Ela veio em direção a eles.
— Farodin! — disse ela. — Já faz muito tempo que nos encontramos.
— Giliath. Eu pensei que todos os libertos de Valemas estavam…
— Mortos? Não. Um punhado de nós sobreviveu. E complicou a vida dos sacerdotes de Tjured.
— E vocês voltaram para cá? A rainha se desculpou pela injustiça que cometeu com vocês ou algo parecido?
Ela sorriu em silêncio, mas não respondeu a Farodin. Em vez disso, dirigiu-se a Nuramon:
— Nós devemos a uma grande feiticeira o fato de termos encontrado o caminho de volta para a Terra dos Albos, e de agora estarmos habitando novamente a nossa velha cidade. E essa gratidão também diz respeito a você, Nuramon. Você reconheceu algo de especial na filha de Hildachi e deu a ela o nome de Yulivee. Uma Yulivee nos levou embora da Terra dos Albos, outra Yulivee nos trouxe de volta. — Ela segurou a mão de Nuramon e ele pôde sentir que os dedos dela tremiam. — Ela nos contou tudo.
— Yulivee está aqui? — perguntou Nuramon.
Antes que Giliath pudesse responder, Xern tornou a sair da barraca e gritou:
— A rainha da Terra dos Albos!
Giliath apertou a mão de Nuramon mais uma vez; então saudou Farodin com a cabeça e retornou para baixo do estandarte de Valemas.
Os guardas junto à barraca da rainha abriram as lonas que cobriam a entrada. Emerelle então saiu. Nuramon jamais se esqueceria dela. Tudo passava, só a rainha permanecia. Estava bela como sempre. Como um dia desejara que ela pudesse vê-lo como um amante! Quando havia desejado isso? Não sabia dizer. Só sabia que esse sentimento não existia mais. Seus próprios pensamentos o confundiam.
Quando Obilee saiu, Nuramon se admirou. A melhor guerreira da rainha não tinha mudado nada. Vestia a mesma armadura do dia da batalha marítima. Era quase como se ela tivesse saltado os séculos junto com ele e seus companheiros, mas, diferentemente do que acontecia naquela época, Nuramon agora via alegria em seu rosto. Alegria que ela irradiava na direção dele, e só dele, não na de Farodin, nem na de Mandred.
Por fim, saiu da barraca uma elfa com um traje cinzento de feiticeira. Seria Yulivee? Aquela mulher mal lembrava a criança que, de acordo com sua noção de tempo, vira pela última vez só há poucos dias. Seu cabelo castanho-escuro ondeava-se até os ombros e duas tranças longas e grossas desciam-lhe até os cotovelos. Ela caminhou ao lado da rainha e seguiu-a até sua pedra. Por seu sorriso divertido, Nuramon finalmente a reconheceu. Tinha mudado muito, mas o sorriso ainda era o mesmo.
A rainha tomou lugar em sua pedra, com Obilee à direita e Yulivee à esquerda. Nuramon não se surpreendeu quando Yulivee se sentou como líder sob a bandeira de Valemas.
Emerelle examinou seus dois companheiros e ele por um bom tempo, causando inquietação e provocando comentários entre os guerreiros. O silêncio retornou quando ela ergueu a mão.
— Bem-vindos, meus fiéis heróis! A Terra dos Albos nunca ficou tão feliz em vê-los! — O rosto da rainha era o de uma soberana bondosa. — Eu não tive dúvidas de que este dia chegaria. Então vocês aniquilaram o devanthar.
Farodin concordou elegantemente com a cabeça.
— Nós o matamos e capturamos sua pedra alba — disse, mostrando a pedra. — Se ela puder ajudá-la na luta contra o inimigo, então nós a confiaremos a você. Mas já sabe para que usaríamos uma pedra como essa.
A rainha desviou o olhar brevemente.
— Não esqueci que vocês querem libertar Noroelle. E só vocês podem decidir o que devemos fazer com essa pedra alba. Ninguém os privará dessa escolha. Desde a batalha marítima reina a guerra entre nós e os sacerdotes de Tjured. O poder deles cresceu e eles ocuparam as terras do outro lado da Shalyn Falah. Eles até já penetraram no coração de nossas terras.
— Eles atravessaram a Shalyn Falah? — perguntou Mandred, indignado.
Em vez de responder, Emerelle olhou em volta, como que procurando algo. Finalmente Ollowain deu um passo à frente das fileiras de guerreiros.
— Não, Mandred!
O guardião da Shalyn Falah não parecia nem de longe ser tão bélico quanto antes. Mas era provável que tivesse acabado de lutar em uma batalha. Aproximou-se da rainha:
— Nenhum inimigo cruzou a Shalyn Falah. Eles invadiram por outro lugar.
— Pelo caminho que Aigilaos tomou naquela época?
Ollowain baixou os olhos para o chão.
— Isso realmente já faz muito tempo. Mas você tem razão.
Então a rainha disse:
— Quando a chegada de vocês se aproximou, dei a ordem para fazerem o inimigo recuar com toda força das terras centrais.
Nuramon lembrou-se da região. A Shalyn Falah passava por cima de um desfiladeiro profundo e era necessário um caminho de muitas horas para contorná-lo. Isso oferecia aos defensores tempo suficiente para que se organizassem.
Emerelle prosseguiu:
— Fiz isso para que pudéssemos ganhar esta guerra à nossa maneira. Se vocês três me confiarem sua pedra alba, assumiremos a nossa herança. Nós faremos o que os albos um dia fizeram. A Terra dos Albos ficará para sempre separada do Outro Mundo!
O silêncio se instaurou. Nuramon viu os guerreiros se entreolharem, perplexos. A rainha havia sugerido fazer como os albos! Ela ergueu-se de seu lugar:
— Nós empurramos o inimigo de volta para a terra entre a Shalyn Falah e o portal de Atta Aikhjarto. Mas eles já estão reunindo novas forças para contra-atacar. Nossa previsão é de que tentarão uma nova invasão das terras centrais com um exército imenso. Por isso, precisamos pôr nosso plano em ação o quanto antes.
— E como é exatamente o plano? — perguntou Farodin. — Como podemos nos separar do Outro Mundo?
— Enquanto nossos guerreiros defendem as terras centrais, nós ganhamos tempo. Sem serem incomodados pelos sacerdotes de Tjured, os poderosos da Terra dos Albos declamarão dois feitiços com as pedras dos albos. O primeiro separará todas as terras do outro lado da Shalyn Falah para sempre da Terra dos Albos. O segundo feitiço cortará todas as trilhas entre a Terra dos Albos e o Outro Mundo. Então estaremos livres de Tjured e seus criados. — E olhando para Mandred: — E os fiordlandeses criarão novo ânimo para erguer suas espadas se o seu antecessor retornar como rei para lutar com eles por um lugar eterno na Terra dos Albos.
Mandred pareceu contente, mas muito mais transtornado. Estava claramente consciente da proporção dessa honra. Nunca os humanos haviam obtido um lugar fixo na Terra dos Albos, e agora a rainha oferecia um presente como esse para um povo inteiro.
Emerelle dirigiu-se a Farodin:
— Mas isso tudo só poderá acontecer se nos entregarem a pedra dos albos de vocês.
— Então teremos de desistir de Noroelle? — perguntou Farodin.
— Não, vocês deverão escolher. Podem pegar a pedra, ir até Noroelle e libertá-la. Ou então salvar a Terra dos Albos com ela. Mas alerto: às vezes a prisão é melhor do que a consciência de que tudo que já foi um dia está perdido.
Nuramon não conseguia acreditar no que a rainha lhes propunha. Decidir entre Noroelle e a Terra do Albos! Essa era realmente uma escolha? Eles estavam cercados de guerreiros. A rainha poderia simplesmente tomar a pedra deles a qualquer momento. Não, eles não tinham escolha. Não podiam fazer nada além de dar a pedra a Emerelle. Trocou um olhar com Farodin e no rosto do companheiro viu o desespero. Por fim, balançou a cabeça afirmativamente.
Farodin concordou:
— Nós entregaremos a pedra a você, pois, caso contrário, a liberdade seria mais cruel para Noroelle do que a prisão. Mas ainda haveria outra forma de salvar Noroelle antes?