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O brilho nas armas de Farodin e Liodred se esvaiu à medida que as chamas azuis da fogueira voltavam a ficar vermelhas.

— Peguem suas armas! — disse Emerelle.

Os guerreiros ergueram as espadas cuidadosamente e as examinaram como se tivessem acabado de ganhá-las de presente. Se antes Nuramon sentira tanta força durante o feitiço, nelas agora mal se percebia qualquer traço de magia. Era esse o segredo de um bom feitiço de armas. Assim, o oponente só percebia tarde demais o poder de dentro da espada.

— Agora todos vocês têm armas que contêm magia — avisou a soberana. — Vocês irão levá-las em meu nome, mas também em nome dos humanos das terras do fiorde, além da sua própria causa. Apresentem-se a mim!

Mandred, Liodred, Farodin e Nuramon obedeceram. Então ela prosseguiu:

— Vocês enfrentarão um inimigo que é digno de um albo. E terão somente uma oportunidade de vencê-lo.

— Mas isso poderá dar certo? — perguntou Nuramon.

— Sim, Nuramon. Vocês todos têm seus motivos para participar dessa luta. E serão fortes quando estiverem diante do inimigo. Pois somente uma arma mágica é capaz de matá-lo e impedir o seu renascimento. — Emerelle deu um passo adiante. Beijou Liodred na testa. — Não tema pelo destino do seu reino! Antes de meu povo retornar para a Terra dos Albos, apadrinharei o seu filho, com a sua permissão. Assim ninguém ousará negar o trono a seu sangue enquanto você não estiver em Firnstayn. — E aproximando-se de Mandred, depois de também beijá-lo: — Mandred Aikhjarto! Lembre-se do homem-javali e do que ele tirou de você. Chegou o dia da vingança. — Ela achegou-se a Farodin e Nuramon, e examinou os dois. Então beijou ambos na testa e disse: — Pensem em Noroelle! Nada dará mais força a vocês.

Então os outros se aproximaram e se despediram deles. Como de costume, Ollowain tratou-os de forma fria e distante. Nomja, por sua vez, acariciou a face de Nuramon e sussurrou:

— Para mim é como se já nos conhecêssemos há uma eternidade.

Nuramon lembrou-se dos anões e do seu culto à memória. Talvez devesse ter contado a Nomja sobre ele. Mas agora era tarde demais para isso. Obilee beijou-o na testa como a rainha fizera antes. Não disse nem uma palavra, mas em seu rosto estavam estampadas a tristeza e a dor. Ficaria aflita por ele, isso era certo. Mas ela seria uma confidente preciosa para a rainha. E se ele e seus companheiros fracassassem, talvez ela conseguisse realizar ao lado de Emerelle o que havia sido impossível para eles.

Por fim, Nuramon pegou Yulivee nos braços.

— Faça o que a rainha disse. Pense em Noroelle quando estiver frente a frente com o devanthar! — disse ela.

Ele a pôs de volta no chão e a contemplou demoradamente.

— Vá, irmão! — exortou ela, parecendo tão séria ao fazer isso como ele jamais a vira antes.

Será que sabia de alguma coisa? Teria a rainha se aberto com ela? Ou será que a pequena feiticeira tinha até ousado olhar no espelho-d’água da rainha por conta própria?

— Mantenham-se a postos! — disse Emerelle.

Os doze voluntários juntaram-se a Nuramon e seus companheiros. Estavam armados com alabardas e espadas e levavam ainda um equipamento de proteção mais pesado do que era de costume para guerreiros elfos. Todos eles vestiam balaclavas guarnecidas de ouro e armaduras maciças de peito. Não restavam dúvidas: ninguém seria capaz de protegê-los melhor do que os guardas da rainha. Só um número muito maior de cavaleiros da ordem conseguiria subjugar esses guerreiros.

Emerelle tirou a pedra alba de uma bolsa simples de couro presa a seu cinto. Os olhos de Farodin brilharam ao vê-la. E Nuramon também ficou profundamente tocado por ter novamente aquela visão.

A rainha fechou os olhos e disse palavras inaudíveis. Nuramon sentiu uma magia poderosa o cercando. Trilhas albas soltaram-se no ar. De repente, estavam simplesmente ali, como se o feitiço da rainha fosse um simples estalar de dedos. Na maioria das vezes, as grandes magias pareciam simples — foi isso o que a mãe dele um dia lhe ensinou.

Ao lado de Emerelle agora se cruzavam cinco trilhas, e subitamente uma luz radiante cresceu da estrela alba. Era o portal por onde passariam.

— Guardas, protejam a trilha! — gritou a rainha. — Rápido! Cada instante é valioso!

Os voluntários avançaram e desapareceram na luz.

Nuramon trocou olhares rápidos com Mandred, Farodin e Liodred. Nas feições deles estava estampada a determinação. Seus companheiros estavam prontos para correr o último grande risco. E ele também estava. Se vencessem o devanthar, tudo poderia estar ganho.

— Agora vão! — disse a rainha.

Nuramon pisou para dentro da luz ao lado de seus companheiros. Olhou mais uma vez para trás e viu Yulivee, Obilee e Nomja sumirem devagar. A rainha, contudo, ainda se dirigiu a eles, com a voz cada vez mais baixa:

— Estamos no despertar de uma nova era.

O portal

— Ocupem todas as saídas! — ordenou Farodin aos guardas.

Encontravam-se em uma sala alta de pedra cinzenta, parcamente iluminada à luz de velas. Sobre eles, estendia-se uma engenhosa abóbada cruzada. Um leve aroma pairava no ar e ouvia-se um canto solene em algum lugar ao longe. Estavam de pé no meio de uma estrela dourada, rodeada por quatro discos de prata.

Mandred olhou preocupado para Liodred. O rei estava lívido como um morto. Pelo visto, os poucos passos que deram no vazio sobre a trilha dos albos haviam-no horrorizado profundamente. Mandred deu-lhe um cutucão amigável com o cotovelo.

— Tudo em ordem?

Liodred engoliu em seco, esforçando-se para se recompor.

— É claro!

Ele mentia muito mal, pensou Mandred. Era um homem valente! Ainda à noite tentara dissuadi-lo de acompanhá-los na luta contra o devanthar. Mas o rei não quisera ouvir.

— Você quer assumir o comando sobre os guardas? — perguntou Mandred, agora em voz baixa. — Para mim seria bom saber que você está garantindo a nossa retirada.

O rei deu um sorriso forçado.

— Acho que os elfos não ficariam muito contentes que um humano lhes dê ordens. Desista de me desviar do meu caminho.

Mandred pensou no filho pequeno de Liodred e lembrou-se de Alfadas. Um pai que só conhecera seu filho quando adulto. Algo assim não poderia acontecer mais uma vez! O rei merecia um destino piedoso.

— Talvez você devesse...

— Não, com certeza, não — interrompeu o rei. — Você hesitou ao partir para caçar naquela noite de inverno, quando lhe contaram que um monstro estava causando o terror nas florestas próximas a Firnstayn? Você não teve a sensação de que, na posição de jarl, era obrigação sua proteger o vilarejo? Você algum dia teria transmitido essa obrigação a outro homem?

— Eu era só um jarl. Você é rei. O seu povo precisa de você!

— Sendo rei ou jarl, as obrigações são as mesmas. Assim como você protegeu o seu vilarejo, tenho um reino para proteger. Se o devanthar sobreviver, ele nos atacará novamente. Estou aqui para manter a desgraça longe de todos os fiordlandeses. Não posso me esquivar desse dever. Nas batalhas, os seus herdeiros sempre lutaram na primeira fileira, Mandred. Eu não serei o primeiro a quebrar essa tradição.

Um portal de luz dourada se abriu. Mandred desistiu de tentar convencer o rei. E, no fundo, concordava que não agiria de forma diferente se estivesse no lugar de Liodred. Iria manter-se ao seu lado durante a luta e tentaria protegê-lo da melhor forma que conseguisse.