozinho chamado Nuramon. E você vai ter de cuidar dele.
Yulivee sorriu e beijou Nuramon na testa.
— Então eu vou ficar... e vou aprender alguns feitiços com Obilee e com a rainha. — E voltando-se para a guerreira: — A gente podia viver grandes aventuras. Yulivee e Obilee! Isso soa bonito. Nós podemos ser amigas. Eu nunca tive uma melhor amiga. Já li sobre isso e sempre quis uma para mim.
Obilee apertou a pequena contra o corpo e sussurrou algo em seu ouvido. Yulivee fez que sim com a cabeça. Juntas as duas se reuniram aos demais.
Farodin, de pé ali ao lado, parecia decidido. Mandred tinha as mãos nos ombros de Nomja. Pelo visto, acabara de se despedir dela. Liodred ergueu-se e vestiu seu cinto de armas.
A rainha concedera a todos eles a honra de curá-los. Certamente Emerelle não sentia dores ao fazer isso. Agora estava em pé junto à água, olhando para os navios no fiorde lá fora. Parecia estar mergulhada em pensamentos. O vento tremulava seu vestido cinzento e agitava seus cabelos.
— Você está pronto, Nuramon? — perguntou Mandred, aproximando-se dele. — Você está com suas armas?
— Sim.
Ele apanhou seu arco e a aljava com as flechas que restaram. A espada longa, assim como a bainha e o cinto de armas, ele desenrolou de dentro de um tecido. Eram as armas que recebera dos anões. Na sua vida anterior, matara um dragão com elas. Talvez também pudessem dar resultado contra o devanthar.
A rainha virou-se e se aproximou do fogo.
— Meus filhos de albos, a hora chegou. O devanthar está esperando por mim, pela xamã Skanga ou por outro portador de uma pedra alba. Todos os seus sentidos estão direcionados para isso. Se eu me juntasse a vocês, ele tomaria conhecimento de mim cedo demais. Então vão sem mim, porque assim talvez consigam surpreendê-lo. Agora tudo está preparado. Alguns voluntários da minha guarda irão acompanhá-los, para manter os cavaleiros da ordem longe de vocês. Mas o devanthar vocês terão de enfrentar sozinhos.
— Onde poderemos encontrá-lo? — perguntou Farodin. — Devemos seguir o caminho por onde ele escapou?
— Não, é uma armadilha. A trilha simplesmente termina no meio. Vocês surgiriam no meio de uma montanha e imediatamente estariam mortos. Eu observei no espelho-d’água os diferentes caminhos que estão abertos. Tanto faz qual vocês escolham, a sombra da morte está sobre vocês. Eu também estudei a rede de novas trilhas albas aqui no mundo dos humanos. Vocês devem chegar a um mosteiro nas montanhas próximas a Aniscans. Eu abrirei um caminho até lá para vocês. Fiquem atentos, pois não há muito tempo. Chegarão por uma estrela na qual imediatamente devem abrir um portal para o Mundo Partido. Lá vocês encontrarão o devanthar.
— Mas seremos capazes de vencê-lo com nossas armas? — perguntou Liodred.
— Segurem suas armas dentro do fogo! — respondeu a rainha.
Farodin pôs sua espada e seu punhal nas chamas e Liodred fez o mesmo com seu machado. Quando Mandred e Nuramon ergueram suas armas, a rainha os deteve:
— Nuramon, Mandred! Vocês não!
O elfo guardou a arma. Ele sabia que sua velha espada longa era mágica, conforme percebera quando ainda estava junto dos anões. No arco e nas flechas também havia magia. Ele se perguntava se a arma de Gaomee também estava tomada com ela.
Nuramon trocou um olhar com Mandred. O jarl fez uma cara admirada e olhou para Ollowain. No rosto do guerreiro estava estampado um grande sorriso. Ele certamente soubera o tempo todo que o machado de Mandred também era mágico. Nuramon não havia sentido nada disso. Pelo visto, o feitiço estava bem oculto, o que poderia ser uma vantagem na luta contra o devanthar.
A rainha fez um sinal para Obilee se aproximar.
— Você deve pôr o feitiço nas armas. Sua magia é desconhecida dele.
A guerreira aproximou-se do fogo e puxou sua espada. A arma impressionava Nuramon. A lâmina era totalmente adornada com runas e o arco do guarda-mão parecia formar um intrincado símbolo mágico. Obilee segurou a espada sobre o fogo, junto com as armas de Farodin e Liodred. Ouviu-se um sibilar baixo e as chamas brilharam mais claras. Então se tornaram azul-claras, lambendo avidamente as lâminas. Obilee fitava sua espada com concentração. Houve um estalo e fios relampejantes de luz estenderam-se de sua lâmina para as armas dos dois guerreiros. As runas na arma de Obilee começaram a brilhar em brasa. A guarda que rodeava sua mão também reluzia. A cada batida de coração, a força da lâmina de Obilee saía através dos fios de luz, que agora estavam inchados como cordões, e entrava pelas espadas dos companheiros. O poder era tão grande que Nuramon conseguia senti-lo como uma lufada de ar. Finalmente, Obilee puxou sua espada de volta e, assim que o brilho desvaneceu, deixou-a deslizar para dentro da bainha. A feiticeira espadachim afastou-se e deu espaço à rainha.