Juntos eles atravessaram o portal, e foram parar em... Uma abóbada cruzada de pedra cinzenta. Mandred olhou em volta, atônito. Ainda estavam na mesma sala! Velas ardiam em grandes suportes de ferro, provocando sombras que deslizavam, bruxuleantes, pelas paredes. Eles estavam de pé sobre uma estrela dourada rodeada por quatro discos prateados.
— O feitiço falhou? — perguntou Mandred admirado.
Nuramon parecia inseguro.
— Não, não pode ser. Eu senti que atravessamos o vazio para dentro do Mundo Partido.
— Nossos guardas desapareceram — disse Farodin calmamente. Sua mão repousava sobre a espada. Desconfiado, espiou para dentro das sombras.
— Vocês chamam essa criatura de enganador, não é? — disse Liodred. Sua voz soava rouca, e em cada um de seus gestos se percebia o esforço com que escondia seu medo. — Talvez isso seja um truque que ele está usando para confundir o inimigo...
— Isso combinaria com ele — murmurou Mandred. — Bastardo maldito! — disse, acariciando a folha do machado. — Espero que ele esteja aqui, e que desta vez o mandemos mesmo para o espaço.
O portal desvaneceu devagar. Depois de poucos instantes, já tinha desaparecido totalmente. Farodin sinalizou que o seguissem. Adentraram um corredor ladeado por nichos profundos. Lá havia insígnias, armas suntuosas e escudos ricamente adornados. Sobre alguns suportes havia armaduras com marcas visíveis de luta. Mandred descobriu uma estátua que se parecia com o gallabaal de Iskendria, mas feita de pedra mais escura. A estátua estava presa por correntes pesadas, com as pontas enganchadas em argolas de ferro na parede. Mandred tateou as grossas correntes. Esperava que aquele gallabaal tivesse partido o crânio de muitos cavaleiros da ordem.
— Largue isso — sussurrou Farodin, puxando-o um pouco para trás. — A magia dele ainda não está totalmente apagada.
Uma das correntes tilintou. O ruído pareceu desproporcionalmente alto devido ao silêncio em que estavam.
— O que é isso? — perguntou Liodred com um murmúrio.
Mandred começou a explicar ao rei o que era aquele guarda de pedra, mas um grito o interrompeu. Nuramon, por sua vez, ajoelhou-se na frente de um dos nichos, como se uma flecha o tivesse atingido.
— É ela! — gritou, arrebatado. — Ela está aqui!
Com o machado erguido, Mandred correu para perto do companheiro, pronto para enfrentar o que quer que fosse que estivesse escondido no nicho.
Therdavan, o escolhido
Farodin teria sido capaz de dar uma bofetada em Nuramon. Se havia guardas ali, com certeza tinham sido alertados pelo impensado grito de alegria do companheiro.
Virou-se irritado. Poucas semanas antes, teria arriscado sua vida pelo tesouro que havia no nicho. Agora mal tinha olhos para ele. Desconfiado, observou o corredor acima. A luz inconstante das velas fazia sombras dançarem no alto das paredes. O devanthar poderia estar escondido em qualquer um dos muitos nichos diante deles. Também poderia estar à espreita atrás do alto portão de bronze no fim do corredor. Ou atrás deles!
Um suor gelado correu pelas costas de Farodin. Ele arriscou um segundo olhar para dentro do nicho na frente do qual Nuramon estava ajoelhado. A coroa que descansava ali era a joia mais magnífica que já vira. Lembrava um pouco uma fortaleza dourada, cujas sacadas e janelas eram preenchidas por grandes pedras preciosas. E o portão da fortaleza era uma opala de fogo do tamanho de um punho.
— Essa é a coroa dos dschinns? — perguntou Mandred respeitosamente. — Com esse monte de pedras enormes daria para comprar um principado inteiro nas terras do norte.
Nuramon agora estava de pé, bem próximo da coroa. Seus dedos tocaram a opala de fogo.
— Volte para cá! — sussurrou Farodin. — Isso tudo está cheirando a armadilha.
Nuramon virou-se.
— Esta pedra alba não tem mais valor. Agora eu sei por que o dschinn não conseguiu encontrá-la. A opala de fogo se quebrou. Ela perdeu todo o seu poder. — No rosto do companheiro via-se um sorriso forçado. — Isso só tem uma coisa de bom. Agora podemos ter certeza de que o devanthar jamais esteve na biblioteca dos dschinns. Portanto, não conhece os segredos do futuro.
Um riso efusivo fez Farodin se sobressaltar. Cheiro de enxofre pairava no ar. Com a mão na espada, ele andava para lá e para cá. O alto portão de bronze abriu-se silenciosamente. Junto a ele havia um homem de meia-idade vestindo a túnica azul-escura dos sacerdotes de Tjured. A expressão de seu rosto era franca e amigável. Os cabelos longos e louros desciam-lhe até os ombros. Seus olhos azul-claros brilhavam como o céu em uma manhã de verão.
— Não preciso de nenhuma biblioteca de dschinns para saber sobre o futuro de vocês. Na verdade, eu deveria estar ofendido. Estava esperando Emerelle ou, pelo menos, Skanga. Por outro lado, com o nosso novo encontro o círculo se fecha, e isso dá à nossa história a harmonia dos poemas épicos. — Apontou para Liodred: — Eu proporia que mantivéssemos o homenzinho fora de tudo isso. Assim sobrará alguém para retornar e contar sobre o destino de vocês. Ele não esteve na caverna de gelo. Acho que atrapalha o encaixe das peças deste reencontro.
Farodin puxou o cabelo para trás e prendeu-o com uma tira fina de couro para que não caísse em sua testa. Ignorando as palavras do homem, alertou a si mesmo em pensamento. Antes da luta de espadas havia a luta no coração. Se ele aniquilasse a esperança deles na vitória, o duelo estaria decidido antes que as armas fossem sacadas.
— Quem é esse padre presunçoso? — perguntou Liodred bruscamente. Suas bochechas estavam coradas de raiva. — Me deem licença de fazê-lo calar esse bico.
Mandred deteve o rei, sussurrando-lhe alguma coisa ao ouvido.
— Oh, por favor, perdoe-me. — O devanthar esboçou uma reverência. — Entre os humanos eu sou Therdavan Scallopius, o escolhido! O primeiro dos sacerdotes de Tjured. Os elfos, em contrapartida, temem a mim como o último do meu povo. Eu sou um devanthar, Liodred. Eles também me chamam de mestre da enganação, e têm ainda uma centena de outros nomes difamadores para mim. Como você está vendo, a luta que será decidida aqui não é sua, humano. Então recue agora e continue vivo.
Farodin se alongou para soltar os músculos dos ombros.
Liodred parecia desnorteado. Sua mão repousava no cinto, sobre o machado.
— Eu compreendo. — O devanthar sacudiu a cabeça casualmente. — Eles contaram a meu respeito e você estava esperando um monstro. Uma criatura metade homem e metade javali, talvez? Não lhe explicaram que eu troco de feição quando e como quiser? — Fez um breve silêncio, como se realmente esperasse resposta. — Ah, então eles esconderam isso de você — prosseguiu finalmente o devanthar. — Isso é mesmo embaraçoso demais. — E apontando para Nuramon: — Certa vez fiquei tão parecido com esse aí que nem mesmo a donzela dele percebeu qualquer diferença. Dividiu o leito comigo com prazer. — E, com um sorriso malicioso: — A história fica ainda mais picante se levarmos em conta que, ao Nuramon de verdade, ela jamais proporcionara essa graça. Nele falta alguma coisa que eu tenho por natureza. Não se pode explicar de outra forma que essa mulher tenha aberto os braços para mim com tanta boa vontade. Ela foi a primeira de muitas que usei para que dessem à luz um bastardo que, apesar de mestiço, acabasse me servindo de alguma maneira...
Nuramon puxou a espada:
— Chega!
— Você quer arriscar a sua vida por um amante chifrudo, Liodred? — escarneceu o devanthar. — Será que a vaidade ferida dele vale o seu sangue?
— Eles o chamam de enganador... — começou o rei.
O devanthar riu. Pequenas rugas circundaram seus olhos.
— Olhe você mesmo para eles! Será que os dois elfos aqui fariam caras tão carrancudas se essa história não fosse verdade?
— Também é verdade que você quer trazer a morte e a ruína para o meu povo, e por isso você vai morrer.
Com um movimento fluido, o devanthar deixou o hábito de sacerdote escorregar de seus ombros. Por baixo dele, vestia uma calça azul-escura muito justa e um cinturão de armas guarnecido de prata. O largo hábito de sacerdote escondia duas espadas curtas. Seu tronco estava nu e seus músculos brilhavam à luz das velas. O devanthar puxou as duas espadas estreitas, cruzou as lâminas na frente do peito e inclinou-se rapidamente em uma saudação.