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— Você acaba de se decidir por nunca mais rever o seu filho, rei.

— Chega de falatório! — Como um touro furioso, Mandred avançou.

O devanthar desviou de lado como um dançarino. Uma das espadas adiantou-se e resvalou tilintando no traje de malha de ferro de Mandred.

— Cerquem-no! — gritou Farodin para seus companheiros.

Tanto fazia a agilidade que o devanthar pudesse ter: nenhum lutador conseguia manter os olhos em toda parte.

Farodin puxou a espada e o punhal e atacou ao mesmo tempo que Nuramon. Mais rápido que o olhar conseguia acompanhar, as lâminas agitaram-se no ar. O devanthar as bloqueou e curvou-se por baixo de um golpe de machado de Liodred. A luz azul brilhava como fogo ao redor das armas enfeitiçadas. Enquanto bloqueava uma das lâminas com a espada, Farodin conseguiu penetrar na guarda do devanthar, cravando seu punhal nos músculos do peito, na altura do coração, riscando-o com um corte escuro. O ferimento não foi profundo. Surpreendentemente, mal sangrava.

Farodin recuou com um salto para escapar de um contra-ataque. O devanthar não o perseguiu; em vez disso, deu uma investida na direção de Liodred. Com a espada, ensaiou um golpe na cabeça, mudou a direção da estocada no último instante e passou por baixo do machado do rei. Arranhou o peitoral da armadura de Liodred, fazendo o ruído que Alfadas um dia também ouvira.

— Um belo trabalho — elogiou o devanthar, recuando para ficar fora do alcance do machado. — Se fosse aço humano, minha lâmina teria atravessado.

Quase como se estivesse brincando, bloqueou um golpe de machado que Mandred desferira contra suas costas. A segunda espada golpeou a arma de Liodred de lado.

— Morra, demônio. Eu... — gritou encolerizado o soberano da terra dos fiordes.

A lâmina do devanthar cortou suas palavras no meio. Tinha atingido a boca do rei.

— Não! — gritou Mandred, lançando-se para a frente com a coragem do desespero.

Saltou para um ataque ao devanthar. Uma espada resvalou acima de sua sobrancelha, deixando um corte aberto, mas o ímpeto do ataque tirou o equilíbrio do falso sacerdote. Ambos caíram no chão. Imediatamente Nuramon já estava sobre eles. Conseguiu deter um golpe que mirava a garganta de Mandred.

O devanthar rolou de lado e ergueu-se novamente com a agilidade de um gato. Lançou um olhar zombeteiro a Liodred. O rei estava no chão. Sangue escuro saía por sua boca.

— De que serve a melhor armadura quando não se usa um elmo? — debochou.

Mandred estava novamente em pé e avançou mais uma vez. O jarl agitou seu machado como uma foice, obrigando o devanthar a recuar. Farodin apressou-se em seu auxílio. E Nuramon também atacou novamente. Finalmente conseguiram deixar o devanthar na defensiva. Farodin descobriu uma brecha na defesa do oponente. Abaixou-se e deu uma estocada firme, atravessando sua espada por baixo da axila do sacerdote impostor. A lâmina passou junto à omoplata e saiu novamente pelas costas. Com um solavanco, o elfo soltou sua arma do inimigo.

Um tremor percorreu o devanthar, mas ele não emitiu nenhum ruído de dor. Apesar do ferimento mortal, defendeu um golpe de Mandred, desviou do machado com um giro e martelou o punho de sua espada contra a testa do firnstaynense. Mandred caiu como se tivesse sido atingido por um raio.

Nuramon aplicou um ataque profundo mirando a virilha do impostor. Sua espada foi bloqueada. Com uma rotação sobre os tornozelos, o oponente jogou a arma do elfo de lado. Um contra-ataque rápido retalhou a armadura de couro de Nuramon bem abaixo da garganta.

O braço direito do devanthar agora pendia, inútil. Mas ele não deixara cair a segunda espada. Farodin estava admirado que a ferida sob a axila mal estivesse sangrando.

— Acharam realmente que eu não estaria preparado? — zombou o devanthar. — Contava com Emerelle e seus melhores guerreiros. — Ele fez uma cara ofendida. — Se ela não vem até mim, logo a visitarei na Terra dos Albos com meus cavaleiros da ordem. — Com a espada, desenhou uma runa no ar e emitiu um som gutural. Então apontou para a abóbada com a estrela alba. — Tanto faz como a luta vai terminar: eu já os prendi em meu feitiço.

O devanthar ergueu a mão direita e passou-a na testa com um gesto exagerado.

Farodin viu nitidamente que o ferimento sob a axila havia se fechado. Devia ter sido o poder da maldita pedra dos albos!

Gemendo, Mandred tateou a própria testa.

— Ora, humanozinho! — zombou o sacerdote. — Para você eu pensei em algo especial. Vou cortar o seu fígado fora para que seja devorado. Você vai se surpreender com quanto tempo a magia vai conservar sua vida sem aliviar qualquer dor!

Enquanto o devanthar ainda falava, Farodin atacou novamente. Uma verdadeira chuva de golpes baixou sobre o enganador. Passo a passo, o elfo o empurrava em direção ao portão de bronze. Nuramon também voltou a atacar. Sua espada resvalou no braço do devanthar, deixando um corte bem aberto. Novamente não houve qualquer gemido que esboçasse dor.

Com um golpe de revés, Farodin fez uma longa e rasa escoriação na barriga do inimigo. No mesmo instante, um golpe penetrou na guarda do elfo. Ele jogou a cabeça para o lado, mas ainda assim levou um corte na bochecha.

Nuramon também sangrava por vários ferimentos leves. A impressão era de que o devanthar estava brincando com eles, com a intenção de prolongar a luta por puro prazer zombeteiro. Os pequenos cortes e contusões estavam consumindo aos poucos as forças dos companheiros.

De súbito, uma investida dilacerou de vez a armadura de couro de Nuramon. O sangue escuro ensopou a camisa que vestia por baixo e molhou a almandina castanho-avermelhada que pendia de seu pescoço em uma corrente fina. Um brilho profundo irradiou do interior da pedra.

Inesperadamente, o devanthar deu um grito surpreso e recuou. Sangue escorreu do seu olho esquerdo. Com golpes rodopiantes, ele investiu contra Nuramon. Farodin pulou entre eles e tentou apartar o demônio, que agora lutava como louco. O devanthar tentou afastar o elfo com um pontapé, fazendo-o tropeçar, e investiu contra ele com as duas espadas. Farodin conseguiu bloquear o golpe da mão direita, mas não evitou o golpe da esquerda, que acertou de lado a cabeça de Nuramon. O elfo foi lançado contra um dos nichos da parede, bateu com força contra a pedra e não se levantou mais.

— Agora você, Farodin — bufou o devanthar.

A zombaria havia terminado. Tinha uma cavidade escura onde antes houvera um olho. Sua carne esfolada estava queimada como se o tivessem torturado com um ferro em brasa. Investiu contra o elfo com uma fúria desenfreada. A mira de seus golpes estava pior que antes, mas a violência dos ataques obrigava Farodin a apenas se defender. Ele recuava, abaixava-se ou desviava com giros, sem encontrar espaço para aplicar um golpe. O devanthar o empurrou pelo portão de bronze até uma sala dominada por um grande trono de pedra. Ao longo das paredes havia grandes estátuas de deuses, presas como o gallabaal por pesados grilhões de ferro. Tochas e uma grande bacia com pedaços de carvão em brasa iluminavam o cômodo.

Farodin sentiu suas energias esmorecerem. Pensem em Noroelle! Nada dará mais força a vocês. Essas tinham sido as palavras de despedida da rainha. Farodin bloqueou um golpe com o punhal e curvou-se por baixo de um golpe de revés. Se ao menos conseguisse alcançar a esmeralda de Noroelle! Carregara a pedra preciosa havia tantos anos na bolsa de couro em seu cinto. Sempre sentira nitidamente a magia que morava no interior da gema, mas sem entender para que serviria. Era provável que Noroelle suspeitasse que eles um dia encontrassem o devanthar. Ela dera as pedras a eles não somente como uma lembrança, mas também como proteção.