Esgotado, interrompeu o feitiço e caiu de joelhos. Quando se recompôs, viu os rostos espantados de seus companheiros.
— O que aconteceu? — perguntou Mandred.
— Não, isso não! — gritou Farodin.
Seu olhar pareceu se perder no vazio, mas Nuramon sabia o que seu companheiro estava vendo. As chamas ao redor das trilhas dos albos também eram visíveis para ele.
— É essa a vingança do devanthar!
Eles estavam presos. Assim como a barreira da rainha bloqueava o caminho até Noroelle, a barreira do devanthar os impedia de deixar o Mundo Partido. O olhar de Nuramon pousou sobre a pedra alba nas mãos de Farodin. Era a única esperança. Mas eles não sabiam nada sobre ela. Precisariam aprender a utilizar o seu poder. Poderia levar anos até que decifrassem os segredos da pedra dourada, e eles não tinham esse tempo, pois ali não havia água nem alimento. Morreriam de sede antes de sequer começarem a explorar a pedra.
— Ali! — gritou Mandred de repente, apontando para um dos grandes discos prateados que cercavam a estrela dos albos.
O jarl agachou-se.
Nuramon e Farodin olharam por cima do ombro em sua direção. Na superfície do disco de prata surgiu uma imagem, quase como as do espelho-d’água da rainha. Mostrava o fiorde de Firnstayn. Conseguiam ver o círculo de pedras a partir do oeste e, atrás dele, lá embaixo, a cidade. Já era de manhã, e as fogueiras da vitória pareciam apagadas. O braço do fiorde esticava-se para o sul. As galeras dos elfos e as fortalezas ambulantes dos trolls haviam desaparecido. Ao longo da margem, ainda se viam os montes de cinzas das piras funerárias. Não restava dúvida: o disco prateado mostrava Firnstayn após a batalha marítima.
De repente, algo se moveu. Eram as ondas! Elas se moviam como se um vento violento estivesse soprando no fiorde. Mas havia algo de errado com a imagem. As ondas eram pequenas demais para que fosse um vento forte. Surgiram nuvens no campo de visão, que voavam depressa no céu azul. Quando o sol surgiu e avançou rápido, ficou claro que não era vento o que movia as nuvens e as ondas. O sol arrastou-se velozmente até o horizonte e então veio a noite com suas estrelas, para poucos instantes depois dar lugar a um novo dia.
O tempo passava diante dos olhos deles. Nuramon lembrou-se da Gruta de Luth, em que ficaram presos no tempo. Na frente da parede de gelo que bloqueara a passagem, eles haviam observado um jogo de luzes semelhante. Daquela vez, só conseguiram sair da caverna trinta anos mais tarde.
Mandred exprimiu em palavras o que Nuramon estava pensando:
— Por Luth! Esse maldito devanthar nos prendeu na mesma armadilha! — O jarl sacudiu a cabeça, infeliz, e olhou fixamente para a sua cidade.
— Só que desta vez não há ninguém para nos libertar — disse a voz baixa de Farodin. — Que idiotas nós fomos!
— Talvez a rainha venha em nosso socorro — retorquiu Nuramon.
— Você se lembra do que Emerelle disse? — Farodin perguntou ao companheiro. — O devanthar estava contando com ela ou com a xamã dos trolls. Ele mesmo nos confirmou isso durante a luta.
Nuramon lembrava-se disso. Mas a rainha também falara de outras pessoas poderosas. Naquele momento, contudo, isso podia não significar nada.
— Você quer dizer que caímos nesta armadilha pela rainha?
— Sim. E ela faria tudo menos se arriscar a vir até o mosteiro, onde o feitiço de um sacerdote com sangue de demônio nas veias poderia lhe custar a vida.
Nuramon balançou a cabeça afirmativamente. Farodin tinha razão. Estavam abandonados à própria sorte.
— Então teremos de tentar nos impor contra o poder do devanthar. Não temos outra escolha. Só nos resta esperar que consigamos, de alguma forma, aprender a usar a pedra dos albos.
— E como seria possível? — gritou Mandred.
Nuramon observou o disco de prata. O dia e a noite já não se distinguiam mais. Só havia a luz turva do crepúsculo. A neve e a grama se revezavam, mostrando a rapidez com que os anos passavam. Mas não era isso o que mexia com Mandred. Ele apontou para o círculo de pedras. Lá se via um portal — mas não o portal de névoa que lhes era familiar. Nada o cobria: eles podiam olhar diretamente para a Terra dos Albos, deslizar os olhos pelas colinas e ver as ruínas da torre. Era possível reconhecer até o carvalho Atta Aikhjarto, com toda a sua ramada.
— Por que o portal está aberto?
Nuramon ficou horrorizado. Se o tempo se esvaía tão rápido diante de seus olhos, só permanecia visível o que continuava existindo. Eram as montanhas, a cidade, a vaga superfície da água, o círculo de pedras e a vista para a Terra dos Albos. Se um elfo ou um humano passassem ali na frente, eles sequer perceberiam, a não ser que ele permanecesse imóvel por uma estação inteira do ano. O portal para a Terra dos Albos continuava aberto, enquanto as estações se alternavam cada vez mais rápido diante de seus olhos. A cidade também crescia, e o porto ia ficando cada vez maior. Como os anéis que se formam no tronco de uma árvore com o passar dos anos, fileiras de casas cresceram para além dos muros, até que foi construída uma segunda muralha na cidade, mais forte e com altas torres.
Então aconteceu algo que eles jamais esperariam. O portal para a Terra dos Albos cresceu como uma rachadura que atravessava o mundo; desceu pelo rochedo íngreme e alcançou o fiorde; e estendeu-se sobre a água até a praia onde Emerelle criara para eles o portal até o mosteiro. O que estaria acontecendo? Seria esse o fim da Terra dos Albos? Não poderiam fazer nada além de assistir à tragédia? A raiva nasceu e agora crescia dentro de Nuramon.
— Isso não pode ser verdade — disse Farodin. — Tem de ser uma enganação, uma ilusão do devanthar! Essa não é a realidade!
Nuramon sacudiu a cabeça. Não acreditava que fosse isso.
— Dê-me a pedra dos albos, Farodin! — e sequer esperando que fizesse o que pedira, simplesmente a apanhou.
Farodin o encarou, mal-humorado, mas então percebeu a expressão resoluta de Nuramon.
— Você vai conseguir — disse, por fim.
Mandred, por sua vez, estava totalmente ausente. Só tinha olhos para a imagem no chão.
Nuramon recuou de volta para a parte dourada do chão e preparou-se para o feitiço. Qualquer coisa que acontecesse, não desistiria até quebrar a barreira.
Mal começara e o fogo ao redor das trilhas dos albos se inflamou, acertando-lhe em cheio. Línguas em brasa penetraram em seu crânio. Mas ele não parou: em vez disso, tentou resistir. Rapidamente reconheceu que era muito inferior à magia do devanthar. Então tentou desesperadamente encontrar uma maneira de se apoderar da magia da pedra dos albos. Imaginou que estava sendo preenchido pela força dela, mas nada aconteceu. Ele apertou forte a pedra preciosa na mão, como se pudesse espremer para fora dela o poder que continha. Tentou até recitar um feitiço de cura para ela. Em vão! A pedra dos albos, cujo poder oculto ele de fato conseguia sentir, esquivava-se de sua magia quando o calor das chamas parecia queimá-la. A única coisa que a pedra conseguia lhe dar era o frio. Suas mãos ficavam livres do calor.
Então era isso! Não tinha de tentar avançar sobre o fogo com toda força, mas tentar suportar as chamas. O frio da pedra dos albos contra o calor do fogo! Ele deslizou a mão suavemente sobre a superfície do crisoberilo, e então sentiu o frio que seu interior guardava. Teve a sensação de que um rio gelado subia pelos seus braços, espalhando-se lentamente por seu corpo como o sangue que fluía em suas veias. A pedra era uma nascente. Ele pensou na nascente do Lago de Noroelle sob as duas tílias e nas pedras preciosas que descansavam dentro dele. As chamas ainda lambiam Nuramon, mas ele podia ver que, ao tocar seu corpo, elas se recolhiam. Agora ele só precisava direcionar a força da pedra para romper a barreira, e então teriam conseguido. Mas quando aproximava a pedra do fogo, as costas de sua mão queimavam, enquanto as palmas pareciam congeladas.